Clubes brasileiros descobrem as redes sociais e ameaçam a Globo na transmissão dos jogos

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A não realização do clássico Atlético-PR x Coritiba, o Atletiba deste domingo (19/2), escancara a insatisfação de parte de clubes brasileiros com a venda de direitos de transmissão dos jogos. Há uma clara ruptura contra a TV Globo, detentora da maioria dos campeonatos e parceira da CBF e das federações estaduais de futebol. A briga é por mais dinheiro, uma vez que a maior fatia da receita dos clubes vem das cotas de transmissão pagas pela Globo. A encrenca é que, por submissão histórica, dirigentes de clubes delegam às federações o poder de negociar com a rede de TV. Nesta temporada de 2017, Atletico-PR e Coritiba não aceitaram as cotas oferecidas pela emissora e se indispuseram contra a Federação Paranaense de Futebol (FPF). Por isso, projetaram o Atletiba com uma inédita transmissão pelo YouTube e Facebook, mas foram impedidos de jogar por decisão da FPF que, por sua vez, não queria contrariar os interesses da Globo.

Argumento da FPF para impedir a realização do clássico foi o não credenciamento da equipe de transmissão, contratada pelos dois clubes, dentro do prazo de 48 horas antes do jogo. Cerca de 25 mil torcedores, que compraram ingressos e estavam na Arena da Baixada, foram obrigados a voltar para casa sem ver o futebol. Os que aguardavam a histórica transmissão via internet também saíram frustrados. O caso agora vai à Justiça. Até o início desta tarde de segunda-feira (20/2), a CBF ainda não havia se pronunciado a respeito da polêmica.

Dirigentes de Atlético-PR e Coritiba começam a convocar outros clubes a pensar no modelo de transmissão jogos por meio do YouTube e Facebook. Uma ameaça concreta à hegemonia da Globo.

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Agora vamos entender qual é a bronca de Atlético e Coritiba. De acordo com fontes dos dois clubes, a Globo oferece até R$ 2 milhões para cada um pelos direitos dos seus jogos do Campeonato Paranaense de 2017. Dirigentes das duas agremiações não aceitaram sob alegação de que clubes pequenos do Rio recebiam cotas bem mais vantajosas no Campeonato Carioca. No Rio, Bangu, Madureira, Volta Redonda e Boavista têm direito a R$ 4 milhões cada um, Macaé e Resende, R$ 2,2 milhões.

Atlético e Coritiba entendem que têm mais visibilidade e maior número de torcedores que os clubes menores do Rio, numa comparação simples sem levar em conta o alcance da audiência de seus jogos na televisão. Mesmo diante desse argumento, dizem os dois clubes paranaenses, a Globo não cedeu. Por isso não assinaram contrato com a emissora.

A Globo, sem acordo com os dois gigantes do estado, comprou o Campeonato Paranaense – pagou cerca de R$ 10 milhões, valores não oficiais. E transmite partidas dos outros dez clubes. As cotas extraoficiais alcançam: R$ 1 milhão ao Paraná Clube; R$ 600 mil ao Londrina; e R$ 400 mil aos oito clubes – lembrando que Atlético e Coritiba receberiam R$ 2 milhões cada um.

Colunista do CHUTEIRA FC e ídolo do Coritiba, seu clube de origem, o craque Alex fez duras críticas à Federação Paranaense e aos dois clubes. Veja o que disse o ex-jogador:

entrevista-alex-brunno-covel“A federação é uma merda mesmo. É a minha opinião, não serve pra nada. Acho que clube de futebol não precisa de federação, e não é a Paranaense, é qualquer uma. Acho que os clubes deveriam ter a força de fazerem a coisa por si só”.

“Coritiba e o Atlético no Paraná são protagonistas, Bahia e Vitória na Bahia são protagonistas e esses clubes são egoístas também, porque eles querem ganhar mais no estadual do que ganham os times do interior. Na verdade, a meu ver, eles tinham que puxar a fila para que fosse equilibrado o ganho, para que o time do interior ganhasse parecido, porque quando saem dali, a nível estadual, e vão para o Brasileirão, eles perdem nisso. Perdem para o Corinthians, para o Flamengo, para o São Paulo, e aí ele ficam chateados, só que fazem a mesma coisa a nível estadual.”

“A Primeira Liga (torneio entre clubes de Minas, Rio, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) é uma demonstração disso. Já começou com desigualdade, ou seja, já é uma Liga fadada a não ter continuidade, porque ‘ah, o time do Rio tem que ganhar mais do que o de Santa Catarina’. Mas por quê? Vão jogar o mesmo torneio, mesmo campeonato. Esse equilíbrio, se não tiver, vai ficar assim por muito tempo”.

