Memphis do Corinthians: “Minha Razão de Estar Aqui é Maior do que o Futebol”
Luiz Antônio Prósperi – 12 setembro (14h20) “Nós precisamos reconhecer de onde vem o futebol autêntico. Muitas estrelas do mundo vêm do Brasil, conhecemos grandes jogadores brasileiros. Aqui é a Meca do futebol, o jogo bonito está aqui. As crianças na Europa buscam por jogadores daqui, até pela forma como abraçam a vida, porque não…
“Nós precisamos reconhecer de onde vem o futebol autêntico. Muitas estrelas do mundo vêm do Brasil, conhecemos grandes jogadores brasileiros. Aqui é a Meca do futebol, o jogo bonito está aqui. As crianças na Europa buscam por jogadores daqui, até pela forma como abraçam a vida, porque não é só futebol. Minha razão de estar aqui é maior do que o futebol”.
A declaração de Memphis Depay resume os motivos que o levaram a trocar o futebol europeu pela aventura no Brasil.
Aos 30 anos, fama internacional, jogador de destaque na seleção da Holanda em com passagens no Barcelona e Atlético de Madrid, Memphis, como gosta de ser chamado, é apresentado pelo Corinthians. Contrato vai até julho de 2026 ao custo de R$ 70 milhões entre salários, luvas e bônus.
Acompanhe coletiva de apresentação de Memphis no Corinthians, (12/9):
Por que jogar no Brasil?
“É uma pergunta interessante porque cruzei o mundo para jogar futebol em um país em que não sabemos muito sobre a competitividade. Para mim é simples: eu cresci na Holanda, eu sei da competitividade na Europa e joguei em muitos clubes, eu competi. Estou com 30 anos e disse o que poderia fazer para ser feliz, por alguma razão eu estão aqui hoje. Acredito que tudo na minha vida tem um propósito”.
Conhece situação difícil do Corinthians no Brasileirão?
Sei da situação, mas acredito que noites como as de ontem (Corinthians 3 x 1 Juventude)demonstram que a equipe tem a habilidade de lutar. É um time de lutadores. No dia de ontem, por exemplo, olhando o jogo vi o que significa jogar pelo Corinthians. Embora eu não tenha colocado a camisa, eu senti a energia, o espírito de luta.
Recepção da torcida
“Foi uma experiência incrível. Não esperava, não tinha expectativas em vir para cá. Foi algo único para mim vir para a liga brasileira com 30 anos. Para um jogador como eu, isso não acontece sempre. Quando cheguei ao Brasil e vi os torcedores, aquilo aqueceu meu coração. Compreendi o que significava para aquelas pessoas eu estar aqui. Mais uma vez, agradeço ao Fabinho (diretor do Corinthians) pelos esforços necessários. Quando cheguei, me senti em casa.
A cultura brasileira é bastante conhecida, muito parecida com as culturas africanas. Meu pai é de Gana e senti essa similaridade. Assim que entrei no estádio, nunca tinha experimentado aquilo na vida, algo completamente diferente. Eu não tinha percebido, estou aqui tem 30 horas, está passando rápido. Quero aproveitar, isso vai me levar adiante, quero colocar meu coração nesse campo.
foto Facebook Corinthians
De onde vem inspiração para jogar futebol?
“O futebol é o que faz reunir as pessoas. Acho que isso é algo maravilhoso para mim. Tenho amigos em Gana, no Brasil, e eu inspiro essas crianças. Quero que elas olhem para mim e acreditem em seus sonhos. As multidões ontem me deram essa inspiração. Para ser completamente honesto, foi um momento mágico para mim. Quero jogar cada vez melhor”.
Conselhos de Neymar
“Conversei com algumas pessoas, como o Neymar e outros brasileiros. Perguntei sobre a cultura, o clube, a cidade. Falei com a minha chefe. Olho para mim mesmo e pergunto: ‘o que eu sinto?’. Uma coisa que está dentro de mim é uma alta energia, temos que seguir aquela voz. Quando eu tive aquela sensação, orei sobre isso e dei esse passo. Foi um verão muito longo depois da Eurocopa. Fiquei em paz, me senti em paz. Estava me sentindo bem e tomei a decisão.
Quem é Memphis?
“Cresci jogando futebol todos os dias, mas a música está dentro de mim. Sou metade holandês e metade africano. Fiz isso no meu tempo livre. O futebol é a minha atividade número um, mas a música é a terapia da minha vida. Jogar futebol todos os dias é uma grande pressão, há milhões de pessoas com expectativa sobre você. Escrever música ajuda a encontrar o equilíbrio.
Se você foca apenas no futebol, você vai enlouquecer. Sou uma pessoa com muitos talentos, brinco com a moda porque tenho a possibilidade e a habilidade. O futebol é o meu primeiro amor, meu coração e minha alma estão nisso. Busco esse equilíbrio na vida.
foto Facebook Corinthians
Estrutura do Corinthians convence?
