Luiz Fernando Verissimo era um dos nossos titulares no time de colunistas do Estadão e Jornal da Tarde na cobertura da Copa do Mundo de 1994 nos Estados Unidos. Só craques: João Ubaldo Ribeiro, Armando Nogueira, Nelson Motta, Tostão, Mario Prata, Mathew Shirts, Paulo Caruso e outros convidados de alto calibre da escrita. A caravana a acompanhar a Seleção Brasileira de Parreira no território dos EUA. Nossa primeira parada, onde ficamos por um mês nos calcanhares do escrete, foi a cidade de San Jose na Califórnia. San Jose, perto da Universidade de Santa Clara, local de treinamentos da Seleção, e Los Gatos, hospedagem e concentração do time de Parreira. San Jose era imensa e deserta, por assim dizer. Calor absurdo naquele verão americano em julho de 1994. Em homenagem a Verissimo, que nos deixou dia 30 de agosto, replico aqui a crônica que ele escreveu e o Estadão publicou no dia 6 de julho/94 quando a Seleção partia para Dallas onde jogaria as quartas de final da Copa contra a Holanda. Ao mestre com carinho:


Por Luiz Fernando Verissimo

San Jose, Califórnia – “E assim deixamos Madagascar, terra de contrastes…” Era como terminavam complementos turísticos no cinema, no tempo em que havia complementos no cinema. Ao partirmos para Dallas poderíamos dizer “E assim deixamos a ensolarada San Jose, terra de nenhum contraste…” Terra em que todos os dias são iguais e uma nuvem no céu e uma pessoa na rua são eventos municipais. Em que, misteriosamente, desce um avião a cada três minutos no seu aeroporto e não se sabe o que é feito das pessoas que eles trazem. Sāo tragadas pelo vazio, ou transformam-se em automóveis e vão direto para as estradas.

Mas é claro que estou sendo injusto. San Jose tinha uma alma, nós é que nāo prestamos atenção. O gerente do nosso hotel, Mr. Poowa, um homem de idade infindável vindo das Ilhas Maurício, não perdeu a oportunidade de mostrar que nos amava. Pertence à fé Bahai, e todas as homenagens que fez aos brasileiros que ocuparam seu hotel durante um mês, e desafiaram com sucesso a lei das probabilidades de acontecer um desastre, incluíam orações e declarações, como ele dizia, “do meu coração para o seu”.

Mr. Poowa nāo tinha dúvida de que Deus nos encaminhara para o seu hotel. Chegou a fazer uma reunião da comunidade Bahai de San Jose para nos conhecer um pouco mais e nos convertia em massa. San Jose, afinal, não será apenas a lembrança de uma temporada no deserto, com a Seleçāo do Parreira providenciando as provocações bíblicas. No simpático Arena Hotel, pelo menos, houve um contato humano.

E vamo-nos para Dallas. Nós vamos de avião, mas desconfia-se que a Seleçāo, para ser coerente com sua campanha até agora, irá em diligências, atravessando montanhas e terras calcinadas e perseguida pelos índios até o hotel. O Parreira decidiu que nāo venceremos apenas esta Copa. Ela será uma lição de vida, uma experiência depuradora que mudará nosso caráter como naçāo. Uma vitória fácil seria apenas uma glória esportiva a mais, não nos acrescentaria nada. As dificuldades nos tornarão um povo melhor. Mr. Poowa, afinal, estava certo. Deus nos trouxe até aqui por uma razāo.


 


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