Brasileirão 2020 refém do Covid e críticos servem cabeça de treinadores na bandeja

Brasileirão 2020 fecha a terceira rodada refém dos efeitos da Covid e lubrificando a máquina de moer treinadores. Até parece que a pandemia no Brasil – com registro de mais de 107 mil mortos até este fim de semana (15 e 16/8) – acabou há muito tempo e que o campeonato transcorre no seu curso natural. Por isso, a pressa nas análises do desempenho e comportamento dos técnicos chega a ser assustadora.

Há uma enorme tensão e medo entre jogadores, treinadores, comissões técnicas, funcionários e dirigentes dos clubes. Veja depoimento do zagueiro Ernando, autor do gol da vitória do Bahia contra o Bragantino neste domingo (16/8) após o jogo:

Mesmo assim, daqui e dali, na chamada mídia esportiva, se multiplicam críticas condenando as recentes exibições dos times. Uma cobrança acima do tom por futebol de excelência. “Vazio de ideias”, “sem padrão de jogo”, “falta de qualidade”, “medo de ganhar”, “futebol pobre”… uma penca de adjetivos sempre a crucificar os treinadores e alguns jogadores.

A bola da vez dos inquisidores é Vanderlei Luxemburgo, atual comandante do Palmeiras. A campanha de torcedores nas redes sociais, com sinal positivo de muitos críticos de futebol, é pela queda do treinador. Argumentam que, “pelo elenco que tem, o Palmeiras deveria jogar muito mais do que vem jogando”.

Nenhuma análise, seja nos programas de TV, sites de futebol e redes sociais, leva em conta os quatro meses de paralisação do futebol por causa da pandemia. Exigem de Luxemburgo um futebol inovador, um Palmeiras rápido, insinuante.

As críticas não levam em consideração a saída de Dudu, referência do time nos últimos cinco anos, no momento em que o time retomava os treinamentos depois de quase 150 dias de inatividade.

Quando Luxemburgo começava a ensaiar na prancheta como seria o Palmeiras em Dudu, se viu obrigado a passar por cirurgia de vesícula emendando com positivo para Covid. Treinador passou quase 20 dias de isolamento na soma dos dois casos de saúde.

Na volta ao trabalho ainda consolidou a conquista do título do Paulistão em cima do maior rival Corinthians.

Dois empates consecutivos (Fluminense fora e Goiás em casa) no Brasileirão, a cruz e espada pesam na cabeça de Luxemburgo.

Ah, mais Atlético-MG, Internacional e Grêmio também estavam parados devido à pandemia e voltaram bem melhor que o Palmeiras. Mentira. Atlético-MG, Inter e Grêmio estão em atividade desde maio.

Atlético de Jorge Sampaoli treina há quase quatro meses no seu CT Cidade do Galo, localizado no município de Vespasiano – liberado para atividades esportivas em maio – perto de Belo Horizonte.

Inter e Grêmio também treinam desde maio e só em julho, na volta do Campeonato Gaúcho, foram obrigados a deixar Porto Alegre.

Em três rodadas do Brasileirão, o Grêmio venceu Fluminense em casa (1 a 0), empatou com Ceará (fora) e Corinthians (em casa). O Inter venceu Coritiba (1 a 0) fora de casa, ganhou do Santos (2 a 0) no Beira-Rio e perdeu do Fluminense (2 a 1) no Maracanã.

Atlético-MG 100% soma vitórias diante do Flamengo (1 a 0) na base boa retranca, contra o Corinthians, em virada por 3 a 2 quando perdia por 2 a 0 no Mineirão, e por 2 a 0 contra o Ceará também no Mineirão com direito ao segundo gol nos acréscimos depois de suar sangue diante do time nordestino. Não apresentou nenhuma maravilha nesses três jogos, além da eficiência.

Outro treinador criticado, nem tanto como Luxemburgo, mas também crivado de balas é Tiago Nunes. Seu Corinthians voltou da pandemia com 21 jogadores positivo para Covid. Perdeu Vagner Love e Pedrinho, negociados, e ganhou Jô acima do peso e há quase seis meses sem jogar.

Mesmo assim chegou à final do Paulistão contra o Palmeiras. E na primeira rodada do Brasileirão perdeu dois jogadores (zagueiro Gil e o garoto Natel) positivos para Covid. Em dois jogos, uma derrota (Atlético-MG fora de casa) e um empate (Grêmio em Porto Alegre).

Tiago Nunes sofre pressão no Corinthians

São Paulo, em voo de brigadeiro antes da pandemia, voltou sem fôlego. Caiu fora do Paulistão derrotado pelo Mirassol. No Brasileirão, venceu o Fortaleza (1 a 0 em casa) e perdeu do Vasco (2 a 1 fora de casa). Diniz é candidato à crucificação. E parte da torcida esteve neste domingo à noite no portão do CT do São Paulo pedindo a cabeça do treinador.

Campeoníssimo Flamengo, favorito disparado ao título, ficou sem treinador com a saída de Jorge Jesus – por dinheiro e por medo da Covid – a uma semana da estreia no Brasileirão. Contratou o espanhol Domènec Torrent às pressas e levou duas cacetadas – derrotas para Atlético-MG e Atlético-GO – e venceu o lanterna Coritiba (1 a 0), que teve um jogador expulso.

Santos fez pior. Na semana da estreia no Brasileirão demitiu o treinador português Jesualdo Ferreira emendando a contratação de Cuca com um empate em casa diante do Bragantino na Vila, derrota para o Inter fora de casa e vitória (3 a 1) contra Athletico-PR na Vila.

Detalhe, Dorival Junior, técnico do Atlético-PR, foi recolhido à quarentena na quinta-feira (13/8) por dar positivo para Covid.

Neste domingo (16/8), na hora do almoço, o técnico Odair Helmann, do Fluminense, foi afastado às pressas também por positivo para Covid a poucas horas do jogo contra o Inter.

Goiás, do elogiado empate contra o Palmeiras, perdeu de uma vez 15 jogadores – todos positivos para Covid – na primeira rodada do Brasileirão. Os 15 cumprem quarentena isolados do time.

Antes mesmo de o Brasileirão começar, pouco mais de 150 jogadores da Série A testaram positivo para Covid.

E a CBF, que havia elaborado um minucioso protocolo médico antes do início do campeonato, se viu obrigada a rever boa parte de seu documento de saúde diante da multiplicação de casos de coronavírus na maioria dos 40 times das Série A e B do Brasileirão logo nas primeiras rodadas dos campeonatos.

Neste cenário de pandemia, cobrar bom futebol dos treinadores e exigir performances de alto nível técnico dos jogadores é de uma sordidez imensurável.

Clama o bom senso mais respeito aos profissionais do futebol. Não é hora de cobrar técnicos exigindo times formidáveis e jogos extraordinários. Muito menos pedir tudo aos jogadores.

Nem cabe comparar com o futebol europeu, de volta às atividades desde junho. Na Europa, a pandemia não assola mais o continente como nas Américas. E o Brasil tem sido um péssimo exemplo no trato deste gravíssimo problema de saúde pública.

As mais de 107 mil mortes e os quase quatro milhões de infectados no país não permitem fazer do futebol brasileiro uma bolha, um oásis, onde os efeitos da pandemia não seriam determinantes para a qualidade de um simples jogo de bola.

Os que cobram bom futebol, alto nível técnico e ideias geniais de treinadores neste momento são cúmplices do descaso com a pandemia no Brasil.

(post publicado no chuteirafc.com.br)