O Flamengo está no Brasil hoje por acaso. Porque o Flamengo é uma ilha no Brasil.
Crescimento do Flamengo não depende do sucesso esportivo. Portanto, continuaremos crescendo mesmo que o Flamengo não ganhe tudo.
Por Eduardo Burgos Rodríguez, do diário espanhol AS – 12 fevereiro 2026 (12h45) –
Luiz Eduardo Baptista (Rio de Janeiro, 1960) tornou-se presidente do Flamengo para mudar a história do clube. Seu mandato tem uma longa trajetória, que remonta à sua época como presidente da Sky, onde conciliou o trabalho com sua paixão de longa data: o Flamengo. Sua vida, indissociavelmente ligada ao estádio do Maracanã, culminou em 2025. Porque o Flamengo superou todas as expectativas: campeão do Brasileirão e da Copa Libertadores, e com receitas recordes, comparáveis às da elite europeia.
Um ano perfeito para o Flamengo, com a Libertadores e o Brasileirão. Você assumiu a presidência e já gravou seu nome na história…
“Foi um ano especial. Mas, como você sabe, no esporte, o sucesso do ano passado não significa necessariamente que teremos outra grande temporada. É preciso trabalhar duro todos os dias. Ganhar nem sempre é bom, e perder nem sempre é ruim. É preciso ter humildade e equilíbrio para seguir em frente. E também existem variáveis que mudam. O fato de as coisas estarem indo muito bem cria uma certa situação dentro do grupo. Pode ser positiva ou nem tanto. Alguns continuam tão entusiasmados quanto antes, outros nem tanto. Alguns têm expectativas relacionadas às suas vidas pessoais e profissionais, que podem ou não estar ligadas ao clube. Essa é a beleza do esporte e do futebol; as coisas mudam muito rápido. Voltando à sua pergunta, estamos trabalhando duro para ter um ótimo 2026, mesmo não tendo começado bem o ano. Vamos melhorar. Com certeza.”
O trabalho do Flamengo fora de campo tem uma longa história; até hoje, é um dos times com maior faturamento na América do Sul?

É uma pergunta importante porque ali começou uma revolução. Provavelmente começou em 2010. Comigo. Sozinho. Eu já era sócio do clube, era presidente da Sky no Brasil. E patrocinávamos o time de basquete do Flamengo naquela época. Tínhamos muito sucesso com isso. Esse foi o início de um processo político, e comecei a procurar outros executivos no mercado que não fossem do clube de futebol, mas que sentissem paixão pelo Flamengo e entendessem que poderiam nos ajudar. Esse grupo cresceu. Tomou forma, formamos uma candidatura e vencemos as eleições do Flamengo em 2012. O modelo, a inspiração, foi 100% Barcelona, no início dos anos 2000, acho que por causa de Ferran Soriano e seu livro ‘ A Bola Não Entra por Acaso ‘. Eles contam a história do Barcelona lá, e se você quer entender o que me motivou, foi porque as condições eram idênticas às descritas para o Barcelona naquela época. Os problemas eram talvez um pouco diferentes, mas as histórias são muito parecidas. A diferença é que, do ponto de vista do potencial, sempre vi o Flamengo como um clube com enorme espaço para crescer.
“Ferran Soriano e sua gestão do Barcelona foram a inspiração para o Flamengo de hoje”. – Luiz Eduardo Baptista, presidente do Flamengo
Um Flamengo para além do futebol?
Exatamente! Não tenho uma visão limitada do futebol. Tenho uma visão mais ampla e sistêmica. Trabalhei na televisão por 27 anos, liderando a Sky. Todo o processo no Brasil foi basicamente impulsionado pela Sky. Quase 70% do mercado de futebol no Brasil foi construído durante meu período na Sky. Esse processo sempre levou em consideração os direitos da TV aberta e da TV privada. A Globo era acionista em ambas as empresas. Tinha a TV aberta e uma participação de capital privado. Era uma situação de mercado atípica; eu tinha que negociar com um concorrente, praticamente um irmão, pelos direitos para ver quem ficaria com cada partida. Porque toda vez que havia um pico de audiência na TV aberta, o produto pay-per-view enfraquecia . Como presidente da Sky, eu queria todas as partidas no pay-per-view. O pessoal da TV aberta queria os jogos do Flamengo na TV aberta porque eles atraem um público maior. O modelo deles é o modelo de publicidade. O meu modelo era o modelo de assinatura. Durante 15 anos, tive que negociar anualmente com quem quer que comprasse os direitos de transmissão em sinal aberto. Graças a isso, eu tinha um conhecimento perfeito de quais clubes tinham as maiores audiências e vendiam mais produtos. Hoje, 15 anos depois, a pessoa que trabalha comigo nesse tipo de consultoria e apoio comercial se chama Marcelo Campos Pinto, que era justamente a pessoa na Globo com quem eu negociava os direitos durante 15 anos. Então, modéstia à parte, as duas pessoas que melhor entendem esse processo no Brasil estão agora trabalhando juntas no Flamengo.
