Os Leões da Mesopotâmia esperaram 40 anos para retornar à Copa do Mundo e tiveram que trilhar um caminho muito difícil para isso.

Desde a invasão liderada pelos EUA em 2003, o país tem sido notícia por seu caos, violência e instabilidade –

João Duerden – The Guardian – 4 abril 2026 (12h35)

Se alguém merece a chance de comemorar o retorno do Iraque à Copa do Mundo, esse alguém é Aymen Hussein, e não apenas porque o atacante marcou o gol da vitória na final da repescagem intercontinental contra a Bolívia na terça-feira.

Nascido e criado em Kirkuk, no norte do Iraque, uma região afetada primeiro pela guerra e depois pelo Estado Islâmico, Hussein perdeu o pai em um ataque da Al-Qaeda em 2008. Seis anos depois, seu irmão desapareceu e o jovem jogador de futebol foi forçado a fugir com os membros restantes de sua família. O futebol proporcionou a Hussein uma saída e esperança. Agora, ele deu ao seu país, que se recupera dos horrores recentes, mas ainda suscetível à instabilidade regional generalizada, como mostram os eventos atuais, um dos momentos mais felizes de sua história recente.

Talvez tenha havido desespero nas ruas de Roma, Copenhague e Varsóvia na noite de terça-feira, mas na manhã de quarta-feira, sob o sol de Bagdá, o cenário era diferente: torcedores agitavam bandeiras, dançavam e cantavam. Bem longe dali, no México, onde os Leões da Mesopotâmia disputaram sua primeira e única Copa do Mundo até hoje, em 1986, a seleção nacional voltou a campo para derrotar a Bolívia por 2 a 1.

O país esperou 40 anos por isso. Hussein esperou nove. Quando tinha 21 anos, disse que queria levar o Iraque à Copa do Mundo. Agora, ele conseguiu. Este camisa 9 à moda antiga apareceu na área oito minutos após o início do segundo tempo para marcar o gol da vitória.

Comemoração de Aymen Hussain e o técnico Graham Arnold – foto: IMAGO / Middle East Images)

Era tarde demais para que os torcedores iraquianos em Monterrey ousassem sonhar, mas não tão tarde a ponto de os sul-americanos não terem tempo de se lançarem ao ataque em busca do empate. Eles tiveram mais finalizações, 16 a sete, e 16 escanteios a dois. No fim, porém, quando o apito final soou, isso realmente não importava. A única coisa que importava era voltar ao cenário mundial.

A Copa do Mundo de 1986 foi ofuscada internacionalmente e manchada em seu próprio país. Uday Hussein, filho de Saddam Hussein, controlava a equipe e instaurou um regime de terror e brutalidade. Apesar do tormento, a seleção se mostrou competitiva, sofrendo três derrotas, contra Bélgica, Paraguai e México, todas por apenas um gol de diferença.

A espera para o retorno foi longa e a jornada desta vez foi a mais árdua nas eliminatórias para esta Copa do Mundo ampliada. O Iraque disputou 21 jogos rumo a Boston, local de sua estreia no Grupo I contra a Noruega, em 16 de junho. A equipe começou na segunda fase, com seis jogos, terminando em primeiro lugar no grupo. Na terceira fase, enfrentaram 10 partidas, mas não conseguiram garantir uma das duas vagas diretas para a Copa do Mundo em seu grupo de seis times, perdendo para a Jordânia, e assim seguiram para a repescagem.

Em maio de 2025, Graham Arnold assumiu o comando. O experiente treinador havia levado a Austrália por uma trajetória semelhante, passando pelos playoffs, até as oitavas de final da Copa do Mundo de 2022, onde enfrentou a Argentina, que viria a ser a campeã. Seu sucesso lhe rendeu o prêmio de melhor técnico do torneio, concedido pelo jornal L’Équipe. O treinador de 62 anos foi contratado para classificar o Iraque, e conseguiu.

“Tenho que agradecer muito aos jogadores”, disse Arnold depois de ter sido erguido para o alto em Monterrey por membros do elenco. “A ética de trabalho deles, eles mostraram a verdadeira mentalidade iraquiana e se entregaram de corpo e alma, por isso vencemos o jogo. Digo a eles: estou muito feliz por termos feito 46 milhões de pessoas felizes. Principalmente com o que está acontecendo no Oriente Médio neste momento, estou muito feliz por eles.”

Os fãs de toda a Ásia certamente não irão invejar o sucesso. Desde a invasão liderada pelos EUA em 2003, o país tem sido notícia por seu caos, violência e instabilidade. Isso tornou o triunfo na Copa da Ásia de 2007 ainda mais impressionante. Contudo, isso não levou o Iraque de volta à Copa do Mundo.

 

Inconsistência, azar e a impossibilidade de jogar as eliminatórias em casa contribuíram para repetidas derrotas. Desta vez, a expansão do torneio obviamente ajudou – o Iraque não teria chegado nem perto se a Ásia tivesse as tradicionais quatro ou cinco vagas. Poder jogar em casa, na cidade portuária de Basra, no sul do país, também foi um fator importante, embora jogar diante de 60 mil torcedores apaixonados traga sua própria pressão para uma equipe desesperada por sucesso.

Mas agora há mais experiência no elenco, que conta com vários jogadores que atuam em clubes europeus. Jovens talentos como Ali Jasim, Zidane Iqbal e Aimar Sher terão a oportunidade de mostrar ao mundo o que podem fazer ao lado de estrelas mais experientes como Hussein e Jalal Hassan.

É um grupo difícil, com a França e o Senegal, campeão africano (podemos dizer isso?), logo após a estreia, com Erling Haaland e companhia. Mas, depois de tudo o que o país e seu herói artilheiro, Hussein, passaram, este é o desafio mais bem-vindo.


Descubra mais sobre PRÓSPERI NEWS

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Tendência

Descubra mais sobre PRÓSPERI NEWS

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo