Luiz Antônio Prósperi – 5 abril (08h15) –

Rua Turiassu troca de nome entre os números 1.643 e 2.237 e as ruas Cayowaá e Carlos Vicari, um perímetro de 600 metros em frente ao Allianz Parque e ao Shopping Bourbon. Placas de metal pintadas de azul e branca indicam em letras maiúsculas PALESTRA e, em minúsculas, Rua Palestra Itália. A troca de nomes nas placas da rua em homenagem ao Palmeiras marca o dia 12 de junho de 2015. Naquela mesma data, o clube comemorava exatos 22 anos da conquista do Paulistão em cima do Corinthians, em 12 de junho de 1993. Era o fim a um jejum de 17 anos sem um título importante do Palestra Itália, digo, Palmeiras. Celebrada por palmeirenses e alguns narizes torcidos de antigos moradores da região, a “nova” rua Palestra e arredores se transformam no ambiente mais impactante de um pré-jogo do futebol paulista na última década. Ali, desde cedo em dias de jogos no Allianz (inaugurado em 2014), se tem uma comunhão de torcidas, bares, ambulantes, fumaça de churrasquinhos, odores de carne assada, decalitros de cerveja e outros arrebites. Apesar de tudo, a babel verde, em vez de empolgar dirigentes do Palmeiras, tem se tornado uma dor de cabeça. Aliado às forças de segurança do Governo de São Paulo, Prefeitura e Judiciário, o clube trabalha para impor limites e encurtar o território da festa. Um acinte.

Atmosfera dos arredores dos estádios não é uma criação artificial. Nasce da convivência popular, de oportunidades comerciais e, acima de tudo, da paixão por um time de futebol. A Rua Palestra e seus afluentes não pertencem ao Palmeiras nem às autoridades constituídas. Território é da torcida. Donos de imóveis nem têm do que se queixar. O estádio, hoje arena, está ali desde 1933 quando foi erguido no antigo Parque Antárctica criado pela Companhia Antarctica Paulista, que, não custa ressaltar, fabricava cervejas. A maioria dos imóveis ali mais se valorizou do que perdeu valor ao longo do tempo. Ao eleger como moradia ou estabelecimento comercial em um local próximo a um estádio de futebol, inevitável conviver com o mundo da bola e suas contradições e alegrias.

Algazarra, a fuzarca verde quando o Palmeiras joga na sua casa, é quase uma resistência do futebol.

Não muito longe da rua Palestra, o Pacaembu já perdeu seu ruído. Harmonização facial com a privatização do estádio municipal pulveriza o ambiente de barracas de comes e bebes e o movimento frenético de torcedores. Ainda castigado por obras intermináveis de uma linha do metrô, a região é cercada de tapumes, guindastes, pó e cimento. Ambiente hostil ao futebol.

Mesmo cenário se repete no Morumbi, inibido pela construção de um piscinão ao lado do estádio do São Paulo. Antes espaço de barracas onde se consumiam sanduíches de pernil e alguns goles de cerveja e destilados, o local se torna arredio à convivência de torcedores no pré e pós jogo. Estreitam-se naquele cenário no Jardim Leonor os locais antes ocupados pelos tricolores.

Em Itaquera, com generosos espaços livres ao arredor e anexo à própria Neo Química Arena, ainda não se criou aquela tradicional atmosfera de euforia e anseios de torcedores antes dos jogos. Estádio do Corinthians é quase uma ilha entre linhas de trem do metrô e de grandes vias destinadas a carros e transporte público. A Fiel prefere a festa dentro da arena à ocupação total do grande pátio do estádio inaugurado em 2013.

Assim, estamos perto de acompanhar o fim dos ruídos históricos nos grandes estádios da capital paulista. Já não temos a convivência de torcidas opostas dentro das arenas. Vivemos a praga da torcida única. E vamos engolindo como fendas de um terremoto todos aqueles que ousam fazer do pré-jogo a porta de entrada da festa do futebol. Triste.

No começo dessa história não se deu apenas a troca de nomes da Rua Turiassu por Rua Palestra Itália na Zona Oeste. Longe dali, em Parelheiros, Zona Sul da cidade, já existia uma rua de nome Palestra Itália. Como a lei determina que não se pode ter o mesmo nome em ruas diferentes, a original Palestra Itália de Parelheiros também se viu obrigada a mudar de nome a partir de 12 de junho 2015. Não me pergunte qual nome foi dado à rua pelas autoridades municipais. Naquele local, com certeza absoluta, não se tem ruídos de hoje nem do passado de um jogo de futebol.


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