Silvio Barsetti nos deixou nesta terça-feira (13/10). Triste. Silvio, jornalista esportivo dos mais competentes e profissionais que conheci. Trabalhamos juntos por duas décadas no Grupo Estadão em coberturas de Copas do Mundo e dia a dia do nosso futebol. Sério, sarcástico e bem-humorado ao mesmo tempo. Uma alegria infinita e um lutador incansável na reportagem. Parceiro e companheiro como poucos. Republico texto assinado por Marcio Dolzan, repórter por excelência e que esteve ao lado de Silvio em todos momentos do jornalismo esportivo nos últimos anos. Os dois radicados no Rio de Janeiro. Dolzan, gaúcho colorado, Barsetti, carioca da gema e torcedor do América FC.
por Marcio Dolzan, do Lance! – Rio de Janeiro, 13 outubro 2026
Às vésperas da Copa do Mundo de 2014, um tema que tomava os noticiários e gerava debates acalorados tratava sobre quem seria o responsável por desembolsar quase R$ 100 milhões para bancar as estruturas temporárias no entorno da Arena Itaquera, palco de abertura daquele Mundial. Nem Corinthians, nem o Comitê Organizador Local, nem a cidade de São Paulo e muito menos a Fifa queriam pagar, e um empurrava a responsabilidade para o outro. Foi quando o então secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, veio ao Brasil para uma inspeção e organizou uma entrevista coletiva. Pensava o homem forte da Fifa que seria mais uma sabatina protocolar, sem maiores pressões. Aí o jornalista Silvio Barsetti, à época no Estadão, pediu o microfone e saiu perguntando mais ou menos assim:
— Bom dia. Há um debate no Brasil sobre quem deve pagar as estruturas temporárias do estádio de abertura da Copa, com um jogo de empurra. Ninguém quer assumir a conta. Mas, de acordo com o contrato tal, artigo tal, alínea tal, assinado pela Fifa e o Comitê Organizador Local, a responsabilidade é do dono do estádio. O senhor confirma isso?
Totalmente desarmado, Valcke respondeu:
Quatro anos antes, em 2010, o mesmo Silvio Barsetti estampou na capa do caderno de Esporte do Estadão a manchete “Morumbi fora da abertura e da Copa”. Foi uma hecatombe. Um dos maiores jornais do País publicando que o Morumbi, maior estádio privado do Brasil e desde sempre indicado como uma das principais sedes do Mundial de 2014, fora do Mundial?
Silvio passou meses sob pressão. Cartolas pediam a cabeça dele ao jornal. O presidente do São Paulo à época mandou emoldurar a página e usava como motivo de chacota. Um assessor de imprensa de jogadores e técnicos famosos chegou a desdenhar diretamente com o Barsetti. “A barrigada do ano”, ele disse. No jargão jornalístico, barrigada é uma notícia infundada, mal apurada.
E o tempo deu razão ao Silvio, um cara que era irreverente no trato com as pessoas, mas jornalista de verdade. Desses que não abria mão da apuração e do compromisso com o dever público.
Nas entrevistas coletivas na sede da CBF, o momento em que o Silvio Barsetti recebia o microfone era o mais aguardado pelos jornalistas e o mais temido pela assessoria da entidade e pelo entrevistado. Porque todos sabiam que era dele que partiria a pergunta mais incisiva e a mais difícil de tergiversar. E não importava se o entrevistado era o craque da Seleção cheio de bajuladores, o técnico mau-humorado ou o presidente que corria o risco de ser preso se deixasse o País. O Silvio perguntava sem pisar em ovos.
O que talvez muitos não soubessem é que, como pessoa, o Silvio Barsetti tinha um coração maior do que sua grandeza jornalística. Quando ficou sem emprego e as contas começaram a pressionar, ele resolveu encarar os dias espalhando bondade. Passava o tempo livre indo a um centro espírita para acolher e conversar com pessoas que iam lá expor seus dramas.
Escreveu dois livros fora do esporte, ambos best-seller sobre bastidores da política fluminense e nacional: “A Farra dos Guardanapos”, sobre o infame jantar de luxo de políticos do Rio em Paris; e “O outro lado do poder”, que conta histórias sobre as andanças de autoridades por cabarés Brasil afora, com uma leveza de texto que nenhum grande analista da área sequer deve conseguir sonhar.

Em 2023, foi convidado para trabalhar na comunicação da CBF. Sim, a mesma CBF que por cerca de três décadas ele frequentou para fazer jornalismo de alto nível e provocar frios nas espinhas de dirigentes, treinadores e jogadores, chamou o Silvio para se juntar ao grupo. Não porque quisesse tirar alguém que os incomodava, mas sim porque reconhecia o grande trabalho e a grande contribuição que o Barsetti deu para o bem do futebol brasileiro ao longo da vida.
O Sílvio foi tão importante para o futebol nacional que, em 2002, ele também segurou a taça da Copa do Mundo durante o voo que trouxe de volta a Seleção do Penta. Diz a Fifa que essa honraria só é permitida aos campeões do mundo e aos chefes de estado. Bom, também foi permitida a ele.
Torcedor do América-RJ, Silvio Alves Barsetti morreu na noite de segunda-feira, 12 de outubro de 2026, aos 61 anos.
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