Isso não criou um conflito de interesses?
Sim, porque em certo momento ocupei um cargo importante e não pude trabalhar no Flamengo. Sempre tive um papel de destaque, do ponto de vista político, no clube. Chegou a hora de me aposentar da Sky, e então pude me candidatar e fui eleito presidente do Flamengo. Esse processo de crescimento e estabilidade no Flamengo realmente decolou a partir de 2019. Em 2025, a receita do Flamengo havia crescido mais de 40%, e é por isso que você quer falar comigo agora (risos).
Da receita total, 40% provêm de conquistas e prêmios, mas 60% desse crescimento vem de outras fontes de receita comercial que não têm absolutamente nada a ver com o sucesso esportivo. Diversas boas ações comerciais foram realizadas. Minha visão é que o Flamengo seja administrado como a Disney. Vendemos entretenimento. Não temos um time de futebol que gere recursos para outras áreas. Por quê? Porque a capacidade do futebol de gerar dinheiro é finita. Na Europa, os clubes jogam 60 partidas por ano. Trinta partidas em casa, onde detêm a receita. Os estádios geralmente têm 70.000 lugares, uma média de 60.000 espectadores por partida, multiplicada por 30 partidas, e assim por diante. Os preços dos ingressos são limitados. A publicidade nas camisas é limitada. Os direitos de transmissão são limitados. Portanto, quando você tem um clube gigante como o Real Madrid, por exemplo, e ele está indo muito mal em campo, é muito difícil acreditar que você vai aumentar a receita se não tiver outros negócios funcionando.
“O Flamengo é a Disney do futebol. Vende entretenimento, sonhos e esperanças”– Bap
Não há outra razão para vermos clubes europeus indo para os Estados Unidos, buscando novos fãs na Ásia, realizando pré-temporadas no exterior e abrindo novos mercados. É como a exploração do mundo nos séculos XV e XVI; é a mesma coisa. Só que, em vez de usar caravelas para conquistar o mundo, tenta-se fazer isso de avião, voando para a China com um time de futebol. Mas, na verdade, trata-se de abrir novos mercados para o seu produto. Da mesma forma, estamos fazendo isso com o Flamengo no Brasil, na América do Sul. O resultado tem sido muito positivo. É claro que, quando se ganha, outras fontes de receita crescem mais, mas se o Flamengo não tivesse conquistado o campeonato no ano passado, sua receita teria crescido 25%. Ou seja, se o Flamengo tivesse perdido tudo, ainda assim teria aumentado sua receita em 25%. Estamos criando um modelo de gestão em que o crescimento do Flamengo não depende do sucesso esportivo. Portanto, continuaremos crescendo mesmo que o Flamengo não ganhe tudo. Mas se ganharmos tudo, será ótimo para os torcedores, como eu, e para o clube. Mesmo que não ganhemos, ainda assim cresceremos. Há muitas oportunidades comerciais. É futebol, mas não precisa estar necessariamente ligado ao futebol. Esse é o conceito de ter um clube como a Disney, onde você vende sonhos, vende entretenimento, vende produtos, uma casa…
Por que?
Porque os clubes dão tudo pelo futebol, e quando perdem, a possibilidade de ruína financeira no ano seguinte é enorme. É o que acontece com a maioria dos clubes no Brasil. Eles gastam dinheiro sem saber se vão recuperá-lo ou mesmo se terão o suficiente para pagar depois. Muitos clubes gastam pensando: “Vou gastar muito porque tenho chance de ganhar. Se eu ganhar, minhas contas fecham.” Ótimo. O problema é se eles não ganharem. Se não ganharem, não conseguem pagar salários, não conseguem pagar impostos… não conseguem cumprir suas obrigações.

É por isso que o Flamengo tem uma posição em relação ao Fair Play Financeiro?
Sim, porque é aí que você entra num ciclo vicioso. O Fair Play Financeiro foi criado porque existem vários clubes no Brasil que gastam 80% ou até 100% da sua receita. Na Europa, depende do país, porque existem países onde você pode gastar 60% ou 70%, mas não necessariamente. O Flamengo gastou 40% da sua receita do futebol no ano passado. Quando o Fair Play Financeiro chegar ao Brasil, eu poderei eventualmente dobrar meus gastos e investimentos, desde que tenha renda recorrente. Dessa forma, terei bastante espaço para gastar mais dinheiro. Mas isso significa que vou gastar só porque tenho mais dinheiro? Não, porque não sou bobo. Não vou investir mais dinheiro se não achar que esse dinheiro extra é essencial para ganhar alguma coisa. É uma forma diferente de trabalhar. Este modelo não tem segredos. Esta é a fórmula da ‘Coca-Cola rubro-negra’ (risos).
