A Copa Que Eu Vi (parte 1): depoimento

Luiz Antônio Prósperi – 20 julho 2026 (15h30)

Rodri ergue a taça de campeão da Copa do Mundo de 2026 por volta das 19h (horário de Brasilia), domingo (19/7), no estádio MetLife, nas cercanias de New Jersey e New York. Jogadores da Espanha pulam de alegria emoldurando o gesto do capitão da seleção. No cantinho do palco, pouco fora da moldura da festa espanhola, Donald Trump e Gianni Infantino soltam uma risadinha própria dos infames. Acabava a Copa programada a ser das estrelas e das celebridades, como queriam os presidentes Trump dos EUA e Infantino da Fifa. Vingava o futebol coletivo da Espanha. Trump feliz por seu país faturar horrores com a Copa e Infantino 15 bilhões de dólares nos cofres da sua Fifa.

O ato final da Copa 2026 resume a história. Antes mesmo do jogo Espanha x Argentina, a Fifa divulga a presença de 235 celebridades no MetLife. As imagens da TV e YouTube eram reveladoras. Do discurso de Tom Cruise, a poucos minutos do início da grande decisão da Copa, aos fremes de artistas de Hollywood e influencers durante os 120 minutos de futebol, a preocupação, parecia, era colocar o jogo sem segundo plano. Sem falar do Show do Intervalo com Madonna, Shakira, BTS, Justin Beaber, Ted Lasso e outros menos cotados.

Rodri levanta a taça, Trump e Infantino sorriem – foto: reprodução TV

Não por acaso a qualidade da final Espanha x Argentina tenha sido a pior de todas entre as últimas decisões de Copas do Mundo. Mas essa análise quem deve se encarregar são os catedráticos do futebol.

A plateia, digo a torcida, beirando a casa de 81 mil espectadores dentro do MetLife, queria futebol. Mas não perdia tempo em registros selfs ao longo do jogo. Talvez para valorizar o momento que custou de 10 mil a 1 milhão de dólares cada ingresso dos precificados pela Fifa.

Aliás, a Copa 2026 se posiciona em primeiro lugar no preço dos ingressos. Nunca se cobrou tanto por tão pouco futebol.

A VEZ DE VOZINHA

Sim, tivemos grandes jogos entre as 48 seleções, maior número de participantes na história de quase 100 (cem) anos de Copas do Mundo. Boas novidades com Cabo Verde, Curaçao, Haiti, entre outras inusitadas presenças. Goleiro Vozinha, o símbolo das seleções pequenas em busca de reconhecimento em territórios americano, mexicano e canadense.

Vozinha fecha gol de Cabo Verde contra Espanha – foto: Fifa oficial

Algumas estrelas cintilaram. Haaland, uma das mais luminosas dessa constelação, Bellingham, Mbappé, Harry Kane, Lukaku (dancinha irônica Trump) e até Vini Jr.. e, a mais brilhante de todas, de luz própria, Lionel Messi.

Sim, Messi é o símbolo dessa Copa. Sorriu e chorou na mesma proporção dos vitoriosos e derrotados. Traduziu o que é a essência do futebol. E no final da história não recebeu uma mísera condecoração da Fifa. Suas lágrimas dizem tudo.

Outras estrelas saíram literalmente pelas portas do fundo. Neymar, Cristiano Ronaldo, o correto Modric, goleiro Uchoa, Neuer.. alguém mais? Sim, a Seleção Brasileira entra nessa fila de o maior fiasco da Copa, com Ancelotti e tudo.

APOSTAS A GRANEL

A Copa que eu vi também reforça o poder avassalador das apostas. A própria Fifa não escondia o patrocínio de uma plataforma de jogatina estampada em placas publicitárias ao redor dos gramados: ADI PredictStreet – projeção de resultados, no caso futebol, com Sim/Não. Uma desfaçatez a quem deveria se encarregar de cuidar da lisura do futebol.

