Luiz Antônio Prósperi – 26 outubro (12h05)
Zé Carlos, 56 anos, lateral-direito, nos deixou na sexta-feira (25/6) ao sofrer uma parada cardiorrespiratória. Registro de sua morte seria uma nota no pé da página se jornais impressos ainda tivessem importância. Errado. Seria isso sim um abre de página. No mundo online, caberia no topo dos principais portais. Zé Carlos é desses personagens que só o futebol é capaz de criar. Um anônimo que faz história em um único jogo inesquecível.
Folclórico nas imitações de animais, o galo o seu preferido, Zé Carlos sempre era o “Zé Carlos Cocoricó”. Carreira construída em times intermediários do interior paulista, o lateral ganhou fama no São Paulo FC em 1998, ano da Copa do Mundo da França. Ele nem sabia que 1998 seria o ano de sua vida. Nem Zé Carlos, nem o mundo.
Zagallo, então treinador da Seleção Brasileira, resolve convocar Zé Carlos na última chamada antes da Copa na França. Cafu era o titular indiscutível da lateral. Zé Maria, da Portuguesa e pronto a jogar na Europa, era reserva de Cafu na maioria das convocações de Zagallo. De última hora, o técnico abandona Zé Maria e leva Zé Carlos, talvez por superstição.
Surpreso e sem se preocupar com uma eventual substituição do titularíssimo Cafu, Zé Carlos inicia aventura da Copa de 98 mais como animador do grupo de jogadores a um dos imprescindíveis na campanha do Mundial.
Repórteres se divertiam com Zé Carlos. A maioria das matérias na TV, emissoras de rádio, jornais (a internet não existia na imprensa brasileira naqueles tempos), explorava o simplório Zé Carlos a imitar animais. Zé Carlos, bom moço, entrava na onda da mídia e desfilava seu repertório de galos, patos, papagaios, sapos… após treinamentos no acanhado estádio de Ozoir-La-Ferrière, nas cercanias de Paris.
De repente, Cafu é suspenso e não pode defender a Seleção Brasileira nas semifinais da Copa contra a temível Holanda.
Muitos de nós duvidamos de que Zagallo escalaria Zé Carlos. Zagallo banca Zé Carlos e pede: “Quero que você imite o Cafu contra a Holanda”.
Chega o dia do jogo. Um jogador me contou, um ano depois da Copa, que, na hora de a Seleção subir dos vestiários de mãos dadas para o campo de jogo no estádio em Marseille, Zé Carlos se recusava a entrar. “Não vou entrar, não vou”…”Puxei o Zé, vamos lá, você vai jogar. Isso aqui é Seleção Brasileira”.
Zé Carlos entra no campo, treme durante execução do hino e vai para jogo.
Nas tribunas de imprensa, ao lado da minha bancada, estava o saudoso repórter Eli Coimbra. Ele entrelaça seus braços no meu braço esquerdo e passa o jogo inteiro agoniado e repetindo: “Prósperi, estamos com um a menos… Não vai dar certo… estamos com um a menos”… se referindo a Zé Carlos, sofrendo na marcação de Kluivert, um dos astros da Holanda.
Eli Coimbra sofreu ao meu lado os 90 minutos até euforia final quando o Brasil venceu a Holanda nos pênaltis e se credenciou à final da Copa do Mundo.
Zé Carlos não bateu nenhum pênalti. Rezou como a maioria dos jogadores, Zagallo e muita gente da imprensa durante as cobranças.
Garantida a classificação do Brasil à final, na zona de entrevistas dos jogadores após o jogo, lá estava Zé Carlos, leve como uma pena, repetindo imitações de galos…
Descanse em paz.





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