Então, a contratação de Lucas Paquetá aconteceu por meio dessa fórmula…
O Flamengo contratou Lucas Paquetá após negociações muito difíceis. O West Ham não pediu nenhuma nota promissória bancária, nenhuma carta de garantia de que o Flamengo pagaria. Tenho muito orgulho disso. Assim como o Atlético de Madrid não pediu isso com Samuel Lino. Se algum funcionário do Flamengo atrasar uma compra que temos que pagar, eu o demito. Simples assim. O que estou dizendo é o seguinte: a palavra e a credibilidade do Flamengo estão acima de qualquer outra variável. Podemos dizer: “Mas esse contrato foi mal negociado”. Isso não importa. Se assinamos, vamos honrar o contrato. Não cabe a vocês decidir se a negociação foi boa ou não. Vocês podem dizer que esse negócio não foi bom para o Flamengo ou que esse agente está ganhando muito dinheiro. Assinamos esse acordo, vamos honrá-lo.
“A palavra e a credibilidade de Flamengo estão acima de tudo” – Bap
A contratação de Lucas Paquetá pode ser explicada, em grande parte, pela capacidade do Flamengo de gerar receita. É a contratação mais cara da história do Brasileirão…
Este aspecto da credibilidade do Flamengo também é importante. Quando o Flamengo iniciou as negociações com o West Ham para a contratação de Lucas Paquetá, todos sabiam que o Flamengo estava falando sério e seria um negociador difícil. Honraremos absolutamente tudo o que está estipulado no contrato. Isso vale também para os agentes que querem que seus jogadores assinem conosco. Os jogadores querem jogar no Flamengo porque pagamos em dia.
Deixe-me dar um exemplo: a equipe faturou milhões em bônus no final da temporada. O ano terminou para nós em 17 de dezembro. Em 26 de dezembro, o Flamengo pagou todos os bônus pendentes a todos os jogadores. Os jogadores sabem que vão receber; sabem que seus contratos serão honrados. Os clubes com os quais negociamos a transferência de jogadores sabem que vamos pagar. Isso cria um ciclo virtuoso, e construímos essa credibilidade ao longo dos anos.
Há algumas semanas, pagamos um bônus a todos os funcionários do clube. Isso nunca havia acontecido antes. Senti que cada funcionário contribuiu para o sucesso do clube. Normalmente, os diretores recebem bônus, mas não as pessoas que trabalham no clube todos os dias. Todos ganharam alguma coisa. Ninguém recebeu menos do que o salário de um ano. Não temos nenhuma obrigação legal ou contratual de fazer isso, mas senti que esse esforço coletivo, para alcançar um resultado tão sensacional, deveria ser compartilhado por todos.
O caso do Flamengo é quase único no Brasil. O FFP (Fundo de Fair Play Financeiro) que a CBF está analisando será um momento decisivo?
O Fair Play Financeiro (FPF) está chegando ao Brasil e muitos clubes já podem ser penalizados. Eles precisarão de um período de transição para se adaptar. Não poderão gastar mais de 70% de sua receita. Quando o FPF entrar em vigor, poderei praticamente aumentar meus gastos em 50% sem fazer muitos cálculos e ainda estar totalmente em conformidade. Portanto, trabalhamos com receita recorrente, independentemente dos resultados esportivos, e não incluo prêmios em dinheiro nas minhas despesas. Gasto 40% do que ganho, excluindo prêmios. Se incluísse prêmios, seriam apenas 30%. Temos um estilo de gestão financeira muito conservador, bem diferente do que vemos no Brasil e na América do Sul. É assim que a receita do clube cresceu, independentemente dos resultados esportivos. Hoje, é um clube rico, um clube saudável, com dinheiro suficiente para cumprir suas obrigações, contratar o Lucas Paquetá e, se necessário, fazer outros negócios. Mas é o que sempre digo: eu pagaria 100 euros por uma Coca-Cola só porque somos ricos? Não, porque não somos bobos. Não vamos pagar caro por contratações só porque temos dinheiro.
