Um Diário Russo (5): Lenin não morreu e Doutor Sócrates aparece no trem

Chuteira FC na Copa do Mundo 2018Luiz Antônio Prósperi, de Moscou / Rússia

Moscou e Samara  (22/6 a 2/7)

Uma semana em Moscou e a cidade continua a provocar e a levar por caminhos nunca imaginados. Metrô é um caso a ser contado. Te conduz a todos os cantos da capital em conexões labirínticas e ao mesmo tempo preciosas. A cada estação uma disputa para se saber qual a mais suntuosa. Algumas lembram salões de danças de palácios, nobres. Lustres, candelabros, colunas, pinturas nos tetos. Tanta beleza subterrânea como lá em cima na metrópole de mais de 900 anos. Trens velhos, da década de 80, penso, a zunir nos ouvidos de tão velozes apesar da velha carcaça, a moderníssimos com direito a monitores de TV para você acompanhar ao vivo, por exemplo, um jogo da Copa. Em um deles, de volta do Estádio do Spartak, assisti um pouco do drama da Alemanha contra a Suécia, ainda na primeira fase do Mundial.

É o Palácio do Povo construído por Stalin em 1935, um dos maiores do mundo – 3,3 bilhões de passageiros transportados  por ano, 9,2 milhões por dia, 206 estações, 350 km de extensão. Tarifa: 50 rublos – R$ 3 reais, mais barato que São Paulo.

Milhares de pessoas, num vai e vem alucinado, disputam o espaço nos salões, digo, plataformas das estações. Às vezes se parece com bailes de outrora. Muitas vezes cenas de filmes. E quantas histórias não acontecem nesses subterrâneos de Moscou? Já vi casais de gala, bebuns escorados nas pilastras à espera do trem de são nunca, militares fardados à campana e cães farejadores, cadetes moços e moças, velhas chiques maquiadas, garotada ocidentalizada com jeans rasgados, shortinhos, mulheres esguias em traje de manequim, homens no figurino Putin.

Uma coisa toda essa multiplicidade de pessoas têm em comum: esse maldito e bendito celular. Assim como em todos os rincões, eles são empunhados como deuses a iluminar os caminhos nas profundezas de Moscou. Para minha decepção, em uma semana de andança no metrô moscovita, contei nos dedos, vi apenas três pessoas lendo jornal de papel. Isso em dias alternados. Uma raridade. Aquela multidão é igual as outras mundo afora refém da tecnologia, da terra plana virtual.

Um punhado, já disse, milhares e milhares mergulhados numa profundidade absurda. Quando você pega uma escada rolante para descer até a plataforma de embarque é como se estivesse descendo ao centro da terra, numa lentidão apaziguadora do stress da urbe lá em cima. Vertical. Não sei, mas me parece que em alguns casos essas escadas alcançam uns 100 metros do pátio até onde passam os trens para o embarque. É bem interessante. Você vê as pessoas passando ao seu lado no sentido inverso em slowmotion. Cenas de filme, Instagram e histórias imaginadas.

Ao observar os detalhes dos ornamentos das estações, não raro encontramos símbolos do comunismo que dominou a Rússia, da Revolução de 1917 à criação da União Soviética em 1922 até a queda em 1991. Atenção: não vou falar aqui da história russa, nem defender teses. Apenas continuo com olhar de repórter, observador, do que está a minha frente nas cidades russas.

Por isso resolvi fotografar símbolos e personagens do comunismo incrustados em todos os cantos de Moscou. Foice e martelo cruzados da antiga bandeira da União Soviética brotam na cidade. A figura de Lenin, um dos líderes do regime, tem mais destaque que os outros. Está em todos os lugares, desde um modesto busto incrustado na parede a uma colossal estátua na parque do estádio Luzhnik, palco da final da Copa do Mundo. Parece que Lenin não morreu.