“Acho que é bastante similar ou até melhor em alguns aspectos. O ambiente é saudável e tem um potencial de se tornar cada vez maior. Muitos jogadores vão seguir esse caminho e vir para o Brasil. O estádio e a instituição são ótimos. Ontem eles fizeram um tour, me mostraram os títulos, o Mundial de Clubes, os títulos de Brasileirão. É um clube de muita história, é uma honra estar aqui.
Do outro lado do mundo, eles não conhecem isso, só seguem os clubes europeus. É o momento de ver esse vão. Os brasileiros têm algo especial, acho que a liga é iluminadora para o outro lado do mundo. É momento de demonstrar o potencial, acho que isso vai acontecer nos próximos anos”.
Pretende estudar português e aprova culinária brasileira?
“Experimentei strognoff, arroz com feijão (risos). É uma culinária cheia de sabor. Voltando para as coisas mais sérias, o que eu mais quero é ir para o campo, jogar e competir para atender as expectativas dos torcedores o mais rápido possível.
“Acho que falar a língua sempre ajuda, mas não é fácil. Joguei na Espanha por alguns anos, vou fazer aula de português para me conectar com meus companheiros de equipe. A música é uma paixão, tenho tanta música em mim”.
Memphis ganha óculos de um influente de torcida no meio da coletiva
“Não entendi o que aconteceu, mas adorei (risos). É o tipo de energia da qual estamos falando, muitas vezes não temos isso na Europa, que é um lugar muito sério e direto. Adorei os óculos, muito obrigado. Agora, respondendo a sua pergunta, vamos ver como as coisas vão. Preciso de uma casa, sinto falta dos meus cachorros, tenho cachorros grandes e sinto falta deles.
foto Facebook Corinthians
Conversa com o técnico Ramón Díaz
“Falei com ele (Ramon) por telefone antes de vir ao Brasil. Fiquei com uma boa impressão. Sou um jogador que gosta de criar e marcar gols. Gosto de jogar um futebol bonito, estou feliz com isso. Ontem, me encontrei com os jogadores e me senti ótimo. Apesar da posição que estamos no momento, eles demonstraram muita coragem. Não é fácil, são finais. Senti eles juntos, sei o quanto significa jogar por esse clube, quero trazer minhas qualidades ao clube. É uma equipe que tem grandes potenciais para ganhar muitos títulos, é para isso que estou aqui.
Lembrança do gol que fez na Arena Itaquera na Copa do Mundi 2014
“Para ser honesto, eu não sabia que já tinha marcado aqui. Foi especial. Foi a minha primeira experiência no Brasil há dez anos, marquei o meu território em Copas do Mundo. Dez anos depois estou aqui para competir, isso é algo especial. Isso me inspira e vai me inspirar por muitos outros anos. Muito obrigado por me lembrarem do que aconteceu há dez anos aqui no Brasil, era um sonho jogar aqui.
Qual posição pode jogar?
“Durante a minha carreira, já joguei de 10 e de atacante. Sou um 9,5, posso jogar na esquerda, posso jogar por trás do atacante. Sou um jogador criativo, gosto de jogar entrelinhas. Vamos ver como encaixa. Quero começar a marcar gols, ontem criamos muitas oportunidades e quero me aproveitar disso para marcar gols e criar oportunidades para a equipe.
Pensa em projetos sociais no Brasil?
“Acho que é importante procurar as lições que Deus te deu. Em Gana, ajudo crianças cegas e surdas. É uma bênção poder fazer isso, é claro que vou ajudar nisso no Brasil, mas com muito cuidado. Buscarei oportunidades de estar com pessoas reais, gente da favela, é uma forma que quero ter de representá-las. Há oportunidades aqui, tudo isso vem do futebol, é isso que temos que ver.
foto Facebook Corinthians
Quem te inspirou no futebol?
“Um dos jogadores que mais me inspirou foi o Ronaldo (Fenômeno). Ele jogou no PSV, Barcelona e também aqui. A forma como ele jogava, sempre disse que ele me inspirava. Para mim, vai além. Os brasileiros, em todo o mundo e aqui, não precisam me agradecer por eu falar com respeito (ao futebol brasileiro). Vocês contribuíram com o futebol no mundo inteiro, vocês nos inspiraram. O Ronaldo me inspirou muito.
Relação do Gana e comparação com o Brasil
“A minha mãe é da Holanda, meu pai é refugiado de Gana. Não tive chances de ver as minhas raízes até ter 22 anos de idade. Nem sempre as coisas funcionam do jeito que você quer. Eu cresci na Holanda, meu pai me deu caráter. Quando fui para Gana, comecei a conhecer a história dos meus ancestrais.
O sangue que eu carrego vem de uma tribo guerreira de Gana. A história vem desde o tráfico de escravos, tenho essa ancestralidade em mim. Temos brasileiros em Gana, isso é engraçado. Quando eu falo de propósito é sobre isso. Foi aí que percebi minha conexão com o Brasil e com o povo brasileiro, muito antes de jogar na Espanha ou na França. Estou conectado com os jogadores brasileiros. Quando cheguei aqui, vi o espírito e achei tudo muito parecido.