“O Flamengo pagou bônus milionários no final da temporada. Terminamos no dia 17 de dezembro e, até o dia 26, todos já haviam recebido seus salários…” – Bap
Muitos clubes de futebol fazem isso. Nós não. Negociaremos pelo preço que considerarmos adequado ao produto. Foi o que fizemos com Lucas Paquetá, com Samuel Lino e com outros atletas. Essa credibilidade foi construída ao longo do tempo. O mercado não é tão grande; não existem muitos clubes no planeta tão sérios em termos de gestão quanto o Flamengo, então acabamos nos destacando. Acabamos sendo de elite porque cumprimos nossa palavra, ano após ano. Isso nos permite ter uma posição diferenciada. E, claro, essa atmosfera de credibilidade, tranquilidade e infraestrutura que oferecemos a quem trabalha aqui se traduz potencialmente em melhores resultados esportivos. Isso garante que vamos ganhar? Claro que não, mas nos permite lutar por títulos todos os anos. Esse é o meu papel aqui, como presidente do clube.
O Flamengo foi o clube do continente com a maior receita em 2025, com 202 milhões de euros, segundo um estudo da Deloitte, um nível semelhante ao de vários clubes europeus?
A Deloitte menciona € 202 milhões, mas, do ponto de vista contábil, eles estão excluindo a venda de vários jogadores. Nos últimos dez anos, nosso pior ano em vendas foi de € 50 milhões. O ano passado foi o melhor, com € 90 milhões arrecadados. Hoje, estou falando com vocês aqui, e já vendemos € 20 milhões em jogadores este ano… e ainda estamos em janeiro! Essa cifra de € 202 milhões, na minha opinião, está incorreta. Se eu tenho um histórico de 10 anos em que nunca vendemos menos de € 50 milhões, eles deveriam me permitir incluir esse valor nos meus € 202 milhões. A receita do Flamengo no ano passado foi de € 320 milhões, não € 202 milhões. Vendemos € 85 milhões em jogadores. Quando você compara isso a um clube europeu, que geralmente compra mais do que vende, você precisa considerar a capacidade comercial do clube. O Flamengo vende jogadores em um volume muito maior do que outros clubes da região. Portanto, realizamos mais de € 300 milhões em vendas.
Nossa receita ultrapassou € 300 milhões em 2025. Não € 202 milhões. É o que diz a Deloitte, mas nossa receita foi superior a € 320 milhões. E este ano ultrapassará € 300 milhões novamente. E a Deloitte dirá que será de € 220 ou € 230 milhões. Portanto, a Deloitte é sempre muito mais conservadora do que a realidade. Não estamos entre os 22 clubes com maior faturamento do mundo. Acho que estamos entre o 15º e o 16º lugar. E, novamente, gastamos apenas 40% da nossa receita recorrente. Acho que se fizéssemos um ranking global dos 20 clubes com maior faturamento, o Flamengo provavelmente estaria em primeiro lugar entre os que menos gastam sua receita. Tenho capacidade financeira para gastar 40% ou 50% a mais do que gasto hoje, e isso não me afetaria em nada.

Então, por que o Flamengo não investe mais?
Porque não acho que o retorno será tão eficaz. Não será proporcional. Posso contratar mais de um Lucas Paquetá? Sim, posso. Vou contratar? Não, porque não tenho certeza se com um Paquetá consigo ganhar tudo. Não faz sentido contratar três Paquetás. Se eu contratar três Paquetás e ganhar tudo, nunca saberei se teria ganhado com um ou dois. É um processo. Nunca se investe tudo num único negócio, porque se der errado, você está arruinado. Mas se der certo, invisto um pouco mais. Se vejo que há espaço para o Flamengo crescer e para aumentarmos os gastos, vamos gastar o dinheiro de qualquer jeito? Não vamos. Então, quando se olha para o nível de endividamento do Flamengo, talvez deva 20% da sua receita. No mundo do futebol, isso é muito baixo. É muito comum que os clubes devam 100% ou 120% do que arrecadam. Tenho a possibilidade de aumentar a receita do Flamengo, expandir meus gastos graças ao Fair Play Financeiro, tenho margem de manobra e, além disso, posso endividar o clube, se julgar apropriado, por um ou dois anos. Não existe outro clube no Brasil ou no continente que possa se expandir nessas três áreas.
Como você vê a situação atual dos clubes brasileiros antes da entrada em vigor do Fair Play Financeiro?
É complicado. Alguns clubes conseguem expandir graças ao Fair Play Financeiro (FPF), mas não têm como aumentar sua receita. Outros conseguem aumentar a receita, mas já estão no limite do FPF ou do endividamento. Outros ainda não conseguem expandir de nenhuma dessas três maneiras. O Flamengo consegue expandir de todas as três. Sou muito conservador; eu poderia ter um clube com 50% de dívida, mas não tenho. É por isso que o Flamengo não pega empréstimos. Não preciso pagar juros a ninguém. Tenho dinheiro e gero dinheiro; gero fluxo de caixa. O Flamengo é uma empresa muito saudável. Essa é a situação que temos no Brasil.
