Luiz Antônio Prósperi – 5 de maio (11h41) –


Futebol não se gosta, se apaixona. Ninguém nasce amando esse jogo de bola. Você cria a paixão ao receber a benção de alguém que o inspira. Aprendi a gostar do futebol por obra de meu pai, Antonio Lepiani Prósperi, o Lotinho. Ainda menino descobri o quanto ele amava o futebol, como se fosse um amor eterno. A quem se entrega e nunca mais abandona até os últimos dias de sua vida. Não se explica, se vive. Meu pai fez o futebol correr nas minhas veias.

A primeira vez que percebi essa paixão absoluta do pai remonta ao jogo Brasil 3 a 1 Uruguai na semifinais da Copa do Mundo de 1970, dia 17 de junho. No alto dos meus 14 anos, vi de perto o quanto ele comemorou aquela vitória. “Estava entalado com esses uruguaios na garganta há 20 anos”, desabafou em tom alto ao apito final do juiz, na sala de casa de frente ao pequeno aparelho de TV em preto e branco. Memória dele amargava a derrota do Brasil para o Uruguai na Copa de 50, o Maracanazo, quando ele tinha 20 anos.

Morávamos em Guaxupé, Sul de Minas, na mesma rua de meu avô paterno Pedro Prósperi, um corintiano completo e a chorar nas vitórias e derrotas do time alvinegro. Meu pai contava que o avô Pedro acompanhava jogos do Corinthians nas ondas de seu enorme rádio na sala de sua casa. Naquela época, anos de 1960, Pelé aterrorizava o Corinthians com um gol atrás do outro. Ao ouvir o locutor narrando que Pelé estava prestes a fazer um gol, meu vô Pedro abaixava o som do rádio até o limite:

“No meu rádio, o Negão (era assim que Pelé era chamado naqueles dias) não faz gol no meu Corinthians”, dizia orgulhoso. E só aumentava o volume quando o seu Corinthians já havia dado a saída de jogo após mais um gol do Santos, obra de Pelé.

Meu pai não era corintiano como meu vô Pedro. Era são-paulino. Vivia mostrando uma foto pequena em preto e branco com o time do São Paulo na pose clássica. Um a um apontava o dedo na foto e cantava os nomes dos bicampeões paulistas de 1946 e 1947:

“Gijo; Piolim e Armando Renganeschi; Ruy, Bauer e Noronha; Luizinho, Sastre, Leônidas, Remo e Teixeirinha. Que time! Que ataque!”, dizia orgulhoso com a pequena foto nas mãos.

Copa do Mundo era o máximo de sua paixão. Pouco antes da Copa do Mundo de 1970, tirou de uma gaveta da cômoda de seu quarto exemplares de jornais amarelados datados de 1958 e 1962, se não me engano, Gazeta Esportiva, com manchetes das conquistas do Brasil nos Mundiais de 58 e 62. Eram a Bíblia dele. Jornais preservados como um álbum de família e que eu preservo até hoje.

Quando a Copa de 70 se inicia, meu pai aparece em casa com uma enorme chapa de Eucatex, tamanho de uma mesa de cozinha. Desenhista de primeira, vai aos poucos criando a figura do ratinho Topo Gigio, criação italiana e de muito sucesso entre as crianças nos anos 1960 e 1970.

A cada vitória do Brasil, o Topo Gigio ganhava cores vestido com o uniforme da Seleção Brasileira. E ficou pronto um dia antes de a Seleção Brasileira vencer a Itália por 4 a 1 e conquistar o Tri. Meu pai ainda teve tempo de escrever com pincel e tinta muitos  “Tri” que emolduravam o Topo Gigio, como se o ratinho estivesse gritando “Tri, Tri…”

Assim que Carlos Alberto Torres levantou a taça Jules Rimet, meu pai ergueu a chapa de Eucatex com o Topo Gigio e a levou até a casa de meu vô Pedro. A casa era uma farra só. Tias, tios, primos e primas em festa. Meu Tio João, casado com minha Tia Wanda, irmã de meu pai, chega com uma pequena pickup, acho que Ford, buzinando. Era um luxo da família e tinha o nome de Jovita.

Primos e primas e meu pai subimos na pequena carroceria da Jovita. Levantamos a chapa pintada com Topo Gigio, para orgulho de meu pai, e fomos até avenida principal da cidade se juntar a centenas de guaxupeanos a comemorar a conquista do Tri. Desfilamos garbosos na Jovita exibindo o Topo Gigio vestido de Seleção Brasileira.

Ali estava explícito o quanto meu pai amava o futebol.

Quando chegava junho e julho, meses no calendário na história das Copas do Mundo, ele era tomado por uma sensação fora do comum. Olhava para o céu limpo, azul clarinho sem nuvens, e dizia: “Olha, Luiz Antônio, o céu hoje está céu de Copa do Mundo”.

Devo a ele a minha primeira experiência de mergulhar mais sério no mundo do futebol ao me presentear todas semanas com a revista Placar, recém-lançada pela editora Abril pouco antes da Copa de 70.

