Nada será como antes, amanhã

Meu filho está numa grande universidade do Brasil neste 2018. Tem 18 anos. Quando eu tinha a idade dele, também estava em uma universidade. Tinha sonhos a cumprir e lutas a resolver.

Era um inconformado com os rumos do país. Não queria viver amarrado. Brigava por liberdades, o ir e vir. Contra as desigualdades, entre abastados e desvalidos. Não me conformava com a ditadura. Estávamos em 1975, 11 anos sob regime militar opressor.

Lembro que na morte de Vladimir Herzog, assassinado no DOI-CODI em outubro daquele ano de 1975, escrevi um artigo condenando o ato e afixei com alfinete no jornal mural da PUC-Campinas, onde cursava primeiro ano de jornalismo, na parede de entrada de nossa sala de aula.

Meus colegas de classe, morrendo de medo, retiraram o artigo do mural. Você está louco, disseram. O artigo vinha acompanhado da primeira página do jornal alternativo EX, com Herzog pendurado num fiapo de corda em montagem dos militares e seus bajuladores, em um porão do DOI-CODI na rua Tutóia em São Paulo.

Aquela censura ao meu artigo me levou a sair de Campinas deixando para trás um estágio no Diário do Povo, então um dos grandes jornais de cidade, e a partir rumo ao Rio de Janeiro.

Pedi transferência para PUC-Rio. Consegui a transferência. E passei a viver um dos grandes momentos de minha vida. Ali, entre os pilotis da PUC na Gávea, eu não era censurado, nem tinha medos. Engajei no movimento estudantil, participei de passeatas, assembleias, atos de resistência, e vi de perto que resistir era preciso.

O Rio me dava asas em um momento fértil de ideias. Artistas maravilhosos no auge de sua criatividade, como Caetano, Milton, Chico, Gil, Gismonti, Jobim, João Gilberto e outros tantos da constelação infinita. Sem falar de jornalistas imortais e escritores além do meu pequeno horizonte e ativistas nos cantões e favelas.

Aprendizado de luta e de ideias levei tudo aquilo para minha aldeia, no Sul de Minas, sempre escorado com amigos fraternos e íntimos do meu coração pequeno. Queria atuar mais perto dos esquecidos de Minas. Nunca me conformei com desigualdades.

Ao lado de um padre, um missionário das Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica a revolver o chão na província, companheiros de luta de Belo Horizonte e da terrinha, fundamos um partido na terrinha no início dos anos de 1980.

Era um jeito de lutar contra ditadura e a oligarquia rural dominante na pequena e bucólica cidade mineira. Passei por muitos aborrecimentos, sofrimentos e angústias até mesmo dentro da família, por causa da fraterna amizade com filhos dos oligarcas e paixões com filha do senhorio. Segui em frente.

Em outubro de 1984, jornalista formado, entrei no Estadão para trabalhar na redação do Jornal da Tarde, um libelo da liberdade e do jornalismo moderno.

No JT me formei repórter. Conheci o mundo. Entendi todas as razões de um grande jornal brasileiro ser refém da elite dominante. Como se derruba uma página impressa na gráfica que contrariava interesses mais altos e não poderia estar no corpo do jornal no dia seguinte. Como se trata a cabeça dos pensantes e dos ignorantes.

Passei 31 anos lá dentro do JT e Estadão. Vi tudo de muito perto. Conheci gente maravilhosa, digna, e alguns poucos pulhas. Aprendi com todos eles. Nunca entendi que um grande jornal não fosse defensor das liberdades democráticas.

Estamos em 2018. Volto ao início da nossa conversa. Não quero falar de futebol neste 27 de outubro. Quero apenas expor meu sentimento como cidadão comum.

Não queria ver meu filho, 40 anos depois do que eu passei, lutando contra as mesmas angústias e retrocessos de minhas lutas. Queria que ele estivesse em outra trincheira, de novas ideias e luminosidade. Que o obscuro não existisse.

Tenho esperança, mangas arregaçadas e punhos erguidos de que tudo isso vai ser derrotado. Meu universo não é maior que o dele. E o dele é igual ao de todos. Pense nisso tudo. Depois a gente conversa. Nada será como antes. Amanhã.

 

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