A CBF fez uma turnê pela Europa com representantes de clubes brasileiros para conhecer o Fair Play Financeiro na Espanha, Alemanha e Inglaterra… muitos clubes se opõem a essa medida?
Nesse contexto, o clube que mais exige a implementação do Fair Play Financeiro (FPF) no Brasil é o Flamengo. É mentira que você, como técnico, não possa ser responsável ao administrar um time de futebol. A questão é que, quando você não quer pagar nada, a ninguém… nem mesmo impostos… você não pode ser a favor do FPF. Você comprou uma casa que sabe que não vai pagar. Se você não é bom pagador, não quer FPF no futebol. É simples assim. Nós defendemos o FPF há muito tempo.
“O Flamengo entende que deve haver Fair Play Financeiro e Fair Play Desportivo”– Bap
Entendemos que deve haver Fair Play Financeiro e Fair Play Desportivo. Entendemos que precisamos de dois anos para nos ajustarmos. O Flamengo entende que isso será necessário. Estamos em um período de transição. O Flamengo também passou por um período semelhante. Foram seis anos longos para ajustarmos as coisas no clube. Entendemos que é absolutamente necessário um período de dois ou três anos para que os clubes façam seus ajustes. É fundamental. Agora, os clubes dizem que não querem o Fair Play Financeiro. O motivo só pode ser que eles nunca quiseram cumprir suas obrigações porque, se eu parar de cumprir as minhas, vou ganhar absolutamente tudo no Brasil e no continente. Imagine, se eu pegar o dinheiro que pago em impostos, o dinheiro das transferências, o dinheiro dos salários dos jogadores, o dinheiro dos empresários, e se eu não pagar, por exemplo, ao West Ham, o que vou fazer com esse dinheiro? Vou contratar o Lucas Paquetá, vou contratar o Vinícius Júnior, vou contratar o Messi. Não vou pagar nada a ninguém, vou montar uma equipe absolutamente sensacional e vou ganhar tudo. É absurdo.
Os outros clubes precisam se profissionalizar para que o ecossistema do futebol brasileiro esteja à altura dos padrões das cinco Copas do Mundo que conquistamos. O Flamengo está no Brasil hoje por acaso. Porque o Flamengo é uma ilha no Brasil. Nosso sucesso não se deve ao fato de o Flamengo ser maior. Deve-se ao fato de o Flamengo ser melhor administrado, melhor gerido. Quando ouço outros clubes dizerem: “Mas se implementarmos o Fair Play Financeiro no Brasil, não ganharemos nada”, o que eu digo é: “Se eu também parar de pagar minhas dívidas, ganharei tudo também! Assim, eu poderia ter dois, três, quatro times de futebol.”

É razoável que o Flamengo pague todas as suas obrigações enquanto outros clubes não pagam nada e não sofrem sanções? É razoável competir em campo contra clubes que não pagam impostos, não pagam salários e não cumprem a lei? Não, não é razoável. Um sistema de Fair Play Financeiro (FPF) da FIFA é necessário, sim. Sanções são necessárias. Tem que haver consequências. Porque hoje, enquanto conversamos aqui, qualquer um que não cumpra suas obrigações no Brasil pode ser sancionado pela FIFA com uma proibição de transferências. A proibição atual está relacionada a pagamentos atrasados dos clubes, com um período de carência de dois anos. Se eu não pagar este ano, disputo um título, ganho o campeonato, contrato outro jogador e só serei sancionado daqui a um ano. Se o Flamengo decidir não pagar nada a ninguém, eu não sofrerei as consequências. Ficarei aqui até 2027. Se eu decidir não pagar ninguém este ano, ganharei tudo em 2026 e 2027 e deixarei o problema para o próximo presidente. O que eu digo aos outros clubes é: ‘Vejam, o pré-requisito é que vocês sejam corretos, que sejam honestos e que cumpram todas as suas obrigações.’
“O Flamengo é uma ilha no Brasil. Nosso sucesso não se deve ao fato de o Flamengo ser maior. Deve-se ao fato de o Flamengo ser melhor administrado” – Bap
Não vou contratar outro Lucas Paquetá agora porque não tenho certeza se consigo cumprir todas as minhas obrigações este ano. Eu poderia me endividar, mas não acho que seja saudável para o Flamengo fazer isso. Quando vejo outros clubes contratando jogadores — porque há jogadores se oferecendo ao Flamengo — percebemos que o time que os contrata não vai pagar o que eles pedem. Sabemos que não vão. Não é uma questão de “se” haverá um problema, mas sim de “quando” haverá um problema. Mas muitos dirigentes pensam: “Meu mandato termina este ano e o próximo presidente terá que lidar com as consequências”. Essa irresponsabilidade da diretoria precisa ser abordada pelo Fair Play Financeiro (FPF).