Transmissões dos jogos ao longo dos 40 dias da Copa também foram permissivas ao merchandising das apostas. Incentivo de verdade. Caso da CazéTV no Youtube exibindo os 104 jogos da Copa ao território brasileiro e denunciada por suspeita de uso indevido das Bets.

ENTRE ESQUILOS E CERVOS

Nas andanças nos Estados Unidos, minha Copa esteve em boa parte do tempo na região de Morristown nas cercanias de New Jersey. Um lado bucólico dos EUA onde a Seleção Brasileira fincou sua base em um luxuoso hotel e megaestrutura do centro de treinamentos da Red Bull. Nas poucas horas de quietude no hotel em que me hospedei observei o dia a dia de esquilos e cervos  se alimentando nos arredores de matas nem muito densas. Matas rasgadas por rodovias intermináveis numa correnteza intermitente atroz de carrões e caminhões. A Copa on the road.

Também vivemos os deslocamentos impossíveis em transportes coletivos caros e sem levar a pontos estratégicos de jogos e treinamentos das seleções. De avião, não se voava por menos de 300 a 700 dólares. Sem falar nos atrasos absurdos de mais de duas horas entre um voo e outro. Muitos deles aguardando dentro de aeronaves lotadas até a última fileira de assentos. Latas de sardinhas voando pelos céus dos EUA.

CÃES FAREJADORES

A Copa que eu vi mostra ainda os perrengues diários da mídia em geral no acesso aos estádios e centros de treinamentos. Tudo tem de passar pelo raio-x. Em alguns estádios, antes mesmo de submetermos equipamentos e corpos ao raio-x, éramos farejados por cães adestrados a farejar drogas e outros ilícitos. Constrangedor. O que queriam encontrar em nossas mochilas de equipamentos de trabalho: cocaína, armas, explosivos? Ah, da licença!

Jornalistas na cobertura da Seleção Copa 2026 – foto: CBF oficial

No dia a dia, entre cidades, condados e estádios, a Copa que eu vi mostra uma comunidade latina sempre disposta a ajudar. Hermanos de verdade. Sorrisos e generosidade. Mostra também os típicos americanos cada um na sua sem se deixar levar pela paixão ao futebol. Indivíduos sem dar as mãos a nós, forasteiros, com hora marcada para vir embora.

Por fim, nessa Copa que vi não se pode esquecer de mencionar New York, uma das capitais do mundo. Seus dias de Blade Runner. Seus aromas e fumaças brotando dos bueiros no asfalto. Trafegar de povos locais e de todas as partes do planeta. A brisa contagiante e calmante da maconha liberada e consumida em tudo o que é canto da megametrópole. Os cenários vivos de sirenes e poluição sonora de tantos e tantos filmes americanos. A sensação ao caminhar por I Love NY era de que você estava em uma cena de um filme. Todos nós múltiplos de si ali.

Loja de maconha em NY – foto: Luiz Prósperi

Sim, New York imortalizada na voz de Frank Sinatra, no jornal New York Times, no Empire State Buliding, nos grudados edifícios de “quilômetros” de altura, no local arroz de festa Time Square onde torcidas da maioria das seleções se fez presente com alegria e inconformismo nas vitórias e derrotas.

A Copa que vi em 2026 nos Estados Unidos em quase nada lembra a Copa que vi em 1994 nos mesmos Estados Unidos quando fui um dos jornalistas a contar a saga da Seleção Brasileira na conquista do Tetra.

Se passaram 32 anos. O país é o mesmo. O futebol, não. As coincidências, sim.

A Espanha campeã em 2026 levanta a taça na força do futebol coletivo. Brasil em 1994, também.

Afinal de contas o futebol é um esporte coletivo que se joga em nome de 11, mesmo que entre esses 11 brilhem algumas estrelas. Estrelas, entendeu? Não nos referimos a Trump e Infantino.

Quem sabe um dia seremos lembrados por Keyne Ebana Yamal, o irmãozinho de três anos do campeão Lamine, um ícone dessa Copa digital presa numa telinha de celular.


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