Um Diário Russo (6): Sem torcida, Tom Cruise está na Praça Vermelha

Chuteira FC na Copa do Mundo 2018Luiz Antônio Prósperi, de Moscou / Rússia

Kazan, Moscou e São Petersburgo (30/6 a 10/7)

França e Croácia estão na final da Copa. É bom sua gente aparecer por aqui. Difícil trombar com um francês e um croata na capital russa. A cidade esperava por outro desfecho. Ruas de Moscou perderam um pouco da cor. Aquele frenesi de torcedores embandeirados de seus países e camisas do México, Argentina, Brasil, Colômbia, Peru, Japão, Marrocos…não circulam mais. Nem brotam do nada aos borbotões de farras e exageros como na semana passada. Esvaziaram-se as emoções.

Russos, antes tão curiosos com a gentarada de fora, começam a encarar a rotina de um país sem Copa, a menos de uma semana do encerramento de fato do maior evento de futebol do mundo. Personagens sumidos reaparecem. Voltam a seus pontos em calçadas ainda muito limpas. Velhas senhoras, vincadas do tempo e do abandono, chacoalham latinhas pedindo moedas de rublo aos transeuntes. Nos trens do metrô nenhuma algazarra latina. Os locais tocam suas vidas no ir e vir nas estações, circunspectos.

Policiais aos montes, soldados aos montes, esses sim estão em tudo quanto é lugar. Parece que o time deles está na final da Copa tamanha presença nos locais públicos. Ocupam pontos estratégicos e circulam com zelo. Oficiais carregam maletinhas. Enquanto isso, mochilas continuam revistadas nas praças, museus, metrô, shopping, até nas ruas se uma delas levantar suspeita. 

Moscou está bem mais sem graça.

Semana passada a coisa andava diferente. A Copa chegava às quartas de final e muita gente tinha esperança de avançar até a decisão de 15 de julho no Luzhniki. 

A caminho de Kazan, onde o Brasil alcançaria seu precipício, era impressionante como torcedores de outros países já eliminados do Mundial haviam adotado a Seleção Brasileira como sua. Chineses, mexicanos, japoneses, colombianos e outros não identificados carregando cores verde e amarela e vestindo camisas de Neymar & Cia. Kazan, o destino. 

Eu também estava nessa romaria. De trem – o meu sétimo nessa desgastante e prazerosa travessia russa. Desembarquei no meio dessa horda de “novos brasileiros” na cidade mais florida que vi na vida. Kazan cultiva flores nas calçadas, avenidas, parques, pontos turísticos. Por onde você passa tem uma floreira. Flores vivas, cores singelas, de todos os tipos. Não raro, cidadãos carregam um ramo, buquê nas mãos. Dizem que ao ser convidado para uma visita, um encontro, um jantar, é costume por aqui levar flores a quem o convida. 

Flores de Kazan inebriam qualquer um. Difícil entender como são cultivadas e cuidadas, por exemplo, em floreiras nas longas avenidas de tráfego intenso. Resistem. Não perdem a cor, a vida, diante do zunir dos carros e seus poluentes. Emolduram a cidade. Servem também, porque não, como ornamentos de um réquiem. Tite e seus rapazes não foram agraciados com pétalas depois do desastre diante da Bélgica. Voltaram para o Brasil, tenho certeza, sem nenhuma saudade de Kazan. Nenhuma flor amanhecida.

Kazan, da República do Tartaristão, da torre inclinada, diz a lenda, construída por Ivan o Terrível no século XVI. Dos gatos como símbolo da cidade por obra da princesa Isabel Petrovna, futura Catarina a Grande, que, em 1745, pediu a São Petersburgo para enviar pelo menos 30 felinos (se fala em 300). Petrovna não tinha paixão por gatos, a serventia deles era caçar ratos, centenas deles, no palácio real.

Kazan também do incrível encontro do Canarinho Pistola e Yuri, o misterioso torcedor russo de cabelos louros escorridos que havia “sugado a alma” dos mexicanos na vitória do Brasil nas oitava de final em Samara. Não poderia mesmo funcionar. Pistola e Yuri, juntos.

Volto para Moscou e encontro a cidade mais fria. A Rússia cairia fora da Copa na noite de meu desembarque. Ainda deu tempo de ver a tristeza dos anfitriões de perto. Crianças com bandeirinhas russas abaixadas. Carros sem buzinaço. Bares de ressaca e restaurantes indigestos de amargura.