A posição deles também é clara em relação à grama sintética no Brasil?
Isso faz parte do Fair Play que eu mencionei. É a padronização dos campos. Todos os times entram em campo com 11 jogadores, eles têm que usar uniforme, as partidas têm horário de início definido… existem regras para absolutamente tudo, mas não temos padronização dos campos, dos estádios. Alguns clubes no Brasil têm estádios com grama sintética porque fazem shows. Fazem shows! Acho que estão no ramo errado. Deveriam entrar para o show business e deixar o futebol. É um negócio diferente, e o trabalho deles é administrar um clube de futebol.
Se eu quiser, posso fazer shows no Maracanã. Muitos artistas já vieram. Frank Sinatra, os Rolling Stones… Mas ninguém vai cantar no Maracanã enquanto eu for presidente do Flamengo. O Maracanã é para jogar futebol. Agora, se eu trouxer uma artista famosa, como a Shakira, para cantar no Maracanã, vou ganhar muito dinheiro com o show dela, sim, mas não estarei cumprindo minha obrigação com o Flamengo. No Brasil, você acaba com estádios de primeira linha, mas com grama sintética porque eles ganham dinheiro jogando futebol e fazendo shows.
“Somos o primeiro clube no Brasil a apoiar o Fair Play Financeiro e Desportivo. Queremos regras” – Bap
Do ponto de vista esportivo, a grama sintética é prejudicial à saúde dos jogadores. Não é adequada para o futebol de alto nível. Por que a CBF permite isso? Por que outros clubes querem lucrar dessa forma? Somos o primeiro clube no Brasil a apoiar o Fair Play Financeiro e Esportivo. Queremos regras. Aliás, o Flamengo cumpre todas as regras existentes, inclusive as que não envolvem propinas. O Flamengo é, sem dúvida, um clube brasileiro administrado como uma multinacional. Estamos no Brasil por acaso.
Aqui na Espanha, as reclamações de Saúl e Neymar sobre o estado dos gramados no Brasil tiveram um impacto significativo. É uma questão preocupante para eles…
Sim… e veja bem, aqui no Maracanã temos um parceiro, o Fluminense. Se você considerar o Santiago Bernabéu, o Metropolitano ou o Camp Nou, terá, talvez, 30 jogos por ano. Nós temos 75 por ano no Maracanã. Contratamos um especialista da FIFA para melhorar o gramado do estádio. Ele fez o trabalho, mesmo com apenas 75 jogos no Maracanã. Estamos investindo 2 milhões de euros em equipamentos para melhorá-lo. Nosso objetivo é ter o melhor gramado do Brasil, que acredito ser o do Corinthians atualmente. Entendo que é justo pagar mais para ter o melhor gramado do Brasil. Vamos investir nessa melhoria no Maracanã. Não é a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) que está forçando o Flamengo, não é nenhuma liga que está forçando o Flamengo. É o Flamengo que entende que isso é bom para os negócios. No entanto, entendemos que a CBF deve definir isso, e eles já aceitaram que terão que regulamentar esse aspecto. Pode não acontecer este ano, mas certamente acontecerá no próximo. Haverá notícias sobre isso, resultantes daquela viagem que você mencionou que a CBF fez recentemente, levando vários clubes para a Europa. Eles foram para a Alemanha, foram para a Espanha… Então, o que eles ouviram na Europa? Exatamente o que estamos pregando aqui no Brasil.

Como é o projeto de saída do Maracanã? É viável para o Flamengo?
Temos um imóvel que a administração anterior adquiriu no Maracanã por 19 anos. A administração anterior era dona do Maracanã e, sob sua gestão, gerava uma margem de lucro de 30% por partida. Com a nossa gestão, a receita do Maracanã dobrou e nossa margem aumentou de 3% para 72%. O Maracanã é meu há 19 anos. Tenho 19 anos para esperar e ver se preciso construir um novo estádio ou não. Já tenho meu próprio estádio há duas décadas, pois detenho a concessão do Maracanã. Não vamos abrir mão dele. Agora, imagine se o novo estádio não tiver um modelo de negócios que gere significativamente mais receita para o Flamengo do que o Maracanã gera atualmente, sem nenhum investimento deles. Por que eu o construiria? No entanto, também depende do momento e das circunstâncias. Hoje, o Brasil, como país, tem uma das taxas de juros mais altas do mundo. Portanto, se decidirmos construir um estádio para o Flamengo, esse estádio teria que custar mais de 500 milhões de euros. Os juros sobre isso seriam de 75 milhões de euros por ano. Eu teria que pagar quase dois Lucas Paquetá por ano em juros. Por que eu faria isso se tenho o Maracanã?