“Senti a conexão. Se eu estivesse em Gana, teria lugares lindos para ver, mas com uma grande desigualdade. Sinto essa conexão com o Brasil. Você vai me ver de terno e gravata, mas estou fazendo muito trabalho por trás, um trabalho de base. Isso sou eu, estou aqui para jogar futebol e preencher esse vão entre lá e cá. Tudo isso é muito grande.
foto Facebook Corinthians
Como sentiu a recepção de torcedores e símbolo do Corinthians no seu penteado?
“Ontem, quando estava entrando no campo, vi as crianças com a faixa (no cabelo) e fiquei surpreso. A forma como você se veste é uma expressão de si mesmo. É uma coisa simples. Se você pode inspirar através da moda, faça. Quando eu era jovem, eu usei a faixa porque o Ronaldinho usava. Os rappers norte-americanos também usavam.
É uma coisa linda quando você inspira pessoas. Se eu puder inspirar dez pessoas para doar dez euros para pessoas pobres, fiz o meu trabalho. Esse é o mais nobre dos atos. Vejo como os torcedores se conectam e acho isso lindo.
“Sempre tive cabelo curto, e agora estou deixando crescer. Pedi para a cabeleireira colocar o logo do Corinthians no meu cabelo. Ela disse que era impossível, mas tentamos e conseguimos.
Futuro na Seleção da Holanda e como está sua parte física
“Primeiro de tudo, acho que a parte física é muito importante. É sempre como você se prepara, para mim as últimas duas temporadas não foram tão boas. Fiz os testes e estou em forma. Tenho sorte que consigo aprender e jogar hoje. É importante ter todas essas questões para me preparar da melhor forma possível. Isso vai me ajudar, o calendário tem muitos jogos, e eu preciso jogar.
“Os treinadores das seleções (da Europa) precisam investigar essa liga e vão ver que é muita competitiva. Jogamos a Copa do Mundo e é sempre muito difícil jogar com os sul-americanos por conta da paixão e da intensidade. Na Europa, somos mais controlados. Acho que é importante a Europa olhar para cá, há grandes estádios, grandes clubes e grandes grupos de torcedores. Tenho alguma experiência com alguns países sul-americanos, entendo o quão duro é.
foto Facebook Corinthians
Primeiras impressões do Corinthians
“Foi lindo, conheci o clube e recebi até uma Bíblia. O que significa que para ser Corinthians tem que ter respeito. Vim aqui com respeito. Estou para ajudar o clube, a torcida. Foi lindo ver nos olhos daquelas pessoas o que significa estar aqui. É quase uma religião. Quero voltar ao museu porque ontem foi um dia ocupado. Vi várias histórias, quero visitar em paz o museu para conhecer ainda mais a história do clube. É uma história incrível.
Semelhanças entre Holanda e Brasil?
“Não sei se existem similaridades. Se eu olhar para as equipes brasileiras lá do passado até as de hoje, sinto que é ligado à intuição. Na Europa tem muito a ver com, não sei, acho que o futebol holandês é muito como conduzimos o jogo. Temos grandes atacantes, grandes defensores.
“Somos famosos, não acho que seja parecido. Aqui, é sobre intuição. Na Europa, não temos tambores nos estádios. É completamente diferente a vibração, não dá para comparar. Quero jogar antes de responder essa pergunta.
Ontem (Corinthians 3 x 1 Juventude), foi incrível, foi algo louco. A torcida compreende o impacto que tem no campo, quando o Corinthians tomou o gol gritaram mais alto para ajudar o time. Não estou acostumado a ver isso com tanta frequência, foi algo especial. A torcida precisa se orgulhar, os jogadores são incríveis e precisamos dar um retorno às arquibancadas.
foto: Facebook Corinthians
“Minha maior contribuição é deixar meu coração no campo, é isso que os torcedores estão esperando. Quero dar o meu melhor e ganhar jogos. Vejo um grande potencial nesse clube em termos de marketing, tenho ideias para o clube. Temos grandes torcedores, temos visibilidade.
A minha vinda para cá é para acender uma luz na liga brasileira (Brasileirão) e para o Corinthians. Nos próximos dois anos temos muita a fazer, quero ganhar títulos, temos que ter uma mentalidade vencedora. Além disso, de ganhar títulos, o Corinthians tem um grande potencial financeiro. Penso que muitos jogadores seguirão meus passos e virão para cá.
Coincidências de sua música e o Corinthians
“Não acredito em coincidências. Acredito em propósito. A música ‘Corinthians’foi criada lá atrás. Espero grandes coisas, mas quero manter isso. Oro por isso, sei que muitas coisas você precisa orar ou falar para que elas aconteçam. As pessoas aqui estão prontas para uma mudança. Quero ser feliz, jogar futebol e ajudar a equipe. Sei que isso vai ser grandioso. Muito obrigado.
Memphis está regularizado no BID na CBF e pode ser relacionado para o jogo contra o Botafogo, sábado (14/9), às 21h no estádio Nilton Santos (grama sintética), Rio.
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