Luiz Antônio Prósperi – 13 julho 2026 (16h01)
Inventário da Derrota do Brasil na Copa 2026 chega ao terceiro episódio (#episódio3) da série. Carlo Ancelotti leva um choque de realidade quando sua proposta de jogo é pulverizada por Marrocos logo na estreia do Brasil na Copa. Ele descobre ou dissimula seus equívocos na convocação dos 26 jogadores, Neymar entre eles. E deixa pelo caminho alguns a quem botava fé como importantes no seu sistema de jogo. Este “abandono” cria instabilidade no grupo, mexe com vaidades. Sem muitas alternativas, Ancelotti recorre a Neymar no último ato da Seleção Brasileira e cimenta sua sepultura na Copa no dia 5 de julho em New Jersey.
Acompanhe aqui a linha do tempo das propostas equivocadas de Ancelotti até a derrocada diante de Haaland e da aplicada Noruega:
Vamos recapitular o início dessa história. Carlo Ancelotti assume a Seleção Brasileira com dois anos de atraso, efeito direto das mazelas de gestão da CBF (episódio 1). Assume em junho de 2025 quando poderia ter iniciado seu trabalho em junho de 2024, portanto dois anos antes da Copa de 2026.
Tempo curto e sem entender de fato a cultura, modos e costumes do futebol brasileiro, seja de gestão ou de paixão popular, Ancelotti tenta recuperar o tempo perdido. Ao público externo, diria torcedores, se esforça para aprender o idioma português e até decorar o Hino Nacional para cantar com os jogadores no cerimonial antes das partidas. Entende ainda que o Carnaval poderia servir de exemplo, modelo, a se encaixar no sistema da Seleção Brasileira.
Com esse discurso simpático, respeitoso e até bonachão, conquista o público e a maioria da mídia, seja esportiva ou não. Estava ali o Mister, um dos últimos sábios do futebol que nos devolveria o futebol vistoso e campeão mundial de outrora. Se iludiam torcedores e imprensa em geral. Babavam de euforia os influencers das mídias sociais. E o Mister embarca na megalomania da CBF de fazer da Seleção uma soberba, tratada de forma suntuosa e instalada em hotel e CT a peso de ouro nos Estados Unidos (episódio 2).
É com essa cabeça e convicção que Ancelotti desembarca nos EUA. Mesmo com pouco tempo de trabalho e escasso número de jogos no comando do escrete, Ancelotti se convence de que o Brasil para ser Brasil teria de seguir as diretrizes da CBF e, mais importante, precisava jogar com quatro atacantes: o menino Estevão, Raphinha, Matheus Cunha e Vini Jr. Linha de frente imbatível. Lá atrás, na defesa, ele seria “italiano”, por tradição muito forte nos sistemas defensivos. Joguem como brasileiros no ataque que minha defesa será italiana, era assim que Ancelotti pensava antes da Copa.
E aí se escancaram os seus enormes equívocos na lista dos 26 jogadores convocados. Mais ainda quando perde Estevão a poucos dias de divulgar a lista final da Copa. Sem Estevão, o seu diferencial entre os 26, algumas correções de rota deveriam ser feitas. Já não dava mais para insistir na linha de frente com quatro atacantes sem um jogador da característica de Estevão. Neymar poderia ser esse nome? Sim, desde de que não se apresentasse com a panturrilha esgarçada.

Os equívocos
A lista tem cinco zagueiros (Marquinhos, Gabriel Magalhães, Bremer, Leo Pereira e Ibañez), dois laterais marcadores e dois apoiadores (os veteranos Danilo e Alex Sandro e mais Wesley e Douglas Santos). Quando perde Wesley machucado no último amistoso antes da Copa, convoca volante Ederson e fica apenas com um lateral-direito de ofício, Danilo. Convocado para ser um coringa na defesa e lateral numa emergência, acaba virando titular. Zagueiro Ibañez inicia a Copa improvisado de lateral-direito. Vai mal na estreia e é descartado por Ancelotti ainda no primeiro tempo contra Marrocos e fica fora até o fim da Copa. Diria, desprezado. Bremer e Leo Pereira sequer jogam um minuto. Alex Sandro, apenas 8 minutos.
Ou seja, no seu sistema italiano de se defender não usou três zagueiros, nem se socorreu de alguns deles para reorganizar a cozinha. Ibañez, Bremer, Leo Pereira e até Alex Sandro ficam encostados.
No ataque, novos descasos. Ancelotti começa a Copa com Igor Thiago, centroavante de área, Paquetá na ponta-direita, Raphinha e Vini Jr. Leva um baile de Marrocos no primeiro tempo e pouco depois do intervalo, saca Igor Thiago e Paquetá substituídos por Luiz Henrique e Matheus Cunha. Igor Thiago e Luiz Henrique nunca mais são aproveitados até o fim da Copa. Mais dois jogadores encostados por Ancelotti.