Aquela vida pulsante de dias atrás era caso de memória, não mais de realidade. Conto que há pouco mais de dez dias havia enfrentado, ao lado do meu filho, uma enorme fila (pouco menos de um quilômetro) para visitar o Mausoléu de Lenin na Praça Vermelha. Você demora uma eternidade até chegar à porta de acesso e tem menos de dois minutos para ver o corpo do líder soviético morto em 1924. Pensei em relatar aquele momento aqui neste diário. Mas não é que Steinbeck, no seu Um Diário Russo, contou no livro escrito em 1947 exatamente o que vi neste julho de 2018, 71 anos depois. Acompanhe a descrição do repórter americano:

“Seguimos para a Praça Vermelha, onde uma fila de estendia-se por no mínimo 500 metros, com pessoas que aguardavam sua vez de entrar no mausoléu de Lenin. Junto à porta do mausoléu, dois jovens soldados mantinham-se em posição de sentido e pareciam estátuas de cera. Não conseguimos nem mesmo vê-los piscando os olhos. Durante toda a tarde (hoje, das 10h às 13h), quase todos os dias, uma lenta fila de pessoas (hoje, a maioria de turistas) passa pelo mausoléu a fim de contemplar o rosto morto de Lenin em seu caixão de vidro; milhares de pessoas aproximam-se do esquife e fitam por um instante a testa arredondada, o nariz afilado e o queixo pontudo de Lenin. Há algo de religioso nisso, por mais que os russos não sejam da mesma opinião”.

Do lado oposto ao Mausoléu de Lenin na mesma Praça Vermelha, heresia, se situa um dos maiores shoppings de Moscou. Templo do consumo dos moscovitas e turistas. Ali você encontra uma bicicleta (foto) por 37 mil rublos (R$ 2.300, na cotação do dia), um spaghetti de fast food meia-boca por R$ 10 (na conversão), produtos da Apple, Cartier, matrioskas… Futebol ornamenta os corredores e nos banheiros se cobram R$ 3 reais de acesso a mictórios e vasos sanitários.

Não poderiam faltar salas de cinema. Incrível. Em duas delas – não percebi se havia outras – o astro principal era Tom Cruise, em Missão Impossível. Nenhum filme russo, todos americanos, em todas sessões. Ingressos a 1.500 rublos (R$ 90). Tom Cruise está na Praça Vermelha há pelo menos um mês.

Lá fora circularam milhares de orientais, maioria esmagadora. Tenho certeza que 95% deles são de chineses. Você olha para o lado, vem um chinês em cima. Você vira a cabeça, vem um grupo absurdo deles em marcha unida. Como uma nuvem de gafanhotos a tomar conta dos pontos turísticos e locais de venda de souvenires.

Se dominam as ruas de Moscou, também vendem mãos de obra. Em minhas observações no dia a dia do país noto que a maioria dos serviçais nos bares, comércio, alguns hotéis e outros locais é de chineses ou imigrantes do leste da Rússia. Fico devendo a informação do valor do salário que recebem dos russos.

Orientais também estão em São Petersburgo, onde fui acompanhar a semifinal França x Bélgica – seria o Brasil aí, né Tite e Neymar. No trem de ida – o meu nono desde o início Copa – domina sotaque francês, belga, russo e de brasileiros, alguns deles em oferta desesperada de ingressos do jogo. Um torcedor pediu 750 dólares. “Preciso voltar ao Brasil, meu dinheiro acabou”, disse.

Antes do jogo, com tempo para dar uma volta turística pela cidade, percebi que São Petersburgo não deve nada a Moscou se o assunto é suntuosidade. Templos erguidos em colunas como palácios da Roma antiga. Tudo parece muito exagerado, uma oponência sem fim.

Maior delas é o Hermitage. Dizem que é o segundo maior museu da Europa. São 282 salas, a maioria imensa, com obras dos mais renomados artistas do mundo. É também um exercício de paciência e resistência. Enfrentei uma fila de 2 horas, isso mesmo, 2h para entrar no colosso erguido às margens do rio Neva. Paguei 700 rublos (R$ 45) e quase morri afogado na correnteza de chineses tomando conta das salas, como na abertura de uma compota da represa. Todos de celulares empunhados a fotografar obra a obra. Nada contra, mas aquilo era um inferno. Contemplar o feito dos artistas fica quase em segundo plano.

Volto para Moscou – décimo trem da travessia – com tempo curto para acompanhar a semifinal Croácia x Inglaterra. No comboio, mais brasileiros frustrados, caras de ressaca, oferecendo bilhetes da final da Copa. Um deles pediu 2 mil dólares em busca de caixa para ajudar a quitar a viagem.

Croácia surpreende e elimina a poderosa Inglaterra e frusta quem queria ver uma final França x Inglaterra, um jogo de muitos ingredientes que extrapolam o futebol. A Copa está bem pertinho do fim. A Rússia já deixa saudade. Mas ainda tenho tempo para um último diário russo.

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