Eu estava nas tribunas de imprensa do Mineirão naquela tarde de 8 de julho de 2014. Acompanhei incrédulo, como a maioria de meus colegas jornalistas, a sucessão de gols da Alemanha até os 34 minutos do segundo tempo quando Klose marcou sétimo gol deles. Na minha longa carreira de mais de 30 anos de repórter esportivo nunca havia presenciado nada que chegasse perto daquele 7 a 1, por tudo que envolvia o jogo. Semifinal de Copa do Mundo, Brasil jogando sua segunda Copa em casa ainda com trauma do Maracanzao em 1950. Brasil estava a um jogo de ser finalista. Neymar fora (quase tetraplégico com a lesão nas costas), jogadores da Seleção à beira de um stress emocional sem precedentes, tensão política no país ainda sob efeito das manifestações de junho de 2013 e processo eleitoral de presidente da República. Dois técnicos campeões do mundo, Parreira (1994) e Felipão (2002), no comando da Seleção e a CBF presidida por dois cartolas que seriam banidos do futebol no caso Fifagate um ano depois do 7 a 1.

Apresento aqui a minha percepção do 7 a 1 e o longo processo que consumou a tragédia. Se você, raro leitor, tiver paciência para me acompanhar, aqui vai meu depoimento:

Estamos em junho de 2013. Ruas das principais cidades do país se incendiavam com as manifestações políticas até então sem um norte. Contra tudo e contra todos. Exigiam “Não vai ter Copa”, “Fora Padrão Fifa”, entre dezenas de slogans criados no calor dos protestos. Dilma Roussef (PT) era a presidenta do Brasil e muita gente não engolia o fato de o país sediar a Copa sob governo do PT.

Enquanto as ruas pegavam fogo, com milhares de pessoas nas manifestações, os bastidores da CBF também eram um caldeirão borbulhante. Presidente Ricardo Teixeira, encastelado no poder desde 1989, saía de cena em 2012 após sucessivos escândalos na gestão da CBF. A dupla de vices, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, de longa atuação na política no futebol paulista, assume o comando da CBF a um ano da Copa de 2014.

Seleção Brasileira era dirigida por Mano Menezes, nomeado por Teixeira em 2011 diante do fracasso de Dunga na Copa de 2010 na África do Sul. Braço direito de Mano na Seleção era Andrés Sanchez, presidente do Corinthians e ligado ao PT.

Marin e Del Nero, conservadores e malufistas de carteirinha, agiram rápido demitindo Sanchez, então diretor de Seleções da CBF. Próximo a cair seria Mano Menezes, derrotado na final olímpica de Londres em agosto de 2012.

Mano caiu no dia 23 de novembro de 2012. Seis dias depois, 29 de novembro, Marin e Del Nero entregam a Seleção a Luiz Felipe Scolari na função de técnico e a Carlos Alberto Parreira, coordenador. Seleção passa a ter os dois últimos treinadores campeões mundiais. Felipão em 2002 e Parreira em 1994. Marketing puro da CBF.

Respeitosos entre si, os dois tinham visões distintas do futebol. Felipão, muito prático, simples e paizão dos jogadores, e Parreira, mais pragmático e catedrático.

Detalhe, fui o primeiro jornalista a dar a notícia de que Felipão seria o sucessor de Mano.

Felipão e Parreira, mesmo sem falar a mesma língua do futebol, assumiram a Seleção em 2013 dizendo que o Brasil era favorito a conquistar a Copa de 2104. Jogadores teriam de acreditar nesse mantra e jogar pela nação que pegava fogo nas ruas.

O ensaio desse lema se fez presente na Copa das Confederações em 2013 com a conquista da taça no Maracanã em julho daquele ano contra a Espanha, então atual campeã do mundo. A cada jogo do Brasil na Copa das Confederações, o Hino Nacional era cantado à capela pela torcida amarela que lotava os estádios. E os jogadores perfilados estufavam as veias para cantar mais alto ainda. Pátria em primeiro lugar, bola em segundo.

Manifestantes protestam: Não vai ter Copa –foto: CMI-Rio

Com esse espírito embutido em cada jogador e aguçando a comissão técnica, a Seleção chega à Copa de 2014 com a maioria dos jogadores campeões da Copa das Confederações em 2013. Muitos deles já não viviam uma boa fase técnica e alguns tinham problemas físicos. Mas Neymar estava bem, e isso era o que mais importava.

Primeiro problema grave: Felipão pediu a Marin e Del Nero um local mais reservado para preparar a Seleção antes e durante a Copa. Gostaria de levar o escrete para o CT de Cotia do São Paulo FC onde o acesso de imprensa, empresários, tietes de jogadores e oportunistas seria mais restrito. Marin não aceitou. Obrigou a Seleção se hospedar na Granja Comary em Teresópolis, região serrana do Rio. CBF armou lá, anexo aos campos de treinamentos, uma tenda para atender mais de mil jornalistas credenciados e um setor especial para pelo menos 200 convidados da CBF por sessão de treinamentos.

Felipão e Parreira foram obrigados a engolir. Acabava privacidade da Seleção.

Começa a Copa na Arena do Corinthians incendiada contra a presença da presidenta Dilma nas tribunas. Estádio inteiro grita uma só voz: “Dilma, vai tomar no c”, antes e durante o jogo. No hino nacional, jogadores se esgoelam a cantar no tom da torcida. Brasil sofre e vence a Croácia: 3 a 1.

