Há dois anos, Raphinha pensava que seu tempo no Barcelona estava chegando ao fim, mas, dois títulos da La Liga depois, ele agora é capitão e o camisa 9 mais poderoso da Europa. E também a nova referência da Seleção Brasileira, espera Ancelotti, após fim de ciclo Neymar.
por Sid Lowe, do The Guardian – 24 setembro 2026
De vez em quando, Raphael Dias Belloli freia. O homem que parece estar em movimento perpétuo, um jogador de futebol sempre em alta velocidade, para, fica em silêncio por um instante e então, suavemente, profere algo que diz muito: “Acho que talvez as pessoas tenham visto em mim algo que eu não percebia que existia”.
Raphinha não sabia que era um líder, mas gosta disso. Não sabia que era capitão, mas, segundo seu treinador, é o “capitão perfeito”. E também não sabia que era um camisa 9, mas agora é o melhor camisa 9 que existe. Em Barcelona ou em qualquer outro lugar.
Houve um tempo em que Raphinha não sabia se continuaria no Barcelona, quando, sentindo-se indesejado, aceitou que tudo havia acabado, mas esta semana (última do mês de setembro) ele estendeu seu contrato até 2030.
Ele terá 33 anos então: gostaria de se aposentar aqui e o clube também gostaria que ele se aposentasse aqui, uma lenda construída sobre empatia e carinho. “Esta é a melhor decisão que o clube tomou”, disse Hansi Flick, o técnico que, segundo Raphinha, mudou sua vida. Às vezes você não consegue o que quer, então tem que se contentar com o melhor.
O Falso 9
A primeira palavra que Raphinha usa quando o treino termina e a fita começa a rodar no Sant Joan Despí, quando ele é chamado de melhor camisa 9 do mundo, é “falso”. Ele diz isso com um sorriso; afinal, não há nada de falso nesse camisa 9. Sete jogos depois do início da temporada do campeonato, o jogador que atua como centroavante já marcou 12 gols, além de dois na Liga dos Campeões.
Os artilheiros das outras principais ligas europeias estão cinco gols atrás. Ninguém na história do Barcelona começou uma temporada assim. E não, Raphinha diz, ele nunca jogou nessa posição antes: “Nem quando criança eu era um camisa 9”.
Como se fosse só uma questão de gols. Talvez não haja ninguém tão prazeroso de assistir quanto Raphinha; ninguém tão admirável ou importante também. O toque em alta velocidade é impressionante e há uma intensidade selvagem em tudo o que ele faz, só que não é selvagem, ele diz; é algo trabalhado, todo o sistema depende dele.
A imprensa define a identidade do Barcelona e, segundo Raphinha, é “mecanizada”. Não, ele não vai revelar como, mas tudo começa com ele. “Como capitão, ele vai e todos o seguem”, diz Flick. “Sempre começamos com o camisa 9 e ele tem essa fome e intensidade incríveis, a mentalidade e a atitude que precisamos.”

Mas não era isso que Raphinha ou qualquer outra pessoa esperava. Neste verão, Robert Lewandowski, Ferran Torres e Marcus Rashford deixaram o clube, tendo contribuído com 38 gols no campeonato na temporada passada. Eles deveriam ter sido substituídos por Julián Álvarez, mas o Atlético de Madrid se recusou a vendê-lo , deixando o Barcelona sem atacante. “Havia um momento de necessidade”, diz Raphinha. “Não havia um camisa 9 para o amistoso contra o Basel, então joguei nessa posição.”
Provisório vira permanente
Não era para ser permanente, embora Flick suspeitasse que pudesse ser e estivesse começando a se mostrar receptivo à ideia: o Barcelona ainda não havia desistido de Álvarez e o treinador considerava outras soluções, incluindo Anthony Gordon. Esta era a melhor opção. Raphinha não marcou, mas o Barça fez cinco gols.
