Acordo de patrocínio entre o Cwmbran Celtic e a banda indie galesa é uma viagem nostálgica, e não uma tentativa cínica de monetizar “públicos adjacentes”. Entenda um pouco mais da parceria música e futebol.
Emma John, The Guardian, 10 agosto 2026
Como alguém nascido na transição entre a geração X e os millennials, sou o alvo perfeito para a nostalgia dos anos 90 de hoje. Desempenhei meu modesto papel adolescente na Batalha do Britpop (disputa verbal, divisão Blur); cantei fervorosamente – e, Deus me ajude, acreditei – que ” Things Can Only Get Better” (As Coisas Só Podem Melhorar ). Super Furry Animals era uma banda que eu conhecia apenas vagamente, através da emoção transgressora daquela música deles com todos aqueles palavrões. E, no entanto, a notícia de que eles serão patrocinadores da camisa de um clube de futebol galês nesta temporada conseguiu me transportar diretamente para uma época em que as coisas pareciam mais simples, mais gentis e mais esperançosas.
Quase três décadas se passaram desde que o Super Furry Animals estampou seu logo em um uniforme de futebol pela última vez. Em 1999, o vocalista Gruff Rhys e o baixista Guto Pryce, ambos torcedores do Cardiff City, convenceram seus colegas de banda, nascidos em Bangor, a deixarem de lado a paixão pelo norte do País de Gales durante a campanha do time na Copa Galesa – que, aliás, era tudo o que eles podiam pagar.
As camisas da copa custaram £2.000 e, segundo Rhys, eram réplicas de uniformes de hóquei no gelo. Os beneficiados deste ano são um time mais modesto: o Cwmbran Celtic, recém-rebaixado da segunda divisão galesa. Cwmbran é a cidade para onde a banda envia seus adereços de palco para conserto e, considerando que os adereços em questão são ursos infláveis gigantes, fica a dúvida se eles conseguiriam instalar um no gol.
Super Furry Animals não é a única banda dos anos 90 envolvida: os roqueiros escoceses do Mogwai patrocinaram o uniforme reserva masculino, com 10% dos lucros de todas as vendas de camisas destinados a uma instituição de caridade musical independente.
Mecenato e músicos
Tradicionalmente, há um elemento de mecenato quando músicos famosos se envolvem com o futebol, desde a época de Elton John como presidente do Watford até a ascensão de Robbie Williams à presidência do Port Vale em 2024. O padrão se repete: garotos da região (geralmente são garotos) fazem sucesso e querem retribuir ao time que acompanham desde crianças.
O Wet Wet Wet foi o primeiro a optar pelo patrocínio de camisa, com o Clydebank em 1993. As camisas do time acabaram tendo um design mais atemporal do que os ternos extravagantes e folgados que a equipe de Marti Pellow usava no dia do lançamento.
Tony Bloom
Estampar o seu logotipo na camisa do seu time era uma ação de caridade, e não um investimento. Nada ilustrava melhor esse ponto do que a relação de Fatboy Slim com o Brighton & Hove Albion. A gravadora do DJ patrocinou as camisas do time pela primeira vez no final dos anos 90, quando a situação financeira precária da equipe a deixava à beira da falência e os bilhões de Tony Bloom ainda não haviam sido conquistados. Era particularmente apropriado, naquela época, que os comandados de Micky Adams entrassem em campo com as camisas estampadas com a palavra “SKINT” (sem dinheiro).

As parcerias musicais, portanto, tendem mais para o cativante do que para o descolado. Jake Bugg patrocinou o Notts County não para promover sua própria música, mas para evangelizar o time das Midlands em suas turnês mundiais. E é ainda mais fofo quando bandas patrocinam times infantis. O falecido Lemmy, do Motörhead, achou graça da ideia de um time sub-10 de Lincolnshire ostentando seu mascote, o crânio Snaggletooth, na frente dos uniformes; infelizmente, o uniforme todo preto resultante lembrava muito os uniformes de árbitros e as crianças foram proibidas de usá-lo em jogos da liga. Mesmo assim, a ideia teve um apelo duradouro: bandas como Prodigy, Biffy Clyro, Sleaford Mods e Franz Ferdinand já patrocinaram uniformes para jovens.
Nos últimos anos, porém, a relação entre bandas e times de futebol se tornou séria. A busca por monetizar o público “adjacente” dos fãs de música pop e esportes significa que o patrocínio de camisas não é mais uma forma de os artistas demonstrarem seu apoio, mas sim uma oportunidade de marketing e merchandising por si só.
Spotify e Barcelona
O acordo do Spotify com o Barcelona deu o pontapé inicial, com Coldplay, Karol G, Rosalía e Travis Scott aparecendo brevemente na frente da camisa, e réplicas de edição limitada custando mais de £340 cada. A tendência de usar uniformes de futebol como streetwear significa que as bandas não são mais “patrocinadoras”, mas sim “colaboradoras”. Por isso, as camisas de pré-jogo do Manchester United não trazem o nome do Stone Roses, apenas a capa do álbum.
E embora isso possa ter confundido alguns torcedores mais jovens – o site do clube publicou um artigo explicando quem era o grupo de Madchester para a geração Z – ainda reflete uma conexão genuína. Ian Brown é torcedor do United desde criança, e o time entra em campo ao som de “This Is the One” desde que Gary Neville a pediu pela primeira vez, há duas décadas.

Enquanto que há um ano, se lhe perguntassem num quiz de bar o que o Paris Saint-Germain tinha em comum com uma banda de K-pop, ou o que o Pink Floyd tinha a ver com um time da Série A, você teria todo o direito de dizer “nada”. A resposta, agora, são as linhas de roupas – o PSG fez uma parceria com o grupo feminino Blackpink para otimizar o engajamento dos fãs na Ásia, enquanto a Inter comemorou o 50º aniversário do lançamento do álbum Wish You Were Here.
Tudo isso pode ser confuso para um fã de esportes como eu, que tem uma visão simples. Afinal, o que é uma coleção cápsula de estilo de vida com foco em cultura? Parece algo que Musk e Bezos querem levar para Marte. Criar um look esportivo agora exige um conhecimento avançado de matemática da moda: na Eurocopa do ano passado, foi Admiral x Spice Girls; agora, é Rolling Stones x Seleção Inglesa de Críquete x Castore.
São equações poderosas, como quando uma camisa do Bohemian FC x Fontaines DC de 2025 (elevada à potência de Greta Thunberg quando ela a usou em sua flotilha para Gaza) gerou £££££ para caridade. Talvez a camisa da turnê Mathematics de Ed Sheeran para o Ipswich tenha sido um presságio. Ou talvez seja apenas uma moda passageira, e a indústria da música logo passe para algo novo. A GQ, que declarou o “blokecore” ultrapassado, diz que estaremos usando camisas clássicas de rugby no outono/inverno. Parece deliciosamente anos 90 para mim.
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