“Flamengo não vai sair do Maracanã, pelo menos por enquanto”– Bap
Eu possuo terrenos, mas se as taxas de juros no Brasil voltarem a 2% ou 3% ao ano, como estavam alguns anos atrás durante a pandemia, talvez faça sentido construir um estádio. Com as taxas atuais, é melhor ter dinheiro em caixa, jogar no Maracanã, que está rendendo excelentes resultados — estamos faturando muito no Maracanã — e ter verba para contratar o Lucas Paquetá. Se eu construir um estádio, sem dúvida, toda essa estrutura que criei será afetada. Toda escolha envolve um equilíbrio. Se eu decidir construir um estádio, certamente não haverá outro Samuel Lino ou Lucas Paquetá, mas terei um novo estádio. O objetivo é gerar lucro. É uma decisão financeira e econômica. Não posso colocar em risco o futuro do nosso time construindo um estádio que é um projeto de 50 anos. Precisamos equilibrar essas variáveis.
Pelo que entendi, a Flamengo está acompanhando de perto a gestão da CBF…
Deixa eu te contar uma coisa, porque preciso ser justo. Esta diretoria da CBF fez mais pelo futebol brasileiro nos últimos seis meses do que qualquer outra nos últimos 20 anos. Tem sido uma gestão séria; fizeram ajustes imediatos e muito firmes, tomaram decisões muito difíceis e, normalmente, no mundo do futebol, há uma tendência a adiar decisões difíceis. Eles encararam os problemas e estão fazendo mudanças. Os jornalistas são muito críticos da CBF e das federações brasileiras, mas temos que dar o devido crédito. Temos que ser justos. Esta gestão da CBF fez mais pelo futebol brasileiro nos últimos seis meses do que qualquer outra nos últimos 20 anos. Depois de Ricardo Teixeira, esta gestão é, de longe, a melhor que tivemos. Estão tomando as decisões certas, mas é como plantar café. Você planta café e às vezes leva cinco anos para ver os resultados. Portanto, muito do que está sendo feito agora terá resultados imediatos, já em 2026, mas a maioria das medidas verá seus resultados a longo prazo. O futebol brasileiro retornará ao nível que tinha há 5 ou 10 anos.
Qual é a situação atual das SAFs (as nossas SADs em Espanha)? Acha que elas vão atrair um futebol mais competitivo para a competição ou serão um problema a longo prazo?
Essa é uma excelente pergunta. Não tenho absolutamente nada contra as SAFs (Sociedades Anônimas de Futebol). Nada. O que eu acredito é o seguinte: qual é o princípio por trás de uma SAF? Você tem um clube de futebol que não consegue administrar suas dívidas, um clube que está falido do ponto de vista da gestão, e alguém decide assumir o controle. Essa pessoa assume as dívidas e faz novos investimentos. Esse é o princípio. Sou totalmente a favor disso. Nenhum problema. O Flamengo nunca será uma SAF. O Flamengo é como o Real Madrid; não precisa se tornar uma SAF.
“O Flamengo nunca será um time da SAF. O Flamengo é como o Real Madrid” – Bap
Entendo que, para o bem do futebol, a SAF (Sociedad Anónima Financiera – Supermercado Financeiro) seja de fato uma solução para outros clubes. O que não pode acontecer é o que estamos vendo com um clube centenário como o Botafogo. Cria-se uma SAF, permite-se que alguém compre o clube, e ele acaba em situação pior do que antes. O Botafogo devia, creio eu, 100 milhões de euros. Alguém compra o clube. Eles foram campeões do Brasileirão e da Libertadores em 2024. Recebem milhões, não pagam nada a ninguém e aumentam a dívida existente. É preciso regulamentação! Se alguém chega com muito dinheiro e usa esse dinheiro apenas para contratar jogadores e não cumpre nenhuma de suas obrigações, qual o sentido? Houve uma distorção do conceito de SAF. O Flamengo é contra esse tipo de situação sem consequências. Tem que haver uma punição esportiva; tem que haver dedução de pontos. Você comprou o clube com uma dívida de 80 milhões de euros, presumiu que a pagaria, aumentou a dívida para 160 milhões de euros, não pagou nada a ninguém e não houve sanções desportivas ou financeiras. Isso está errado.