“Na pré-temporada fizemos alguns testes: o treinador gostou do que viu e, depois do jogo contra o Basel, me contou um pouco sobre a ideia dele”, diz Raphinha. “A adaptação aconteceu nos últimos dois anos, me acostumando a jogar mais por dentro, mais perto do gol. Mas nos testaram como um verdadeiro camisa 9 e deu certo. Tem um ou outro detalhe que precisa ser explicado, mas estou bem. Antes do jogo contra o Elche [na estreia], ele perguntou se eu estava confortável ali ou se queria voltar para a minha posição. Eu disse que tudo bem, para ver como seria, e que sempre poderíamos voltar para a posição anterior.”

Raphinha marcou dois gols contra o Elche, um contra o Athletic Bilbao, dois contra o Rayo Vallecano e outro contra o Valencia . Contra o Racing, fez um hat-trick e contra o Sevilla, outro: com o pé direito, com o pé esquerdo e de cabeça. Raphinha mostrou suas qualidades antigas e novas, menos esperadas: a movimentação, o timing e a finalização precisa de um clássico camisa 9, eficiência aliada à intensidade. Apenas um jogador da La Liga tem uma taxa de conversão de chutes melhor. Contra o Feyenoord, vieram mais dois gols.
Pênalti é com ele
E não se trata apenas dele. A questão com Raphinha é que nem sequer se trata dele. Apenas uma vez nesta temporada ele não marcou, e contra o Levante, ele criou os dois primeiros gols e depois cometeu o pênalti que Lamine Yamal converteu para marcar o terceiro. O Barcelona marcou cinco, dois, cinco, cinco, cinco, quatro, sete e três gols, respectivamente, nas oito primeiras vitórias.
Flick tinha feito isso de novo. “Eu sempre disse e sempre direi que ele mudou minha mentalidade, me mudou como pessoa”, diz Raphinha.
Em 2024, Raphinha estava convencido de que não tinha futuro no Barcelona. Seus números eram bons: 10 gols e 12 assistências em sua primeira temporada, 10 gols e 13 assistências na segunda. Mas Lamine Yamal estava surgindo e, mais importante, Raphinha não se sentia apoiado, tendo completado os 90 minutos apenas sete vezes em 60 jogos sob o comando de Xavi Hernández. Ele sabia que o Barcelona pensava em vendê-lo; ninguém sabia que o clube queria contratar Nico Williams, demonstrando publicamente o desejo de reunir a dupla que brilhou na Eurocopa .

O Barcelona falhou duas vezes , e ambas as experiências foram benéficas. Uma imagem de Williams com a camisa número 11, manipulada digitalmente e publicada nas redes sociais, o magoou , admitiu Raphinha. Mas Flick havia chegado, e se existe algo ainda mais poderoso do que o desejo de provar que as pessoas estão erradas, é o desejo de provar que as pessoas estão certas.
Capitão, eu?
Esse momento traz uma pausa para reflexão. “Quando vi que as pessoas tinham votado em mim, foi como se uma chave tivesse virado, uma mudança de mentalidade”, diz ele. “As pessoas conseguiram ver algo em mim que eu não sabia que existia, e isso me transformou. Antes de ser capitão, eu não sabia o quanto gostaria disso. Ter essa responsabilidade também mudou minha mentalidade, me ajudou. Nunca imaginei que gostaria tanto de ser capitão do Barcelona. Você sente que é importante. É uma honra. Não é só usar a braçadeira.”
Esse momento traz uma pausa para reflexão. “Quando vi que as pessoas tinham votado em mim, foi como se uma chave tivesse virado, uma mudança de mentalidade”, diz ele. “As pessoas conseguiram ver algo em mim que eu não sabia que existia, e isso me transformou. Antes de ser capitão, eu não sabia o quanto gostaria disso. Ter essa responsabilidade também mudou minha mentalidade, me ajudou. Nunca imaginei que gostaria tanto de ser capitão do Barcelona. Você sente que é importante. É uma honra. Não é só usar a braçadeira.”
Ele é um capitão nato, um dos mais puros desde Carles Puyol – mesmo que tenha precisado que lhe dissessem isso. Isso fica evidente no exemplo implacável que ele dá: Raphinha percorreu a segunda maior distância em sprints na La Liga e a Gradient Sports contabilizou apenas três jogadores com mais pressões no terço final do campo a cada 30 minutos sem a posse de bola.
