“Não sou obcecado por ganhar a Copa do Mundo, mas tenho o prazer e a paixão de aproveitar o momento que estou vivendo”
“A convocação de Neymar depende apenas dele e do que ele demonstrar em campo”
Thiago Rabelo, The Guardian – 13 maio 2026 (13h46) –
Carlo Ancelotti é um homem ambicioso? O italiano recosta-se e sorri. “Eu? Não sou ambicioso. Por quê? Por que você está perguntando isso?” A razão para a pergunta é simples: o treinador de 66 anos é um dos técnicos mais vitoriosos de todos os tempos, com cinco títulos da Liga dos Campeões e campeonatos nacionais na Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Espanha. Mas ele ainda quer mais. Em maio passado, foi nomeado técnico da seleção brasileira com um objetivo: vencer a Copa do Mundo.
“Não sou obcecado por vencer”, diz Ancelotti. “O que tenho é paixão por aproveitar os momentos que o futebol me proporciona. Não sou obcecado por ganhar a Copa do Mundo, mas tenho o prazer e a paixão de desfrutar do momento que estou vivendo, liderando a seleção nacional mais importante do mundo.”
Tendo jogado na Copa do Mundo, esta é a primeira vez que Ancelotti comandará uma seleção no torneio. Sua missão é recolocar o Brasil no topo do mundo e quebrar um jejum que remonta a 2002, o maior período em que a nação ficou sem vencer a Copa do Mundo desde a época de seca entre 1970 e 1994. Ancelotti, porém, não parece intimidado, e um dos motivos é sua paixão pelo esporte. Ele pode ter passado 47 anos no auge – 16 como jogador e 31 como técnico – mas o que impressiona durante nossa longa entrevista é que ele não perdeu nada do seu entusiasmo pelo trabalho. Ele está aqui porque ama futebol.
“Não conseguiria viver sem futebol”, diz ele. “Se eu não estiver mais em campo, estarei lá como torcedor assistindo à partida. Para mim, assistir a um jogo na TV não é trabalho. É um prazer. Eu adoro cinema. Para mim, o futebol é como o prazer de assistir a um filme. É a mesma sensação. No dia em que eu parar de trabalhar no futebol, continuarei assistindo da mesma forma, sem nenhum problema.”
Muitos jogadores consideram Ancelotti o melhor treinador com quem já trabalharam; Kaká, Toni Kroos, Gareth Bale e Vinícius Júnior, para citar alguns. Então, o que o torna tão especial? “Eu realmente não sei”, diz ele, rindo. “Talvez seja a minha atitude, a maneira como me comporto com os jogadores, o respeito que demonstro a eles como pessoas. Dou muita importância à construção desses relacionamentos pessoais.”

“O trabalho de um treinador é muito difícil porque você tem que administrar muitas coisas. Há o relacionamento com os jogadores, com o clube, com a imprensa, com os torcedores. São muitos aspectos desse trabalho que você precisa gerenciar. O mais desafiador deles é o relacionamento com as pessoas – e também o mais importante.”
Apesar de todos os troféus que conquistou, Ancelotti às vezes é menosprezado como um “técnico de gestão de pessoas”, alguém que tem sucesso porque se dá bem com pessoas, mas talvez não com táticas. Ele não dá atenção a essas afirmações. “Não ganho títulos apenas por causa do meu relacionamento com os jogadores”, diz ele. “Os bons relacionamentos que tenho com os jogadores ajudam porque permitem que eu tire o máximo proveito deles. Às vezes, até mais do que o máximo. Mas isso é apenas uma parte do jogo. Não me importa se as pessoas dizem que sou ou não um bom estrategista. Tudo o que posso dizer é que conheço muito bem todos os aspectos do jogo.”
Ancelotti renovará seu contrato com a Seleção Brasileira até a Copa do Mundo de 2030, quando terá 70 anos. O técnico mais velho da Premier League é David Moyes, com 63 anos. Na primeira divisão brasileira, apenas três treinadores estão na casa dos 70 anos, e todos são mais jovens que Ancelotti. “O futebol continua mudando”, afirma. “Tento me adaptar ao que está acontecendo. O futebol hoje é mais analítico, muito mais intenso, mais físico. Algumas táticas, principalmente as defensivas, não são tão importantes hoje quanto eram há 10 anos. A nova geração de treinadores se concentra mais no ataque do que na defesa.”
Apesar de estar no comando da seleção brasileira há pouco tempo, Ancelotti acredita ter uma boa compreensão do país e de seus jogadores, tendo trabalhado com mais de 40 deles ao longo de sua carreira. Essa experiência foi um fator importante para que Ancelotti assumisse o cargo. “Eu realmente gosto do espírito brasileiro”, afirma. “Os brasileiros têm um carinho especial pela camisa amarela. Esse amor especial pela seleção é uma característica muito forte do Brasil. Em outros países, a seleção não tem a mesma importância que tem no Brasil.”
“O Brasil preservou sua cultura. É um país que sabe valorizar a importância da família e da religião. São coisas que a Europa perdeu. No esporte, os europeus não têm o mesmo amor pela camisa da seleção. Eu admiro muito a alegria do povo brasileiro, a energia do país e a beleza do Rio de Janeiro. Isso fica muito claro, principalmente no carnaval. Eu gosto muito do Brasil.”
O fato de Ancelotti mencionar a religião é significativo. Assim como na Itália, mais da metade da população brasileira é católica, com a fé guiando seus princípios e fornecendo lições de vida. “A religião me ensinou coisas boas, como me comportar na vida, como respeitar os outros”, diz Ancelotti. “Sou católico e a religião tem sido muito importante para mim e me ensinou a ser uma boa pessoa no mundo.” Ele reza para que os problemas com lesões parem? “Ah, sim”, diz Ancelotti, rindo, antes de ficar mais sério. “É uma preocupação. Já tivemos três lesões graves. Espero que não tenhamos mais problemas antes da Copa do Mundo.”

