Chapecoense derrota Atlético Medellín no jogo que o adversário não era adversário

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“Hoje é dia de celebrar a vida, celebrar o futebol”, disse Jakson Follman, goleiro que teve parte da perna direita amputada após aquele 29 de novembro de 2016 em Medellín. Nas arquibancadas da Arena Condá, lágrimas, consternação, mãos entrelaçadas e apertadas para não deixar a alma escapar. 

Uma multidão em transe vestida de verde e branco. No centro do gramado, Follman, o zagueiro Neto, o lateral Alan Ruschel e o jornalista Rafael Henzel, sobreviventes da tragédia, deram depoimentos emocionados, interrompidos por soluços e aplausos, na última cena do “Show da Gratidão”, ato que antecedeu ao encontro entre Chapecoense e Atlético Nacional nesta terça-feira, no jogo de ida da decisão da Recopa.

Antes de a partida começar, no final da tarde, dirigentes do clube colombiano e o prefeito de Medellín foram homenageados pelo prefeito de Chapecó com a inauguração de uma área na cidade que foi batizada de Parque Medellín. Em seguida torcedores foram em caminhada até a Arena Condá e deram um abraço no estádio em um círculo que reuniu cerca de 10 mil pessoas.

Na arena acompanharam o “Show da Gratidão”. O momento mais emocionante aconteceu com a rápida mensagem do zagueiro Neto, um dos sobreviventes. Veja o que ele disse:

“Queria agradecer a todos. Dizer para vocês que aqui estão, todos os torcedores, não esperem um avião cair para dizer “eu te amo”, não esperem um avião cair para pedir perdão, para dar um abraço, para dar um beijo. Você tem a oportunidade todos os dias de fazer diferente, de fazer o amor, que o amor de Deus faz diferença”.

Neto ainda se recupera do acidente. Evidente que não poderia jogar. Aliás, esse jogo nem aconteceria se o Atlético Nacional não tivesse concedido o título de campeão da Copa Sul-Americana à Chapecoense. Na condição de campeão da Copa Libertadores 2016, o clube colombiano seria campeão também da Sul-Americana porque seu adversário parou no voo interrompido nas montanhas de Medellín naquela madrugada de fim de novembro. Chape e Atlético disputariam a primeira partida da final da Copa Sul-Americana na Colômbia e a segunda no Brasil. A tragédia com o avião espatifado impediu a disputa da partida.

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Passados quatro meses do acidente, a Chape se reconstruiu e Chapecó esperou o dia para retribuir todo carinho, afeto, homenagens e generosidade dos colombianos dedicados naqueles dias e até hoje aos brasileiros. A hora chegou nesta noite de terça-feira de início de abril. A cidade a oeste de Santa Catarina queria apenas dizer muito obrigado, muchas gracias ao clube de Medellín, que naquele instante simbolizava todo o povo da Colômbia.

Quando os dois times entraram no gramado da lotada Arena Condá, torcedores se levantaram e aplaudiram. Uma bandeira colombiana deslizava na arquibancada. Em seguida a banda da Polícia Militar executou os hinos do Brasil e da Colômbia. A comunhão. Era hora, enfim, de Chapecoense e Atlético se enfrentarem em jogo de futebol real.

Ao apito inicial, mais aplausos e o cântico imortal “Vamos, vamos Chape”. Agora era o momento da torcida. Mas cabia uma interrogação: quem ali torceria contra o Atlético Nacional Medellín? Havia muito constrangimento em pressionar, uma vaia que fosse, o time colombiano. Como se a Chape estivesse enfrentando um adversário invisível.

No campo de jogo, a mesma incerteza. Como encarar o visitante tão generoso? Até parecia que era proibido fazer faltas. Em vez de jogadas ríspidas, duras, de jogo que vale campeonato, um abraço aqui, outro ali quando um jogador tombava no chão. Me desculpe pela falta que cometi.

Neste clima fraternal, a Chapecoense chegou ao gol em cobrança de pênalti executada pelo lateral Reinaldo (ex-São Paulo), aos 23. Do lance até a infração fatal participaram Andrei Girotto e João Pedro, os dois emprestados pelo Palmeiras.

Com a vantagem, o time dono da casa ficou em situação mais confortável, sem ansiedade para chegar ao segundo gol. Acanhado, como se fosse pecado marcar um gol na Chape, o Atlético jogou para cumprir o protocolo. E pouco incomodou o goleiro Artur Maia.

No segundo tempo, a charanga da Chape aumentou o tom dos clarinetes e dos bumbos, numa celebração da vida, do futebol, como havia pedido Follman antes da partida. Então Macnelly Torres fez o gol de empate, aos 14 minutos. Em vez de ser xingado, vaiado, como seria normal em outra situação, recebeu aplausos de toda Arena Condá.

Empate e o jogo esfriou. Aos 26 minutos – 71 no tempo acumulado –, o respeito da torcida aos 71 mortos na queda do avião. Aplausos e cânticos de “Vamos, vamos Chape”. Rendidas as homenagens, Luiz Otávio fez o segundo do time catarinense, aos 28, o gol da vitória.

Dali para frente os chapecoenses deixaram a dor de lado e passaram a desfrutar da partida até o apito final do árbitro. Acabava o jogo em que o adversário não era adversário.

(texto publicado no CHUTEIRA FC)

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