A queda do comunismo, me chama atenção, não levou os russos a apagar a memória por vontade própria. Do pouco que vi nesses dias de Copa, as estátuas das figuras importantes da Revolução Russa e União Soviética estão intactas. Bustos nas paredes bem conservados. Fotos, pinturas, pôsteres, referências da época, tudo preservado. Seja qual for o sentimento dos russos neste 2018, não percebi na minha ingenuidade de repórter ódio nas ruas ao comunismo. Os ícones do regime continuam ornamentando praças, metrôs, fachadas e prédios públicos. E respeitados. Sem  pichação ou depredação.

Aliás há cuidado extremo em manter bem limpas as principais vias da cidade, pelo menos nesse mês de Copa. Avenida Tverskaya, uma das que levam ao Kremlin, é varrida e lavada por pequenos caminhões como se lustra um assoalho da principal sala de casa. Sem parar. Presenciei esse pequeno exército da limpeza a bordo de caminhões, de manhã, de tarde e, principalmente, no começo das madrugadas.

Nas pistas, carros potentes, Audi, BMW, Mercedes, Land Rover, sedans de todas as marcas, motos raras. E velocidade alucinante. Nas calçadas, além das patinetes, bicicletas. Você pode alugar uma, tipo dessas do Banco Itaú em São Paulo, por 1h de uso no mínimo, R$ 1 (no nosso dinheiro) – um realzinho.

Nas calçadas, outro cuidado. Por costume e educação, os russos não jogam tocos de cigarro no chão. Eles apagam em pequenas lixeiras e depositam ali os restos dos cigarros. Ninguém apaga cigarro esmagando as bitucas na calçada. Sempre cabe o alerta: essas minhas observações se dão em uma região abastada da cidade. Não sei o que acontece nos cantos periféricos. A impressão que se tem é de abandono. Quando viajo de trem, assim que a composição se afasta do centro e passa pela periferia, cresce o chão dos desvaliados em casebres, restos e paredes pichadas.

E, para encurtar a conversa, digo que estou em mais um trem – o quinto nessa travessia russa – rumo a Samara onde o Brasil enfrentaria o México nas oitavas de final da Copa depois de vencer a Sérvia em Moscou na primeira fase da Copa. Na minha cabine viaja um torcedor mexicano. “Meu time de coração é o León”, diz e mostra o escudo do clube  na camisa verde que veste. “Meu ídolo é o Tita, fez história no León. Mais de cem gols. É um brasileiro que poucos valorizam, mas, nós do León, temos no altar.”  Tita, para quem não sabe, jogou naquele time imortal do Flamengo de Zico nos anos de 1980.

Mexicano pergunta qual o maior jogador do Brasil para mim. Não vale falar Pelé, antecipa. Antes mesmo de eu responder, ele crava: Sócrates. “Para mim é o maior de todos”, diz o mexicano. “Assisti a um documentário sobre ele. Um gênio jogando bola. Político, preocupado com seu país, boêmio, boa cabeça”, disse com certa paixão nas palavras. “Não temos mais jogador assim hoje em dia”. Balancei a cabeça concordando.

E como assunto virou para o futebol, tenho ainda a contar que encontrei Neymar numa sala de espera do Aeroexpress – trem que liga Moscou ao Aeroporto Domodedovo, e em um mercadinho numa ruela afluente da majestosa Tverskaya. Não se espantem. Olha o Neymar aí:

A caminho de Samara. Viagem de 18h30 no trem. Logo na primeira meia-hora de viagem, uma gritaria dos infernos “Ru-ssiii- a” , “Ru-ssii-a”. Algazarra e socos nas paredes do trem. Não era para menos. A Rússia acabava de eliminar a Espanha. Uma campeã mundial a menos na Copa. Esse Tite tem sorte.

Embarco depois da vitória (2 a 0) do Brasil, de Samara para Moscou. Intermináveis 18h dentro do trem. Mexicanos condoídos, a maioria nas composições. Russos ornamentados com sombreros e cores do México, alguns deles bebaços, tentam transformar aquele comboio de aço em trem da alegria. Não encontraram eco. Apenas brasileiros, muitos deles com camisa amarela com nome do Neymar às costas, sorriam à toa.

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