Luiz Antônio Prósperi – 3 dezembro 2025 (16h28) –

“Eu sou o Reinaldo, muitos me conhecem como um grande talento do futebol brasileiro. Talvez vocês se lembrem da minha trajetória nos campos, mas pode ser que muitos não saibam das lutas silenciosas que tive de enfrentar.

“Durante os anos da ditadura, muita gente sofreu perseguição de várias formas. Todos nós sabemos dos horrores, das prisões, das torturas, que tiraram a liberdade e a vida de tantos brasileiros. Mas a verdade é que a repressão do Estado foi muito além dos porões e das celas” (chorando)

“O regime militar, na sua ânsia de controlar tudo e perseguir quem pensava diferente, não usava só a violência física. eles criaram campanhas de difamação, verdadeiras operações para acabar com a reputação e a vida social de pessoas que eles consideravam inimigos ou ameaças ao poder deles”.

“Existia sim uma central de boatos oficial, uma verdadeira máquina de propaganda e mentiras que agia nas sombras, mas com resultados terríveis na vida real. Essa central não só inventava histórias, mas também as espalhava de forma calculada. Usavam telefonemas, cartas anônimas e até plantavam notícias falsas em jornais e revistas”.

“Era uma tática de guerra psicológica, feita para isolar e destruir a pessoa, sem precisar de um tiro ou da prisão.”

“A campanha de difamação e perseguição política me tiraram muitas oportunidades. Talvez, a prova mais evidente seja a não convocação para a Copa do Mundo de 1982, em que, apesar de o treinador (Telê Santana) falar em questões físicas, todo mundo sabia que o motivo eram as restrições sobre o meu suposto comportamento fora de campo”

“Um simples gesto meu, com o punho cerrado, nas minhas comemorações, ou as minhas declarações pedindo a volta da democracia, foram suficientes para acionar uma campanha gigantesca de difamação contra mim. O objetivo era claro: destruir a minha reputação, me associando a coisas ruins e a comportamentos desviantes e a ideias perigosas.”

“Queriam calar a minha voz, diminuir a minha força e, no fim das contas,  acabar com a minha vida e minha carreira. Essa forma de violência do Estado, que ataca a honra, a imagem, a dignidade de uma pessoa, é tão grave contra as outras. Deixa marcas profundas e duradouras.”

“Pessoalmente, a vigilância e a difamação pública me causaram um estresse, uma angústia constante. Eu perdi a confiança em muitas pessoas, eu me senti isolado, e isso me afetou profundamente. Profissionalmente, os prejuízos foram igualmente devastadores. A carreira de um jogador de alto rendimento é curta, precisa de estabilidade e reconhecimento.”

“Minha vida privada virou um palco, um escrutínio, em que eu estava sempre sendo observado. Eu sentia que não podia frequentar certos lugares, que tinha de ter cuidado com o quem eu falava. Isso gerou um medo, uma segurança, que tirou a minha liberdade, me fazendo sentir preso mesmo estando solto”.

Depoimento de José  Reinaldo Lima, conhecido no futebol por Reinaldo, na Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos do governo Lula, terça-feira (02/12). Reinaldo recebeu anistia e indenização (valor R$ 100 mil) do Estado por ter sido perseguido pela Ditadura Militar no Brasil.


Reinaldo na capa do jornal Movimento, imprensa alternativa de resistência à ditadura militar
Reinaldo na capa do Movimento, jornal de resistência à ditadura militar

HISTÓRIA

O dia em que Reinaldo marcou um gol contra a ditadura

Há 40 anos, na Copa da Argentina, o atacante que comemorava gols com punho cerrado desafiou o comando do regime militar

por Breiller Pires, publicado no jornal El País, da Espanha, em junho de 2018

Era o gol de empate do Brasil. Foram poucos segundos para tomar uma decisão importante: erguer o braço direito, com o punho cerrado, ou “deixar pra lá”? Aos 21 anos, Reinaldo Lima, mineiro de Ponte Nova, já era o craque do Atlético-MG. Chegou à Copa do Mundo de 1978 como camisa 9 da seleção brasileira, que estreou no torneio em 3 de junho daquele ano, contra a Suécia, em Mar del Plata. O time escandinavo abriu o placar. Mas, aos 45 minutos do primeiro tempo, Toninho Cerezo cruzou da direita, Reinaldo se antecipou ao zagueiro Roy Andersson e empurrou para as redes. O ato que se seguiu ao gol foi encarado como uma afronta aos governos militares espalhados pela América do Sul. Uma decisão por impulso. Mas também por rebeldia.

