♦ O que antes era simplesmente uma vestimenta que declarava sua filiação a um clube agora é um negócio global que rende milhões de colecionadores de kits vintage
Paul MacInnes, de Amsterdã, The Guardian – 9 junho (10h35) –
No segundo andar de um prédio modesto nos arredores de Amsterdã, há um armário de metal que destrói o DNA de jogadores de futebol. O dispositivo pertence à MatchWornShirt e fazia parte de um acordo para vender os uniformes dos jogadores do Real Madrid ao público. Para dissipar as preocupações de que o material genético de Cristiano Ronaldo pudesse escapar para a natureza, o armário de aço foi construído de forma que cada camisa pudesse ser exposta a uma lâmpada germicida.
Em vez de novo, leia-se antigo, porque a MatchWornShirt vende exatamente o que o nome da empresa sugere: uniformes colados ao corpo de atletas profissionais. Quer a camisa que Son Heung-min vestiu contra o Manchester United na final da Liga Europa? Você pode tê-la, se superar o preço atual do leilão de £ 22.000 (R$ 166,7 mil). A mesma camisa que Cole Palmer usou quando marcou quatro gols no primeiro tempo contra o Brighton na temporada passada? Foi vendida por £ 34.000 (R$ 257,7 mil).
Provavelmente, deve-se esclarecer que mergulhar camisas em luz ultravioleta C, ao mesmo tempo em que separa o DNA, deixa manchas de lama e grama intactas. Também preserva o cheiro, aquele rico aroma almiscarado de suor seco que permeia os depósitos da sede da MatchWornShirt e é claramente importante para as pessoas que acabam comprando a mercadoria.
“Quando começamos no PSG, tínhamos muitas camisas do Messi e as pessoas queriam entrar só para cheirá-las”, diz Tijmen Zonderwijk. “Temos pessoas que compram camisas e a primeira pergunta que fazem é: ‘Qual é o tamanho? Porque quero usá-la no treino de futebol na terça-feira.’ Estamos falando de camisas superprestigiosas e pensamos: ‘O quê? Vocês vão apagar a assinatura!’”
Tijmen e seu irmão Bob abandonaram a advocacia há uma década para fundar a MatchWornShirt e viver o sonho de extrair equipamentos suados de atletas cansados. Construindo a empresa do zero, eles têm experiência em varrer uniformes do chão dos vestiários – “Dissemos: ‘Só nos deem a credencial e nós tiramos os uniformes das costas dos jogadores’” – e em entregar pessoalmente as camisas aos compradores, para entender melhor sua base de clientes.
Certa vez, os irmãos viajaram para Londres, intrigados com as compras frequentes de uma empresa de investimentos. “Acontece que era uma assistente pessoal que os estava comprando”, conta Bob. “Ela trabalhava para a empresa, mas não ganhava muito. Algumas pessoas gastam quatrocentos ou quinhentos euros em uma camisa e sacrificam suas férias de verão por ela. São pessoas de todas as classes sociais.”

Hoje, a MatchWornShirt tem parcerias com mais de 300 clubes e envia uniformes para o mundo todo (o Reino Unido é seu maior mercado, seguido pelos Estados Unidos e, por fim, pela China). O negócio é um exemplo proeminente do crescimento da coleção de uniformes de futebol, mas está longe de ser o único.
A Classic Football Shirts, que mais uma vez vende exatamente o que promete na forma de camisas vintage de segunda mão (não necessariamente usadas por jogadores), teve um crescimento de 25% nas vendas em seu último conjunto de contas e é controlada por uma empresa de private equity americana, a The Chernin Group. O que antes era simplesmente uma peça de roupa que transmitia sua filiação a um clube, agora é algo que milhões de pessoas usam para dizer ao mundo coisas diferentes sobre si mesmas.