A seleção brasileira, sexta colocada no ranking mundial, já perdeu Éder Militão e Rodrygo, e Estêvão é dúvida. Isso complicou ainda mais o trabalho de Ancelotti, que comandou a equipe em apenas 10 jogos, com cinco vitórias, dois empates e três derrotas. Em meio ao quebra-cabeça de encontrar seu time ideal, Ancelotti tenta repetir o que fez no Real Madrid em 2024: transformar Vinícius no melhor jogador do mundo. Com a seleção brasileira, o atacante de 25 anos não conseguiu brilhar da mesma forma, com oito gols em 47 partidas. Mas Ancelotti sabe como motivar o jogador.
“Olha, a responsabilidade que ele carrega pelo Brasil é enorme, especialmente nos últimos tempos”, diz Ancelotti. “Essa responsabilidade pode ser um fardo para ele. Nosso trabalho na seleção é aliviar um pouco esse peso para que ele possa jogar com alegria, energia e todas as qualidades que possui.”
“Vejo o Vinícius como o via no Real Madrid: um jogador espetacular e uma pessoa espetacular que pode decidir uma partida sozinho. Ele será muito importante para o Brasil na Copa do Mundo. Mas ser o número 1? O craque? Não precisamos de um número 1. Não podemos focar tudo em apenas um jogador. Precisamos pensar como um time. Essa é a única maneira de ganhar a Copa do Mundo.”
Ancelotti se encontra em uma situação diferente da maioria dos técnicos recentes da Seleção Brasileira, que entregaram toda a responsabilidade a Neymar. O ex-atacante do Barcelona e do Paris Saint-Germain tem 34 anos e vem sofrendo com problemas físicos. Ele pode ter 79 gols pela seleção, mas não joga desde outubro de 2023. A questão Neymar, como era de se esperar, domina as discussões no Brasil no momento. Uma pesquisa do instituto Datafolha mostrou que 53% dos brasileiros querem Neymar na Copa do Mundo, enquanto 34% são contra e 13% permanecem indecisos
O anúncio da convocação para a Copa do Mundo está a poucos dias de distância – 18 de maio – e Ancelotti é categórico quando o assunto é a possível inclusão de Neymar. “A convocação de Neymar depende apenas dele”, afirma. “Depende do que o jogador demonstrar em campo. Esse é um critério muito claro e não se aplica apenas a Neymar. Com a maioria dos jogadores, é preciso avaliar o talento e a condição física. Com Neymar, precisamos avaliar apenas a condição física, porque seu talento é indiscutível. Depende dele, não de mim.”

Outro jogador experiente que espera ser incluído é o ex-zagueiro do Chelsea e do PSG, Thiago Silva, que, aos 41 anos, teve uma boa temporada no Porto e espera disputar sua quinta Copa do Mundo. “Thiago Silva está nos planos, sim”, diz Ancelotti. “Ele vem jogando muito bem, conquistou o Campeonato Português e está em ótima forma física.” “Líderes são importantes. Felizmente, este elenco tem líderes muito respeitados. Líderes que não falam muito, mas dão um bom exemplo, como Alisson, Casemiro, Marquinhos e Raphinha. Nesse sentido, o elenco está em boas mãos.”
Esta será a quarta Copa do Mundo de Ancelotti. Ele foi jogador da seleção italiana em 1986 e 1990 e auxiliar técnico de Arrigo Sacchi na última vez em que o torneio foi disputado na América do Norte, em 1994. Retornar aos Estados Unidos depois de 32 anos traz um sentimento de felicidade e nostalgia ao treinador, cuja equipe chegou à final naquele ano, perdendo nos pênaltis para… o Brasil.
Algumas coisas mudaram – para melhor, segundo Ancelotti. “Em 1994, os jogos eram ao meio-dia em Nova York, com temperaturas de 43°C. Agora, os horários de início são melhores. O clima não será um problema como era em 1994.”
Quando Ancelotti foi contratado, a maioria das manchetes no Brasil dizia que ele havia trocado o maior clube do mundo pela seleção mais importante do mundo. Há semelhanças, admite Ancelotti, mas também muitas diferenças. “São maneiras diferentes de um técnico trabalhar”, afirma. “Mas a coisa mais importante que aprendi no Real Madrid, e que uso no Brasil, é a exigência. Quando você é exigente, tem mais chances de vencer. O Real Madrid é o clube mais vitorioso do mundo porque exige muito de todos que trabalham lá. Se você é exigente, consegue extrair o melhor de cada um.”
Amante de cães, Ancelotti vê nos animais um refúgio dos problemas do futebol. “Tenho três cães que estão no Canadá”, diz ele. “Um cão não é uma pessoa, mas é mais leal do que uma pessoa. Um cão não se importa se você ganha ou perde. Eles não te culpam. Quando você chega em casa, tenha ganhado ou perdido, o cão não se importa. O importante é que você esteja em casa com eles.”<
Então, o que será necessário para o Brasil, que enfrenta Marrocos, Haiti e Escócia em seu grupo, se tornar campeão mundial? “Talento”, diz Ancelotti. “Tenho um elenco muito talentoso. Além disso, a motivação que este país tem para voltar a vencer depois de 24 anos é enorme. Estou convencido de que faremos uma grande Copa do Mundo.”

(entrevista publicada no jornal inglês The Guardian – 13 maio 2026)




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