Inspirado no movimento dos Panteras Negras e na dupla John Carlos e Tommie Smith, os atletas negros americanos que protestaram contra o racismo na Olimpíada de 1968, Reinado comemorava seus gols com o punho em riste. “No meu caso, era um gesto socialista, em protesto pelo fim da ditadura”, conta. Ele já havia acirrado sua postura combativa ao regime militar no Brasil três meses antes da Copa, quando alegou ter sido impedido de disputar a final do Campeonato Brasileiro diante do São Paulo por causa de uma punição manobrada entre cartolas e o Governo. Naquela época, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD, atual CBF) era comandada por militares, sob a presidência do almirante Heleno Nunes. Reinaldo foi suspenso após julgamento por uma expulsão que acontecera no mês anterior. O centroavante, que não era visto com bons olhos por Nunes e seus subordinados, se convenceu de que o regime estava por trás da suspensão e passou a ser ainda mais crítico à ditadura.

Por ter seu inconfundível talento reivindicado na Copa pelo clamor popular, acabou convocado pelo treinador Cláudio Coutinho, que era capitão do Exército. Antes do embarque para a Argentina, jogadores e comissão técnica da seleção foram recebidos pelo presidente Ernesto Geisel no Palácio Piratini, em Porto Alegre. Em discurso oficial, o general deixou implícita uma mensagem opressiva: “Ponham de lado os sentimentos pessoais e façam do time um conjunto que realmente possa trazer a vitória”. Ao cumprimentar Reinaldo, relata o ex-jogador, Geisel teria transmitido a ordem de forma mais clara: “Vai jogar bola, garoto. Deixa que política a gente faz”. Mais tarde, na concentração, André Richer, chefe da delegação brasileira, comunicou a Reinaldo que tanto a CBD quanto o regime militar consideravam o gesto ao celebrar os gols “revolucionário demais”. A recomendação era para que não repetisse aquele tipo de comemoração nos campos argentinos nem tecesse comentários sobre política em entrevistas.

A Argentina que recebia pela primeira vez um Mundial sofria com as violentas consequências do golpe militar liderado em 1976 pelo general Jorge Videla, que, décadas depois, seria condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade cometidos durante seu Governo. Nesse contexto, a Copa tinha um enorme peso político para os argentinos. Reinaldo sabia que seu gesto repercutiria muito além do campo de futebol. Hesitou ao empatar o jogo contra os suecos. Porém, a cena do punho erguido, que durou pouco mais de dois segundos, ficou marcada como o momento mais emblemático de sua trajetória na seleção brasileira. “Quando o presidente [Ernesto Geisel] falou aquilo, eu fiquei meio assim, pensativo. Mas, na hora que fiz o gol, não teve jeito. Levantei o braço, não resisti… E aí já era.”

Depois do jogo, no hotel da seleção, Reinaldo lembra ter recebido um envelope anônimo da Venezuela. Era, segundo ele, um documento com informações em espanhol sobre a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek em um acidente de carro, dois anos antes. Se deu conta, então, de que poderia estar no radar da Operação Condor, aliança entre ditaduras sul-americanas para perseguir opositores dos regimes militares. “Fiquei aterrorizado, mas não contei a ninguém a respeito do documento”, diz o ídolo atleticano, que foi barrado do time titular por Coutinho depois do empate com a Espanha. Tinha problemas físicos desde a preparação para a Copa. Treinava de calças compridas para esconder o inchaço no joelho. Mas acredita ter ido para a reserva por determinação do almirante Heleno Nunes, que, após o duelo contra os espanhóis, cobrou publicamente da comissão técnica mexidas na equipe.

O Brasil avançou até a segunda fase do Mundial. Para se classificar à final, dependia que o Peru não fosse goleado pela Argentina. Os donos da casa venceram por 6 a 0, em uma partida cercada pela suspeita de suborno aos peruanos. Minutos antes do apito inicial, Videla adentrou o vestiário dos visitantes, deixando encabulados os jogadores que vestiam o uniforme. Nenhum deles jamais admitiu ter recebido dinheiro para entregar o jogo, mas alguns justificariam, nas décadas seguintes, que o encontro com o general teria desestabilizado a equipe. “Aquilo foi um desrespeito ao futebol”, afirma Zico, que, assim como Reinaldo, também perdeu a posição no time brasileiro durante a Copa. “Tanto que o povo do Peru recebeu sua seleção arremessando moedas.”

“O corpo fascista do país começou a me minar. Não só moralmente, mas com assédio de todo o tipo. Falavam que eu era cachaceiro, maconheiro, viado. Fui massacrado sozinho”

No fim das contas, Videla e todo o governo militar argentino festejaram o primeiro título mundial, conquistado em cima da Holanda. Já Reinaldo tão cedo não encontraria motivos para comemorar novamente. Mal retornou ao Brasil e pegou um avião em direção aos Estados Unidos, onde voltou a operar o joelho. Aproveitou o período de recuperação para entregar o documento que havia recebido na Argentina ao cantor e compositor Gonzaguinha, outro desafeto da ditadura, que morreu em 1991 sem nunca ter revelado ao amigo jogador o destino do material contido no envelope. Geisel, o general que apertou sua mão antes da Copa e o aconselhara a “deixar pra lá” a política, seguiria no poder até 1979. “Medo eu não tinha, porque contava com respaldo popular. Não iam me sequestrar ou matar, como fizeram com vários outros brasileiros. Mas fui queimado em fogueira pública e continuo queimando até hoje.”

