Endrick do Palmeiras e a travessia da Copa Catar 2022

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Seleção Brasileira tem pressa. O futebol brasileiro é apressado por natureza. Chega a Copa do Mundo e começa a busca nos confins por um novo fenômeno – é da cultura do país metido a ter os mais talentosos jogadores da Terra. Por isso, anotem aí, Endrick, do Palmeiras, será o novo eleito a ser suplicado na lista de Tite na travessia do Catar 2022.

É o tal do clamor nacional. Endrick completará 16 anos no próximo dia 21 de julho, data da alforria quando terá registrado seu primeiro contrato de jogador profissional. Portanto, livre para jogar no time de cima do português Abel Ferreira.

Aí entram as questões que, a depender das respostas, poderão levar o garoto ao Olimpo da Seleção Brasileira.

Primeira pergunta: Abel apostará de imediato no menino entre as cobras criadas esmeraldinas?

Segunda pergunta: Se sim, vai bancar o atacante no time até o limite do imponderável?

Terceira pergunta: Endrick terá cabeça para caminhar nas nuvens sem olhar o chão?

Por tudo o que já fez na base do Palmeiras – do Sub-11 ao Sub-20 –, o precoce candidato a craque tem repertório de sobra e força mental a emplacar seu futebol de múltiplos gols.

Se confirmar o que se espera de um fenômeno, Endrick entrará na relação de pedidos a atormentar a cabeça de Tite até o treinador fechar a lista dos 26 jogadores da Copa 2022, em meados do mês de outubro.

foto: Ag Palmeiras

Exagero? Pode ser. A história do futebol brasileiro tem exemplos definitivos de garotos que foram ao céu por exigência da torcida e pressão da imprensa. A pressa da Seleção e o futebol apressado do Brasil.

É só abrir a página da Copa de 1958. Lá está registrado que um menino de 17 anos, conhecido por Pelé, foi até a Suécia quando nem mesmo a maioria dos exigentes cariocas amantes do futebol sabia direito quem ele era. Prodígio, voltou como protagonista na conquista do primeiro Mundial do escrete e dali para frente se tornou majestade em todo o planeta.

Pelé fazia misérias no futebol paulista com a camisa branca, número 10 às costas, do Santos. Vicente Feola, o técnico da Seleção em 58, se viu obrigado a levar o menino tamanho clamor da torcida. Deu no que deu.

Bom tempo depois, Carlos Alberto Parreira se rendeu a Ronaldo Nazário, o Ronaldinho, ao fechar a lista dos 23 da Copa de 94 nos Estados Unidos. Ainda sem o apelido de Fenômeno, Ronaldinho, de 17 anos, barbarizava com a camisa azul do Cruzeiro. Era o queridinho do Brasil.

Convocado diante de novo clamor nacional, Ronaldinho não entrou em nenhuma partida da Copa, mas voltou ao país campeão do mundo na campanha do Tetra. E depois virou um verdadeiro fenômeno.

Dunga deveria ter prestado atenção em Feola e Parreira. Técnico da Seleção na Copa de 2010 na África do Sul, o gaúcho não atendeu a milhões de pedidos por Neymar, então um encantador atacante de corpo franzino e talento imensurável com a camisa do Santos.

Neymar havia completado 18 anos em fevereiro. A Copa seria dali a quatro meses. Dunga não acreditou no menino e voltou da África do Sul derrotado.

Endrick nunca será Pelé. Pode sonhar em ser Ronaldo Fenômeno, quem sabe Neymar. Mas cabe muito bem no universo de jovens aclamados pela torcida que foram chamados de última hora a defender a Seleção nas Copas: Bismark, meia do Vasco (Copa do Mundo de 1990), Ronaldinho (Copa de 94), Kaká (Copa de 2002), Gabriel Jesus (Copa 2018). No Mundial de 1966, ponta-esquerda Edu, do Santos, tinha 17 anos quando entrou na lista final dosconvocados a jogar a Copa da Inglaterra.

No Palmeiras, Endrick terá três meses até a Copa do Mundo Catar 2022 para conquistar o coração dos torcedores. Depende de Abel Ferreira. Depois, a dor de cabeça será de Tite. Anotem aí.

Bom insistir. A Seleção Brasileira tem pressa. E o futebol brasileiro é apressado por natureza.