Veja notas oficiais dos envolvidos na polêmica do clássico Atletiba:

Clubes
“O Clube Atlético Paranaense e o Coritiba Foot Ball Club informam que o clássico deste domingo (19), no Estádio Atlético Paranaense, não foi realizado devido à decisão da Federação Paranaense de Futebol de não autorizar o início da partida com a transmissão dos clubes em seus canais oficiais, no Facebook e YouTube, contrariando os interesses de seus afiliados CAP e CFC.

Os Clubes lembram que a ação pioneira foi realizada pois as duas equipes não venderam os direitos de transmissão de seus jogos no Campeonato Paranaense, por não concordarem com os valores oferecidos.Diante da posição arbitrária e sem qualquer razoabilidade da Federação Paranaense de Futebol, os Clubes lamentam o prejuízo causado ao futebol paranaense, em especial aos seus torcedores.”

Federação
“… A Federação Paranaense de Futebol não possui nenhuma responsabilidade pelo cancelamento da partida. A não realização do jogo ocorreu por culpa exclusiva dos Clubes, que desobedeceram a ordem do árbitro de retirar profissionais não-credenciados do gramado onde se realizaria a partida.

Diante disso, uma vez que em nenhuma partida é permitido o acesso e permanência de pessoas estranhas no entorno do gramado, o árbitro agindo de acordo com o Regulamento da Competição (art. 35, §2º e 3º, art. 36, e art. 64, §2º, inciso I do Regulamento Geral), não autorizou o início da partida, até que essas pessoas estranhas ao recinto se retirassem.

O Clube Atlético Paranaense e o Coritiba Football Club, em total desobediência à determinação, recusaram-se a retirar as pessoas não-credenciadas de campo dentro do prazo regulamentar, o que levou ao cancelamento da partida, prejudicando milhares de torcedores que compraram o ingresso e se deslocaram para assistir ao jogo do Campeonato Paranaense de 2017.

Esclarece ainda, diante das inúmeras inverdades veiculadas pelos dirigentes dos dois Clubes, que a Federação em momento algum questionou a transmissão via WEB, entendendo que não havia qualquer tipo de impedimento para sua realização, inclusive acompanhou atentamente a iniciativa dos Clubes nesse novo meio de transmissão.

A Federação Paranaense de Futebol lamenta profundamente o cancelamento da partida, esclarecendo que a responsabilidade pelos prejuízos causados é exclusiva dos Clubes, e que acionará os órgãos competentes para punição dos responsáveis”.

TV Globo
“O Grupo Globo lamenta profundamente a não realização do jogo. Primeiro, em respeito ao público que foi ao estádio, aos atletas e aos espectadores. O Grupo Globo é, de longe, o maior incentivador do futebol brasileiro. Tanto dando visibilidade ao seu conteúdo em programas, telejornais e nas próprias transmissões esportivas, quanto no aspecto financeiro, adquirindo os direitos dos principais campeonatos, como o Brasileiro, os Estaduais, a Copa do Brasil, a Libertadores da América, as Eliminatórias da Copa e a Copa do Mundo de futebol.

Veja como a Globo paga clubes e Federações pelos direitos de transmissão dos campeonatos estaduais (valores não oficiais):

Campeonato Paulista
R$ 17 milhões – Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos
R$ 5 milhões – Ponte Preta
R$ 3,3 milhões – demais clubes (11)

Campeonato Carioca
R$ 15 milhões – Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo
R$ 4 milhões – Bangu, Madureira, Volta Redonda e Boavista
R$ 2,2 milhões – Macaé e Resende
R$ 1,8 milhão – Nova Iguaçu e Portuguesa

Campeonato Mineiro
R$ 12 milhões – Atlético-MG e Cruzeiro
R$ 2,8 milhões – América
R$ 850 mil – demais clubes (9)

Campeonato Gaúcho
R$ 11 milhões – Grêmio e Inter
R$ 1,5 milhão – Brasil de Pelotas e Juventude
R$ 1,1 milhão – demais clubes (8)

Campeonato Paranaense
R$ 2 milhões – Atlético-PR e Coritiba
R$ 1 milhão – Paraná Clube
R$ 600 mil – Londrina
R$ 400 mil – demais clubes (8)

Campeonato Catarinense
R$ 673 mil – Avaí, Chapecoense, Criciúma, Figueirense e Joinville
R$ 332 mil – Brusque, Inter de Lages e Metropolitano
R$ 208 mil – Atlético Tubarão e Almirante Barroso

Campeonato Pernambucano
R$ 950 mil – Náutico, Santa Cruz e Sport
R$ 110 mil – demais clubes (9)

Campeonato Baiano
R$ 850 mil – Bahia e Vitória
R$ 113 mil – demais clubes (9)

Bom lembrar que grandes clubes, como Palmeiras e Santos, e outros do grupo intermediário trocaram a Globo pelo Esporte Interativo na venda dos direitos de transmissão por canal fechado do Brasileirão de 2019.

(leia mais no CHUTEIRA FC, novo espaço de discussão e informação do futebol)

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