Camisas de futebol são onipresentes na cultura popular e no streetwear essencial; seja Dua Lipa incorporando a tendência “blokecore” em uma camisa do Palermo ou os roqueiros irlandeses Fontaines DC patrocinando e modelando o terceiro uniforme do Bohemians.
“Estamos sempre dizendo que as subculturas estão mortas, certo?”, diz Matt O’Connor-Simpson, editor digital da revista de cultura futebolística Mundial. “Mas se eu estiver fora de Dublin e vir alguém vestindo uma camisa do Bohemians, sei que não necessariamente conseguirei discutir como Lys Mousset está jogando por eles. Mas tenho uma boa ideia do que eles pensam sobre futebol, o que pensam sobre política, o que pensam sobre a sociedade como um todo. É uma espécie de cartão de visita.”
Camisas do Brasil
O’Connor-Simpson argumenta que camisas vintage são mais desejáveis quanto mais distantes do seu público, no espaço e no tempo. Usar uma camisa brasileira no Reino Unido é diferente de usar na América do Sul, ainda mais quando essa camisa é uma Nike da era Adriano, de 2006. “Acho que os times brasileiros são um bom exemplo”, diz ele.
“O Grêmio é muito, muito popular, assim como o Fluminense e o Flamengo. Acho que muitas pessoas podem não saber os detalhes do que esses clubes representam, mas eles são simplesmente incríveis, não é?” O aplicativo de troca de roupas Depop afirma que as camisas brasileiras são as mais vendidas em uma área “incrivelmente popular” de seus negócios.
A MatchWornShirt se vê trabalhando com uma clientela diferente da média dos colecionadores de peças vintage, mas a conexão ainda é pessoal. Os irmãos argumentam que a camisa frequentemente serve como um canal para a memória. “Acho que quando você olha para a camisa, você tenta se lembrar daqueles momentos em que estava lá assistindo ao jogo”, diz Tijmen.
Essas memórias também não precisam ter sido formadas nos estádios. Bob observa uma demanda contínua do Japão por camisas do VVV Venlo, time da segunda divisão holandesa, quase uma década depois de terem parado de recrutar talentos japoneses que buscavam jogar no exterior.
À medida que o número de vendas e de colecionadores de camisas cresce e mais dinheiro entra no mercado, a autenticidade é uma questão que os varejistas estão considerando. “Muitos dos colecionadores com quem conversamos agora dizem que é muito difícil encontrar produtos genuínos, especialmente se você voltar no tempo”, diz Tijmen.
A Classic Football Shirts afirma que a “dedicação à curadoria e autenticação” está no cerne de seus negócios. A MatchWornShirt utiliza uma plataforma digital para registrar cada item, e chips anexados às camisas são usados como registros digitais para comprovar sua procedência. A Score Draw adota outra abordagem. Ela fecha acordos com clubes e federações para fornecer camisas retrô oficiais que imitam os designs de anos anteriores, sem o logotipo do fabricante (recentemente adicionadas: a versão de manga longa e curta do uniforme da Escócia de… 1967).
A era das camisas grandes chegou, e não apenas porque os cortes quadrados estão na moda. A MatchWornShirt fechou um acordo com a Federação de Futebol dos Estados Unidos antes da Copa do Mundo de 2026, e a Classic Football Shirts abriu lojas em Miami, Nova York e Los Angeles.
Para O’Connor-Simpson, no entanto, existe o risco de tudo ir longe demais. Citando o exemplo da UEFA, que lançou seus próprios uniformes para comemorar as finais das competições europeias de clubes no mês passado – “Fiquei impressionado com o quão ruim é. Não tenho ideia para quem é” –, ele diz que, assim que “algo se torna tão grande que marcas que não entendem o espaço são envolvidas, a situação fica um pouco nebulosa”.
Com o tempo, diz ele, a camisa de futebol vai sair da cultura mainstream novamente, mas tudo bem. “É uma subcultura estabelecida agora”, diz ele. “Há pessoas suficientes que a entendem, então vai ficar tudo bem.”





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