Coluna do Biquera: vida e obra de Chico Canhão

quem? jogou aonde? chupou laranja azeda nos vestuários? vestiários? sabe nada. nunca viu um gol batido de três dedos? sabe que é bater de três dedos? sabe nada. pelé? o negão? bati de frente com ELE. difícil segurar. só da medalhinha pracima. assim mesmo se acertasse. ligeiro. falava assim pra quem pensava em parar nos pontapés: ‘calma, garoto’, uma bordoada e outra.. ‘calma garoto’. aí ELE vinha. uma pantera bem negra, escura quase azul, dentes afiados, olhos esbugalhados, bola colada nos pés. se você batesse, ELE batia dobrado, traiçoeiro. machucava sem dó. pelé. quem ia parar? quem ia acabar com aquele inferno? melhor deixar passar como majestade. tapete vermelho estendido. o gol é seu, meu rei.

eu não tinha nada com isso. era bom pra chutar pro gol. batia na bola como um tiro, acho que de fuzil. ela saía zunindo. dos pés, chuteiras 40. fuzil? canhão, melhor dizendo. quem segurava aquele chute? um dia, me alembro agora, divertia num jogo de fazenda. férias é pra isso. futebol profissional não era hora de falar. sei da minha fama. um bando de puxa-saco a tirar fotografia, a criançada puxando a camisa, Chico, Chico… gente ilustre a me puxar pra lá e pra cá. eu queria me divertir com a maldita nos pés e a outra maldita na garganta, ardendo como travas de alumínio rasgando canela.

era Chico Canhão, um doce de pessoa, um leão faminto na grama. perfilei por campos e campos. carlos alberto torres, o capitão. cansei de entortar. se bem que meu forte não era deitar lateral, becão, meu forte era bater duro progol. Chico Canhão, meu nome.

então nesse dia, jogo de fazenda, férias, cheio de gaiatos, metidos a profissionais, molecada esparramada à beira-campo, me chega um senhor, bigodinho fino, canelinhas mais finas que palito de dente. cortez. disse que um dia chamaram pra apitar um jogo de fazenda. peleja come solta, bicos afiados, e não é que me passa uma leitoinha correndo no gramado ralo e vem o Chiquinho Espingarda, um menino na época, você mesmo, Chicão, mete aquele chutaço na leitoinha e…. gol.

o que fazer? a bola entrou. quer dizer a leitoinha estufou as redes. não tive dúvidas, autoridade máxima, apito na boca, decretei: leitoa no centro do campo. gol legítimo.

férias tem disso. no profissional, não. nem pensar. tudo é controlado. nada de tias. nada de marias. nada de nada. ocê não é dono d’ocê. te levam pra lá e pra cá, te arrancam os dentes cariados, deixam teclado na boca zunindo de branco, te enchem de tatuagem… tatuagem, é isso? te trocam de nome. arrumam uma mulher nova, te enfiam uns trecos nos ouvidos, te dão esse troço de falar um com’outro, tal de celular, dizem pra todo mundo que é craque. e todo mundo acredita, pior é isso.

eu, não. não sou dessas modernidades. joguei contra pelé, sabe quem?, pelé, o negão. ELE. chupei dúzias de laranjas azedas nos vestuários. vestiários?  sou Chico Canhão ninguém segurava meu chute. chute? coice de mula, isso sim. ninguém se alembra. naquela época não tinha televisão.

seu quim põe mais um trago… o último… sou Chico Canhão…sabe nada, bando de vagabundo.

* Biquera é um ex-jogador ou um colunista ou um daqueles apaixonados por futebol, de vez em quando vai aparecer nesse blog do prósperi

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