Luiz Antônio Prósperi – 4 setembro 2025 (12h25) –

Seleção Brasileira chega onde há muito tempo queria estar. Somos agora um time europeu, dos pés à cabeça. Os quatro dias de treinamentos em Teresópolis, na Região Serrana do Rio, escancaram a europeização do escrete. Da voz de comando da comissão técnica de Carlo Ancelotti se ouve instruções aos boleiros nos idiomas inglês, italiano, espanhol e, por último, português. Dos 24 jogadores eleitos por Carletto, dez chegam da Inglaterra, três da França, dois da Rússia, um da Espanha, um da Itália, um da Arábia Saudita e seis do Brasil. Por mais inusitado que se possa parecer, não se contesta a europeização da Seleção. Se aplaude. A ponto de se dizer sim a Ancelotti por encostar Neymar, o último craque com patente do futebol brasileiro.

O time que entra em campo hoje (04/9), contra o depauperado Chile no Maracanã, até se tem algumas vertentes do nosso futebol. Ancelotti promete quatro atacantes de ofício. Seja qual for o método do treinador italiano, a verdade é que a Seleção entra na linha de chegada da Copa do Mundo 2026 carregada de europeísmo, o tal futebol universal. Se não temos mais uma geração de luxo, extraclasse, então vamos apostar em meninos fortes, de certa habilidade com a bola, e seguir padrões rígidos na condução do jogo. Prática comum na Europa hoje em dia.

Nada empírico. Nada de improviso, apesar de o drible estar liberado. Até porque não se joga com a camisa amarela com medo de driblar.

A conversa é outra. Veja o caso de Ancelotti. Não fomos buscá-lo no Real Madrid por obediência a um plano, uma estratégia. Chegamos ao italiano por ideia maluca de Ednaldo Rodrigues, presidente da CBF responsável pela contratação de Carletto. Se o grandes e médios clubes brasileiros já gastavam os tufos com treinadores estrangeiros, por que não a Seleção?

Ednaldo, o bom baiano, se vestia de patriarca imaginando que poderia ser o Rei Sol do nosso futebol. E apostar em Ancelotti o livraria de todo o mal. Caiu do poder apeado pela casta secular de nossos cartolas. Deixa como herança o mister Ancelotti.

Mídia nativa, como diria o já saudoso Mino Carta, ajuda pisar em Ednaldo e sai em aplausos a Ancelotti. Agora, sim, “temos um grande técnico na Seleção”.

Do velho ditado, junta a fome com vontade de comer. Se os “nossos professores” vivem a decadência e os novos não se impõem, então melhor ter um estrangeiro de renome. Inquestionável. E voltamos ao nosso rame-rame: como formar um time campeão tendo 24 anos de distância da última Copa conquistada?

Simples assim. Basta seguir as normas do futebol europeu. Afinal de contas será contra as potências europeias o embate final na Copa 2026 no território de Trump.

E Neymar? Por enquanto, um estorvo e nenhuma novidade.

Nos idos de 2002, Felipão enfrentou muitos arranca-rabos diante da teimosia da mídia e parte da torcida a exigir Romário no time da Copa do Mundo na Coreia e Japão. Decadente, sem o brilho de outrora, Romário parecia impoluto. Era o Neymar da época apesar de ostentar o título mundial de 94.

Felipão disse não a Romário. Talvez já com a certeza de que Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e, em especial, Ronaldo Fenômeno fariam o serviço e no final ninguém questionaria a ausência de Romário. Felipão estava certo. Brasil campeão mundo em 2002, sem Romário.

Agora é diferente. Tirando os fanáticos por Neymar, e eles são milhões mundo afora, ninguém quer o “menino” no escrete. Maioria da mídia encampa o “não a Neymar”. Ancelotti sorri. Nem é preciso sofrer com essa novela brasileira.

Ancelotti quer ouvir Bocelli. Degustar um churrasco na Granja Comary e até se divertir com os intragáveis pagodes cantados por nossos boleiros nas horas de recreio. Depois, quando a conversa for no campo, aí sim os métodos serão os dos europeus.

Mesmo sem perceber, lutamos muito para chegar a esse ponto de ver a imaculada Seleção Brasileira tão europeia como nunca.

Vai dar certo na Copa de 2026?

Ninguém pode cravar nada.

Se formos campeões, toda glória ao estrangeirismo, ao futebol universal imposto por Ancelotti.

Se perdermos de novo, amém. Ancelotti vai se aposentar ou ainda faturar uns caraminguás no rico futebol árabe por mais alguns anos e depois desfrutar de sua bela Itália com direito a uma casa de verão em praias cariocas.

E seu legado à Seleção será como o de todos outros nossos técnicos que foram derrotados: “eu tentei”.

Pelo menos dessa vez teríamos sido tão europeus como eles, os donos do longo império do futebol.

Ou melhor, então, recorrer à canção de Gilberto Gil:

“Não me iludo.
Tudo permanecerá do jeito
Que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver.”

Bom dia. Boa Noite. Boa Sorte.


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