Os renegados
A lista dos desprezados tem: Ibañez, Bremer, Leo Pereira, Alex Sandro, Igor Thiago e Luiz. Henrique – 6 jogadores entre 19, tirando dessa conta os três goleiros e mais Neymar. É muito jogador sem ser usado numa Copa de alto desgaste físico e exigências táticas. E ainda sem poder usar Neymar na sua plenitude, se é que um dia Neymar estaria pleno na Copa.
Ancelotti rasga seus conceitos. Os meninos Rayan e Endrick, que estavam no grupo na rampa do futuro para Copa de 2030, viram salvação. Rayan, 19 anos, se torna titular quando Raphinha se machuca (mais um). Endrick, pedido insistentemente pela torcida, só entra no time quando a vaca está atolada quase ao pescoço. O menino do futuro agora é do presente.
E Neymar? Se diz presente. Apto para apenas 15 minutos de fama e olha lá.
Naquela altura da Copa, já tínhamos enfrentado Marrocos, Haiti, Escócia e teríamos Japão pela frente no início do mata-mata.
O sistema com quatro atacantes, de tanta convicção de Ancelotti no início da Copa, tinha ido para as cucunhas. Brasil jogava com Casemiro, Bruno Guimarães e Paquetá tendo os reservas Fabinho, Ederson e Danilo Santos. Titulares e reservas, todos com as mesmas características, nenhum diferente. E como precisávamos de um diferente no meio-campo?
Paquetá se machuca no jogo com o Japão. A lista dos fora de combate passa a ter Paquetá, Raphinha e os encostados Ibãnez, Bremer, Leo Pereira, Alex Sandro, Igor Thiago, Luiz Enrique.
De repente, Ancelotti lembra que tem Martinelli no grupo. Manda o atacante e às vezes meia aos leões nos minutos finais contra o Japão. Martinelli faz o gol da vitória contra o Japão e leva o Brasil as oitavas de final. Pronto, Martinelli, convocado para ser reserva de Vini Jr, agora é a solução no meio-campo do escrete.
O traíra
Vem a Noruega. Alguns jogadores de mais relevância no grupo contestam. Ancelotti a respeito de usar Martinelli contra a Noruega quando o mais lógico seria Danilo Santos (Botafogo) na função que antes era de Paquetá. Com Martinelli time mudaria de postura e ficaria mais fácil para Noruega controlar o jogo sem risco.
Capatosta (cabeça dura em italiano), Ancelotti vai de Martinelli contra os Vikings nas oitavas de final.
Alguns jogadores se sentem traídos ou ignorados por Ancelotti no jogo que devolveria ao Brasil a confiança de que poderia ir longe na Copa. Italiano capatosta e traíra.
Mais cabeça dura ainda quando permite ou concede a Bruno Guimarães bater o pênalti antes dos 15 minutos de jogo. Vini Jr, então nosso melhor jogador na Copa, deveria ser nomeado o cobrador do pênalti. BG bate (?) e recua a bola para o goleirão norueguês agarrar.
E a pá de cal da sepultura vem no momento em que o jogo estava 0 a 0 caminhando para o fim, portanto, com uma prorrogação pela frente. Ancelotti rasga de novo suas convicções, se é que as tinha, e reformula o time para Neymar entrar. Um desastre absoluto.
Neymar entra aos 23 minutos do segundo tempo no lugar de Martinelli. Endrick, que havia entrado no início do segundo tempo e estava bem de centroavante, é deslocado para a ponta-direita para marcar o lateral norueguês. Vini recua para ajudar na marcação. Danilo Santos e Ederson a dar suporte no meio-campo para Neymar, sozinho, se virar no ataque. Fiasco.
Se o jogo fosse à prorrogação, Neymar suportaria jogar mais 30 minutos? Ele teria cumprido pelo menos 35 minutos de jogo no segundo tempo. Somando tudo: deveria resistir por quase uma hora em campo.
Haaland se encarrega de abreviar o sofrimento. Marca o primeiro gol aos 34 minutos e despacha o Brasil aos 45 minutos do segundo tempo.
Entre equívocos na lista de convocados, convicção zero no seu sistema de jogo, inebriado com a fartura da CBF e refém de Neymar a Copa inteira, Carlo Ancelotti leva a pecha de comandar a Seleção na pior campanha da história desde a Copa de 1996 quando ainda tínhamos Pelé e o fim de Garrincha.

a seguir: Inventário da Derrota fecha a série no quarto e último episódio contando como Ancelotti, CBF e os jogadores fugiram do povo sem dar explicações para o fracasso na Copa 2026 e a promessa de que em 2030 tudo será diferente. Conta outra.
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