Raphinha afirma: “Falo menos do que a maioria dos capitães, mas sei que as pessoas estão observando. Elas pensam: ‘Se esse cara está correndo como um animal, eu tenho que segui-lo’. Se você fala demais e não faz o que precisa ser feito, as pessoas não vão te ouvir.”
Novo líder
Mas o que os companheiros de equipe viram nele ia além, atingia seu próprio ser. A liderança também se manifesta na empatia, na gentileza e na compreensão, na forma como Raphinha retribuiu o apoio que lhe fez bem, uma abordagem ao mesmo tempo coletiva e individual. Ele diz que consegue perceber quando Lamine Yamal está se afastando dos jogos e sabe como reconectá-lo, cada comemoração compartilhada com o jovem.
Recentemente, circulou um vídeo em que ele diz calmamente a Gordon para não ter medo. E nenhum vídeo foi mais impactante, mais eloquente, do que o momento em que Flick estava sentado no banco, sozinho, perdido em seus pensamentos, e Raphinha o consolou , tirando-o de seu momento sombrio, invertendo os papéis.
“A relação entre treinador e jogador é a mais importante no futebol”, diz Raphinha. “Desde que [Flick] chegou, podíamos conversar com ele sobre qualquer coisa – e qualquer coisa é qualquer coisa . Naquela vez, eu o vi de cabeça baixa. No começo, não entendi bem o porquê. Perguntei o que havia de errado. Ele disse que sentia que o time não estava jogando bem. Pelo que me lembro, eu disse a ele que estava tudo bem, que tínhamos vencido e que jogaríamos bem novamente. Prefiro mil vezes vencer jogando mal do que perder jogando bem. Ganhe jogos, ganhe confiança e o futebol virá.”
“O tipo de líder que sou depende do momento. Se eu precisar ser um pouco mais duro, posso ser. Mas prefiro momentos mais amenos, com piadas. Os últimos dois anos foram espetaculares, então não precisei ser o chato com frequência. Sei que isso incomoda as pessoas, mas alguém tem que fazer isso às vezes.”

Com um elenco como este, especialmente? Quatro dos jogadores do time principal do Barcelona nasceram em 2007.
“Buah!”, diz Raphinha, rindo. “Isso dói: mostra que estou mais perto do fim do que quando comecei aos 18, 19 anos, como eles. Mas estou em ótima forma física, então [a aposentadoria] ainda está longe. É muito fácil com eles. São jogadores jovens, mas muito responsáveis com suas carreiras e suas vidas. De vez em quando, você tem que [ser paternal] porque são crianças. Mas eles entendem. Se levam bronca, sabem que é para o próprio bem deles. Eu digo a eles.”
Yamal, o parça
Existe alguma figura paterna nele, especialmente com Lamine Yamal? “Não, não”, interrompe Raphinha. “Irmão mais velho, isso é melhor.” E Lamine Yamal é a estrela que deveria ganhar a Bola de Ouro, diz ele: por seus “números individuais, títulos coletivos e a magia em campo, o carisma. Não há dúvida. Para mim, ele tem que levar o prêmio, custe o que custar. Mesmo que eu não fosse companheiro de equipe do Lamine, pelo que ele faz, pelos números, pelos títulos – e eu acho que títulos são importantes – ele é o candidato. Um entre tantos. De três troféus, ele ganhou dois com o Barcelona. Ele ganhou a Copa do Mundo com a Espanha.”
Só a Liga dos Campeões lhes escapou; durante dois anos o Barcelona esteve perto, e agora é a sua obsessão.
“A semifinal contra a Inter [em 2025] foi a que mais doeu”, diz Raphinha. “Contra o Atlético [nas quartas de final em 2026] poderíamos ter passado, poderíamos falar sobre coisas que poderiam ter sido diferentes, decisões. Mas contra a Inter, tínhamos um pé na final e perder daquela forma foi difícil. Somos uma equipe jovem – isso não é desculpa – e às vezes falta maturidade para gerir momentos decisivos. Nesta temporada estamos mais maduros, mais bem preparados. Se continuarmos assim, com esta mentalidade, podemos competir por tudo. Temos tudo.”
Começando pela frente, com o capitão, o líder e o número 9.
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