O Futebol rasga suas escrituras sagradas

Futebol muda vidas, destinos, arruina e enriquece muitas almas. É quase sem sentido. Tem sido assim ao longo da história. Dois jogos da Champions League, porém, invertem essa lógica. Quem sofre uma reviravolta agora é o próprio futebol. Não é possível mais que o rio siga o curso natural depois de Liverpool 4 a 0 Barcelona e Ajax 2 a 3 Tottenham, entre terça-feira na Inglaterra e quarta-feira na Holanda.

Não. A correnteza não desce mais, sobe. Tudo está fora da ordem. Quando se imaginava que o trato bonito na bola, o melhor jogador do mundo e um time de garotos imberbes e abusados fossem sentar no trono, quem pega a espada e bate duro a ponta de aço no mármore é o futebol sanguíneo de Liverpool e Tottenham. Inimaginável até semana passada.

Quando o Liverpool pulveriza o Barcelona, com Messi e tudo, na catedral de Anfield com uma virada para lá de improvável, você começa a entender como o futebol tem muito mais que a magia. Entrega até a última gota da camisa encharcada, o respeito aos dogmas de um treinador irascível e a força apaixonante imanada das arquibancadas podem tudo. Liverpool deixou isso bem claro na terça-feira, dia 7 de maio. Fiel sempre à canção “você nunca vai caminhar sozinho”.

Aí vem a quarta-feira, dia 8 de maio, com o planeta de olhos pregados nesse frescor da juventude do Ajax. Adolescentes empertigados, revolucionários, sem medo, em busca da namorada na festa do bairro e a abrir a janela ao mundo. Tirar a donzela para dançar um reggae, a senha. Salão iluminado sob olhar do mestre e inspirador Joan Cruyff. A noite perfeita.

De repente, quando já se está de joelhos a beijar a mão da moça, aparece um intruso. Aquele pragmático, nada fino. Rude. Tirando vantagem por ser mais alto e mais velho. Por ser inglês e rezar na bíblia do futebol britânico para estragar o baile dos meninos.

Um treinador argentino e um atacante brasileiro baixinho, sem pinta, careca, puseram tudo a perder no país das maravilhas. O técnico mudou o ritmo da música no segundo tempo. E Lucas Moura escreveu seu nome na história com três gols que levaram o Tottenham ao céu na Arena Cruyff.

No fim os adolescentes do campo tombaram na grama fria e molhada, inertes, corações partidos, e os adolescentes nas arquibancadas encharcaram as mãos na tentativa inútil de conter a enxurrada de lágrimas doídas. Ajax estava destroçado.

Torcedores desiludidos do Ajax

A decisão da Champions League 2019, dia 1 de junho em Madri, será entre duas esquadras inglesas recheadas de estrangeiros e financiadas por grupos multinacionais. No campo, uma caravana de europeus de todos os cantos, brasileiros, argentinos, africanos, outras etnias a suar sangue.

Seja qual for o campeão, nas escrituras vão constar que a história mudou. Não tem mais sentido tudo o que aconteceu até agora nas quatro linhas nesses mais de 150 anos de criação do jogo da bola. É um outro esporte, mesmo que se escreva com a mesma palavra: futebol.

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