“O Flamengo se opõe à falta de controle e gestão do processo de propriedade do clube… não das Forças Armadas Escocesas” – Bap
Não se trata do que está acontecendo no mercado, mas sim de como as SAFs (Sociedades Anônimas Financeiras) estão sendo implementadas. Não é assim: houve problemas com a SAF do Vasco da Gama, houve problemas com a SAF do Botafogo… houve problemas com várias SAFs. O Flamengo é contra a falta de controle e gestão no processo de propriedade do clube. Agora, será que eles são contra as SAFs? De jeito nenhum.

Para concluir esta parte mais local da entrevista, o Flamengo é o clube sul-americano mais “europeu” fora da Europa, juntamente com Palmeiras, River Plate e até mesmo o Independiente del Valle… Quem inspira o Flamengo?
Sempre sonhei grande. Sempre pensei em ser o Real Madrid das Américas. Observo o que o Real Madrid faz, o que o City faz, o que o Atlético de Madrid faz, o que o Bayern de Munique faz, o que o PSG faz. Tento entender quais foram seus sucessos, para trabalhar adequadamente no que posso adaptar à realidade do Brasil e identificar os erros que posso evitar repetir. Por exemplo, a era dos “Galácticos” de Florentino Pérez no Real Madrid foi sensacional do ponto de vista do marketing, mas do ponto de vista esportivo, não foi. O PSG tinha um ataque dos sonhos e resultados desastrosos. Não ganharam absolutamente nada e gastaram uma fortuna com Messi, Neymar e Mbappé. Muitas vezes, contratar os melhores jogadores, do ponto de vista conceitual, não significa que você vai construir um grande time, um que terá um desempenho excepcional em campo.
“O Flamengo observa o que Real Madrid, Barcelona, Atlético de Madrid, Bayern de Munique, Manchester City e PSG estão fazendo… O Flamengo pensa grande” – Bap
Eu olho para o Flamengo com base nos melhores exemplos da Europa. Penso grande. Penso no Flamengo como se fosse um clube europeu no Brasil. Em cada decisão que tomo, penso: ‘Se o Flamengo estivesse na Europa, que decisão eu tomaria?’ Então, ajusto essa decisão à realidade brasileira, mas sem deixar que ela a dite. É uma maneira diferente de encarar o negócio. Funcionou para nós. Eles estão lá. Mas hoje, se eu tivesse que falar de um clube que admiro no mundo, se tivesse que citar apenas um, seria o Real Madrid.
Algum exemplo que lhe venha à mente?
Estive em Madrid há alguns meses e levei minha esposa para jantar no Bernabéu. Ela gostou, mas perguntou por que estávamos no Santiago Bernabéu e não em outro restaurante. Respondi que era porque alguém havia recomendado a carne de lá, embora eu não estivesse totalmente convencido. Terminamos o jantar e eu não consegui mais esconder. Disse: ‘Quero ver a que horas termina o serviço, quero ver que tipo de serviço eles oferecem, quero ver se os copos são de cristal, quero ver que tipo de talheres usam, quero ver que tipo de pessoas frequentam o estádio…’ No fim, ela entendeu que viemos aqui para buscar ideias para o Flamengo e o Maracanã (risos).
Em qual clube o Flamengo se inspirará? No que tem a maior receita do mundo. Agora, vamos parar de analisar outras boas ideias? De jeito nenhum. O programa de sócios-torcedores da Alemanha é absolutamente sensacional. Os estádios estão sempre lotados, independentemente do resultado. Como eles conseguem administrar um negócio assim? Acho que se o Flamengo se encontrasse em situação de rebaixamento no meio da temporada, os torcedores iriam destruir o Maracanã. Eu nem conseguiria ir ao Maracanã. Seria uma guerra civil (risos). Eles vendem ingressos individuais, carnês de temporada, pacotes de ingressos e fazem vendas para grupos corporativos que levam pessoas aos estádios. São ideias muito boas.
E quanto aos outros clubes na nebulosa?
Quando você não está em um grande clube, precisa ser mais criativo. O Real Madrid é um ótimo exemplo de iniciativas com muito dinheiro. Mas, quando se trata de criatividade, clubes menos ricos são muito mais criativos do que o Real Madrid. Eles precisam fazer as coisas de forma diferente. Aprendemos muito nesta viagem; um dos nossos vice-presidentes voltou com uma excelente ideia que viu no jogo do Eintracht Frankfurt. Então, não nos comparamos apenas com o Real Madrid, mas com todos os clubes. Por exemplo, fomos a um jogo do Fulham em Londres e tiramos uma boa ideia do que estava acontecendo lá. É uma troca de experiências: ver algo bom e tentar replicá-lo no seu próprio país.




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