Sorria, o capitão vai levantar a taça

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Quando vi a notícia da morte de Carlos Alberto Torres a primeira coisa que veio à cabeça foi prestar uma homenagem rápida neste blog. De imediato vasculhar o Youtube em busca do gol antológico contra a Itália na final da Copa do Mundo de 1970. Depois, selecionar algumas fotos importantes e um texto curto sobre o desaparecimento do capitão do Tri.

Então escrevi assim: Carlos Alberto Torres morreu aos 72 anos nesta terça–feira (25/10) vítima de infarte fulminante. Ele estava na sua casa no Rio. Lateral-direito da maior seleção de futebol de todos os dos tempos, a do Brasil na Copa do Mundo de 1970, o Capita do Tri, como era conhecido, vai embora em mum momento difícil do futebol brasileiro. Vai fazer muita falta. Aos que não conheceram esse extraordinário jogador, uma homenagem desse blog com a obra de arte dele na final do Mundial quando marcou o quarto gol da estrondosa vitória por 4 a 1 contra a Itália no México.

E postei o vídeo e as fotos abaixo:

Tês times consagrados com Carlos Alberto Torres: seleção de 70, Santos e Fluminense

Mas isso era pouco. Algo mais fundo remexia na minha alma com a notícia da morte do Capita. A memória começou a se conectar com o passado e a me obrigar a escrever um pouco mais. O capitão do Tri, recordo agora, foi um dos que me levaram a ser apaixonado por futebol. Presta atenção nesta história que vou contar.

Menino na Guaxupé, Sul de Minas, corria na única banca da cidade, nas segundas-feiras, a comprar a Placar recém-lançada naquele bendito ano de 1970. Me impressionava as cores dos uniformes dos jogadores e mais ainda com aquele calção azul-claro e a camisa amarela da cor dos canarinhos da terra, os cabecinhas de fogo, que frequentavam meus quintais. Fotos dos jogos, textos e ilustrações em formato pôster da façanha da Seleção Brasileira no México – tenho todas revistas daquela época encadernadas na minha estante – me encantavam.

selecao_brasileira_tricampea_1970_final_italia1Por quase um mês, me deliciei com a Placar. E, mais ainda, com os jogos daquela Copa inesquecível, nos aparelhos da TV na minha casa e na casa do meu Vô Pedro na mesma rua 13 de maio. Cada vitória e corríamos às ruas em êxtase. Aos 14 anos, não entendia muito das nuances do futebol, mas sabia apreciar o jogo bonito. Aliás, daquela Seleção não se esperava nem encontraria o futebol feio.

Na decisão contra a nossa Itália, sim somos todos descendentes direto de italianos, sonhávamos com uma festa histórica. Meu pai desenhou o Toppo Giggio, personagem de desenho animado de sucesso no Brasil naquela época, em uma placa de eucatex, vestido com o uniforme da Seleção. Pintou e recortou. Lembro-me bem, era maior do que eu.

Quando Carlos Alberto Torres marcou aquele golaço, o quarto do Brasil, saíamos em desembalada correria da salona da casa do Vô Pedro para subir na ximbica do meu tio João e, com ajuda de minha irmã, primos e primas, colocarmos o Topo Giggio na caçamba. Dali desceríamos a ladeira até avenida principal de Guaxupé para festejar o Tri. Antes do desfile triunfal de alegria, esperamos o capitão levantar a taça Jules Rimet e aí, sim, cantar a glória na cidade.

Esperei por uma semana até a Placar chegar na banca e a receber das mãos de meu pai. De novo, mergulhei nas páginas como num filme. A Copa de 70 estava nas minhas mãos.

Dali pra frente, nunca mais deixei de gostar de futebol. Aqueles magos da bola haviam me  conquistado. A cena de Carlos Alberto Torres levantando a taça estava definitivamente impregnada na minha retina e alma.

Mal sabia que algum tempo depois eu seria um jornalista dedicado ao futebol. Menos ainda que teria o privilégio de ver um capitão da Seleção levantar a taça da Copa, dessa vez ao vivo e a poucos metros de onde eu estava, como Dunga em 1994 e Cafu em 2002.

692f7f82aac899f0e3196b0a5867a95eNaqueles dias de celebração, tanto nos Estados Unidos como no Japão, a lembrança de Carlos Alberto Torres erguendo a taça do Tri se fez presente. O menino emocionado em Guaxupé de 1970 agora era homem feito. Mas as lágrimas de alegria eram as mesmas.

Uma Copa do Mundo marca uma vida. Um capitão a levantar aquele pedaço de ouro, marca mais ainda. O futebol ensina, conta histórias inimagináveis, entristece e alegra. Quando um dos grandes desse jogo da bola desaparece, como o capitão de 70, o imortal Carlos Alberto Torres, a gente fica sem palavras, em silêncio, apenas a recordar. Recordar.

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