Reinaldo atribui a “forças ocultas do regime” a disseminação de boatos em torno de sua orientação sexual por causa da amizade com o radialista gay, Tutti Maravilha. Para ele, a ditadura não perdoou o atrevimento de seu gesto na Copa e a postura de enfrentamento aos militares. “O corpo fascista do país começou a me minar. Não só moralmente, mas com assédio de todo o tipo. Falavam que eu era cachaceiro, maconheiro, viado. Era uma campanha difamatória, linchamento moral. Eu não tinha partido, sindicato, nada. Fui massacrado sozinho.”

Colheu dissabores devido à fama de “problemático”, como a não convocação para a Copa de 1982. Telê Santana, considerado um técnico disciplinador, pregava abertamente que não queria em seu time “sujeito homossexual”. Mas relacionou o veto a Reinaldo apenas à suposta má condição física do jogador. “Houve influência política. Eu estava bem fisicamente. A comissão técnica não resistiu à pressão, aos argumentos de pessoas que não me queriam na seleção”, diz o ex-atacante. “O Telê era implicante com o estilo de vida das pessoas. E o meu estilo não

Acometido por seguidas lesões, Reinaldo parou de jogar cedo, aos 29 anos. Depois da aposentadoria, conviveu com o vício em drogas, lutou contra a dependência química, se aventurou pela política… Em vez de arrependimento, ele revela orgulho de ter escolhido lutar quando poderia, simplesmente, ter deixado pra lá.

“O futebol sempre foi um meio machista e conservador. Não aceitam que um jogador tenha posições políticas, que se proponha a pensar. Fui perseguido por fazer oposição, mas, como figura pública, era preciso mostrar resistência ao regime militar para acelerar o processo democrático. O autoritarismo emburrece a sociedade. Quem pede a volta da ditadura militar no Brasil não sentiu na pele o que eu sofri.”


Gesto de Reinaldo na época de jogador e anistiado em 2025 – foto: reprodução X

CARREIRA

Artilharias, lesões, aposentadoria precoce e eleições

publicado no jornal O Tempo, de Belo Horizonte, em 2 dezembro 2025

Reinaldo estreou pelo Atlético em 1973 e marcou 255 gols com a camisa alvinegra. Conquistou sete estaduais, a Copa dos Campeões do Brasil, em 1978, além de diversos torneios pelo clube.

Até hoje, Reinaldo é o artilheiro com maior média de gols em um único Campeonato Brasileiro (28 gols em 18 partidas, média de 1,55 por jogo, em 1977). Ele chegou a marcar, apesar das ausências forçadas por seguidas contusões, 386 gols em sua carreira profissional.

O grande talento do craque mineiro só foi ofuscado por causa da truculência dos adversários, que o perseguiam em campo, com muita violência, e pelas seguidas infiltrações e cirurgias mal-sucedidas a que foi submetido desde o início da carreira. Ainda juvenil, foi vítima de uma entrada desleal de um zagueiro do próprio atlético e teve de extrair os meniscos dos dois joelhos.

Em 1985, após uma sequência de operações em seus joelhos, ele transferiu-se para o Palmeiras, onde ficou apenas três meses. Mas, na época, já não tinha condições de jogar o futebol que o havia consagrado no Galo. Depois, ainda jogou no Cruzeiro e encerrou a carreira precocemente no futebol holandês, defendendo o Telstar, um time da segunda divisão, em 1987, aos 30 anos.

Após deixar o futebol, Reinaldo passou por altos e baixos. Teve problemas com álcool e drogas. Admitiu a dependência de cocaína. Em 1996, foi condenado por a quatro anos de prisão por tráfico de drogas, por emprestar seu carro a um traficante, flagrado com cocaína.

Reinaldo disse, em depoimento, que, em ato de desespero, sem dinheiro para alimentar o vício, emprestou o carro porque estava em dívida com o traficante. Ele foi absolvido em segunda instância e se livrou da prisão.

Fora do futebol e sem pendências com a Justiça, foi eleito deputado estadual pelo PT. Em 2004, foi eleito vereador em Belo Horizonte. Em 2014, concorreu ao cargo de deputado federal por Minas Gerais, mas não atingiu o número necessário de votos. Hoje, aos 68 anos, trabalha como comentarista esportivo.