Desde o lançamento da revista, meu pai comprava um exemplar na banca de jornais do meu primo Felipe Lima e me entregava em casa. Eu lia da primeira a última página. Me inebriava com as fotos coloridas dos craques, dos jogos e dos pôsteres encartados na revista.

A Placar vira a porta de entrada no que viria a ser a minha profissão: jornalista, em especial esportivo.

Tenho uma coleção de 11 volumes encadernados dos primeiros anos da Placar na minha biblioteca. Uma dádiva concedida por meu pai.

Lotinho, como era conhecido na nossa querida Guaxupé, não tinha apenas paixão por futebol. Jogou desde menino, com bolas de meia, confeccionadas por ele, nas ruas ao redor da casa de meus avós e depois nos times semi-profissionais da cidade. Queria ser jogador profissional de futebol.

Contava de suas façanhas no União e no Liberdade, times que marcaram época nos anos de 1940  e 1950 em Guaxupé e região do Sul de Minas.

No início de sua carreira, era um zagueiro clássico, me dizia. Depois virou atacante e não perdia um gol de cabeça, me contava com brilho nos olhos.

Na foto que ilustra esse texto, meu pai aparece no centro junto dos agachados, os atacantes. Está com as mãos apoiando o menino mascote. Era o time da Sociedade Esportiva Guaxupé, clube da cidade com 73 anos de fundação e em atividade até os dias de hoje.

Lotinho, meu pai, apoiando menino mascote no time da Esportiva – foto arquivo pessoal

A Esportiva, vejam só, foi tema de pauta da Placar em 1975 quando o time era a sensação do Campeonato Mineiro da Primeira Divisão. Enfrentou de igual para igual o Atlético-MG de Telê Santana e o Cruzeiro de Dirceu Lopes, Palhinha, Nelinho… aquela constelação. A reportagem foi de Carlos Maranhão, um dos mais importantes jornalistas do país, pautado por Juca Kfouri, na época diretor da Placar.

Meu pai não jogou muito tempo na Esportiva, parou em meados de 1960, mas deixou seu nome registrado no time alviverde. Aliás, meu avô Pedro Prósperi fez parte da primeira diretoria do clube fundado em 1952.

Nunca na vida, que me lembro, meu pai me fez jogar futebol na tentativa de que eu virasse um jogador profissional. Não me via nele, nem seus dotes de um jogador clássico. Me incentivava a ler e ver o futebol. A formar timinhos com amigos de infância e adolescência. Admirava meus jogos de botões e me abastecia com times de presente, mesmo fora de meu aniversário ou Natal.

Com meu primos Zé Nylton e Luiz Paulo, filhos da Tia Geni irmã de meu pai, travávamos jogos épicos de botões nos campeonatos disputados na varanda de minha casa ou na edícula na casa de minha tia.

Mais tarde, quando vieram os netos Antonio e Caetano, filhos de minha irmã Dinha, meu pai estava perto de se aposentar da carreira de bancário. E passou a incentivar os meus sobrinhos a gostar e jogar futebol. Levou tão a sério que Caetano, o mais novo, virou jogador profissional de futebol nas categorias de base do São Paulo e Seleção Brasileira Sub-17 e longa carreira em clubes de Itália, na década de 2010. Antônio também passou pela base do São Paulo, mas, ao sofrer algumas lesões, não seguiu carreira de jogador. O neto João Luiz, meu filho e bem mais novo que Caetano e Antonio, teve o prazer de ir com meu pai a um jogo de Copa do Mundo, em 2014, Coreia do Sul x Bélgica, na Arena do Corinthians em Itaquera.

Eu já era jornalista esportivo desde 1984 para júbilo de meu pai Lotinho e minha mãe Maria. Trabalhava no Jornal da Tarde, uma das referências do jornalismo brasileiro.

Quando cobri em 1990 a primeira das nove Copas do Mundo de minha carreira, liguei para casa de meus pais em Guaxupé. Estava no estádio em Cagliari, na Sardenha, a poucos minutos do início do jogo Inglaterra e Irlanda, o primeiro de minha cobertura jornalística. Era quase noite na Itália, céu cinzento. Chorei de emoção ao ouvir a voz do meu pai e de minha mãe Maria.

Naquele momento na Itália e sempre na minha vida me vem na cabeça toda a história da paixão de meu pai pelo futebol. Amor que não se explica, se vive.

No último dia 15 de abril de 2025, Antonio Lepiani Prósperi, o Lotinho, nos deixou depois de quatro anos de muita luta contra graves sequelas da pandemia. Estava com 94 anos de idade.

Na despedida no Cemitério de Guaxupé, no alto da cidade, na tardezinha fria e ensolarada quando a urna baixou à sepultura, olhei para o céu. Não era junho nem julho. Era abril, mas o céu estava azul claro, limpo, sem nuvens, um céu de Copa do Mundo.

Agora meu pai mora no céu de Copa do Mundo.


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Uma resposta a “O PAI NO CÉU DE COPA DO MUNDO”

  1. E o céu comemorou a chegada do Tio Loto, como se tivesse ganhado uma final de Copa. De goleada. Deixou muitos ensinamentos e saudades, até para quem não viveu tanto ao lado dele. O verdadeiro “professô”.

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