No segundo jogo, Brasil empata sem gols contra o México em Fortaleza sob intenso patriotismo nas tribunas e pressão no time. E garante classificação em Brasília ao vencer Camarões por 4 a 1, no mesmo clima dos outros jogos.

Vem as oitavas de final e o Brasil empata por 1 a 1 contra o Chile. Por um fio não eliminado na prorrogação. E na disputa por pênalti, vence por 3 a 2. Sentado na bola, à beira do campo, o capitão Thiago Silva, que havia sido substituído, chora sem cerimônia. Esse jogo escancara o stress emocional dos jogadores e a falta de soluções de Parreira e Felipão para fazer o time andar.

Thiago Silva chora na cobrança de pênaltis contra o Chile – foto: reprodução TV

Dia seguinte a essa tensa partida, Felipão e Parreira resolvem convocar seis jornalistas de diferentes veículos de comunicação para uma conversa reservada em uma tenda anexa onde mais de mil jornalistas do Brasil e do mundo trabalhavam diariamente.

Eu, na época trabalhando no Estadão, fui um dos seis convidados.

No bate-papo, Felipão e Parreira disseram que estavam preocupados com stress emocional dos jogadores, enxergavam também um suposto complô da Fifa manipulando a arbitragem para não deixar o Brasil ser campeão e consolidar uma hegemonia com seis conquistas de Copas do Mundo. Revelaram que se arrependiam de não ter chamado um jogador, entre os 23 convocados, que poderia fazer a diferença – não abriram o nome. E, detalhe importante, estavam convocando a psicóloga Regina Brandão, muito bem avaliada na psicologia esportiva, para uma conversa com os jogadores em Teresópolis. Conversa seria entre Regina e os jogadores, mais ninguém.

Os mais de mil jornalistas privados da conversa reservada com os seis eleitos por Felipão e Parreira, fizeram duras críticas aos dois e, por tabela, cobraram a CBF. Marin e Del Nero não aprovaram atitude  da comissão técnica e exigiram explicações de Felipão e Parreira. Aumentava a tensão.

Jogo seguinte a tudo isso seria contra a Colômbia, novamente em Fortaleza. Brasil vence por 2 a 1 num clima de muitas incertezas, emocional lá em cima, hino à capela saltando nas veias e o golpe de misericórdia: Neymar leva uma joelhada nas costas de um infeliz colombiano e está fora da Copa.

Se o nervos dos jogadores estavam esgarçados, depois da lesão de Neymar se tornou impossível aliviar a tensão.

A psicóloga Regina Brandão me contou que após vitória nos pênaltis contra o Chile e a classificação à semifinal diante da Colômbia, seguida do episódio Neymar fora da Copa, seu WhatsApp virou um divã dos jogadores da Seleção. Caixinha de mensagens da psicóloga entupiu, tamanha procura por conselhos. Pânico entre os atletas.  

A cena de Neymar deixando a Granja Comary de helicóptero deitado em uma maca comove a todos – jogadores, jornalistas, torcedores, comissão técnica. Era mais um episódio de alta tensão emotiva que a Seleção enfrentava.

Neymar deixa Granja Comary em Teresópolis – foto: CBF oficial

Sem Neymar, por pouco um tetraplégico com a fratura em uma das vértebras, jogadores no último grau do stress emocional e Felipão sem privacidade para escolher quem jogaria no lugar de Neymar, Brasil encerra preparação ao jogo contra Alemanha na semifinal da Copa.

Enquanto a Seleção vivia todo esse drama, os alemães treinavam em Porto Seguro, na Bahia, ao lado de indígenas e habitantes daquele paraíso tropical brasileiro. Uma pajelança e tanto e com direito a banhos de mar. E ainda jogariam contra o Brasil vestindo um uniforme inspirado na camisa do Flamengo.

Felipão e Parreira elegem Bernard, “alegria nas pernas”, para jogar no lugar de Neymar. Não acreditavam que era preciso mudar o esquema de jogo do Brasil, reforçar o meio-campo diante desse setor mais forte da Alemanha. Seleção deveria jogar como vinha jogando na Copa, apenas Bernard no lugar de Neymar, imaginavam os dois.

Jogadores entram em campo no Mineirão com David Luiz exibindo a camisa 10 de Neymar, como se fosse um fantasma. Disseram que a Seleção jogaria por Neymar. Se esgoelam pela sexta vez durante Hino Nacional no Mineirão patriótico e com a presença de Aecio Neves (PSDB), principal candidato de oposição a Dilma Roussef. Brasil, Brasil, gritam torcedores.

Começa o jogo e meu depoimento chega ao fim. Gol da Alemanha, gol da da Alemanha, gol… gol…gol da Alemanha. Acaba primeiro tempo. Se inicia o segundo tempo, gol da Alemanha… gol da Alemanha. Quase no finalzinho… gol do Brasil, Oscar.

Dia seguinte ao Tsunami, Felipão e Parreira sentam à mesa de entrevistas na tenda de mil jornalistas na Granja Comary em Teresópolis. Perfilam todo o comissariado da Seleção ao lado, uns 20 profissionais vestidos de verde oliva grife Nike.

Antes da primeira pergunta dos jornalistas, Felipão começa a falar, Parreira interrompe e tira um papel do bolso: “Vou ler para vocês uma carta das centenas que recebemos. É da dona Lucia, que não conhecemos”.  Parreira toma fôlego e inicia a leitura:

“Professor Felipão…”


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