QUATRO VEZES PELÉ

foto: Eduardo Nicolau
Vi Pelé jogar poucas vezes. Quando passei a frequentar estádios, Ele já estava encerrando a carreira. Lembro que nos tempos de pré-adolescente alguns de meus querido amigos santistas em Guaxupé faziam lotação na Kombi táxi de Márcio Abrão, tio do amigo Gel, para ver Pelé jogar no Pacaembu. De Guaxupé a São Paulo, 300 km, a viagem era longa no fim dos anos 60. Mas iam todos felizes ver Pelé jogar.
Quando deixei a terra natal para fazer cursinho de vestibular em São Paulo, no começo dos anos 70, tive o privilégio de ver alguns jogos do Rei no Pacaembu. Morava na casa de minha Tia Nila de Simoni na rua da Consolação pertinho do Pacaembu. Então era fácil ir ao estádio ver futebol e craques como Ademir da Guia, Rivellino… Pelé.
A última lembrança de um jogo que vi de Pelé foi em 1973 na final do Campeonato Paulista com a Portuguesa. Fui com o Carlinhos, amigo do cursinho MED. Ele era de Santos e fanático pelo Santos FC. Pegamos ônibus da CMTC na Consolação e fomos até o Morumbi. Registros da época davam conta de 155 mil pessoas no estádio do Morumbi para ver o jogo. Partida histórica, Pelé não fez gol. Deu empate e o título foi decidido nos pênaltis. O juiz Armando Marques errou a contagem nas cobranças e decretou Santos campeão. Mais tarde decidiram que o título teria de ser dividido entre Santos e Portuguesa.
Passa o tempo. Viro jornalista dedicado ao esporte. Na longa carreira de 32 anos nas redações do Jornal da Tarde e Estadão participei de inúmeras entrevistas coletivas de Pelé.
Mas guardo quatro momentos dessa jornada de repórter com Pelé. Inesquecíveis:
O primeiro momento foi na Copa do Mundo de 1990 na Itália. Estava instalado na tribuna de imprensa do Estádio San Paolo (hoje Diego Maradona) aguardando início da semifinal Itália x Argentina. De repente, uma correria, gente gritando, jornalistas afoitos, policiais tentando colocar ordem nas tribunas. Curioso, me levantei e fui ver o motivo de tamanha confusão. Simples, era Pelé entrando para ocupar seu lugar no estádio. Ali tive a dimensão exata do tamanho de Pelé no futebol.
O segundo momento foi em 1996 na cobertura da Eurocopa na Inglaterra. Ao lado do meu editor do JT, José Eduardo Carvalho, e do colega Paulo Guilherme, do Estadão, estávamos em Londres passeando antes de embarcar para Liverpool onde cobriríamos à noite um jogo da Itália, se não me engano. Fomos até a famosa loja Harrods. Em um dos sete andares da loja, destinada a artigos esportivos, deparamos com uma enorme fila. Seguimos a fila até o fim: uma mesa com uma plaquinha escrita Pelé. Era uma sessão de autógrafos do Rei. Decidimos que eu ficaria ali esperando Pelé para conseguir uma exclusiva. Edu e Paulinho seguiram para Liverpool. Aguardei Pelé chegar e dar os autógrafos. Depois de mais de uma hora atendendo aos fãs, Pelé foi levado a uma salinha para dar entrevistas a jornalistas ingleses. Não queriam me deixar entrar por não ser inglês nem estar credenciado para a entrevista. Bateram a porta na minha cara. Depois abriram por ordem de Pelé. “Entra aqui, senta ali e espera eu atender o pessoal aqui, depois falo com você”, disse o Rei. Depois de meia hora de entrevistas com os ingleses, Pelé me atendeu por 30 minutos. Uma baita entrevista que rendeu uma página no JT. Saí dali feliz da vida com a entrevista e a tempo de pegar o trem para Liverpool e acompanhar o jogo da Eurocopa.
O terceiro momento, em 2005, na cobertura da Copa das Confederações na Alemanha, eu e Antero Greco, que dividíamos a cobertura para JT/Estadão, descobrimos que Pelé daria entrevistas exclusivas à imprensa alemã sem participação de jornalistas brasileiros. Fomos até o hotel em Frankfurt que Pelé atenderia aos alemães. Plantamos na porta da sala das entrevistas. Os alemães não queriam nos deixar entrar. Pelé viu a cena e disse assim: “Aguardem aí que eu falo com vocês”. Dito e feito. Pelé desobedeceu os alemães e concedeu uma longa entrevista a nós dois. Quase ao fim da entrevista, quando perguntamos de seu filho Edinho, na época preso em Santos acusado de tráfico de drogas, Pelé chorou. Um dos momentos mais dolorosos que me recordo de uma entrevista.
O quarto e último momento, o mais especial. Em fevereiro de 2013, marquei uma entrevista com Pelé em sua casa no Guarujá. O Rei vinha de uma delicada cirurgia no quadril quando teve de retirar parte do fêmur. Eu, o repórter Robson Morelli e o fotógrafo Edu Nicolau entramos na casa suntuosa, mas de móveis rústicos, sem luxo. Aguardamos Pelé no salão que dava para uma piscina com ar de pouco uso e águas verdes. Pelé chega escorado em uma bengala, caminha com dificuldade, mais magro que o seu normal, abatido. No meio da conversa, pede para um de seus ajudantes buscar um vidro, desses de guardar azeitona, na geladeira. O ajudante chega com o vidro que tem dentro parte do fêmur de Pelé mergulhado no formal. Pelé tenta abrir o vidro, da umas batidas na tampa e abre. Retira o fêmur e se deixa fotografar para deleite do fotógrafo Edu.
Uma hora de entrevista com o Rei e ele nos leva até a um imenso galpão anexo ao pátio da piscina. Ao entrar me senti uma criança em um palácio de brinquedos. Ali estão peças históricas da carreira de Pelé. A caixa-forno de madeira que ele usava na Copa do Mundo para recuperar musculatura da perna. O sombrero mexicano que colocaram na sua cabeça na conquista do Tri em 70 no México. Luvas de boxe, presente de Muhamed Ali. Camisas e mais camisas de times e seleções, chuteiras, coroas. Todo aquele tesouro iria para o Museu de Pelé em Santos. A cada peça que ele nos mostrava, seus olhos brilhavam. Pelé abriu o coração.
Era minha quarta passagem marcante ao lado de Pelé nessa longa carreira de repórter de futebol. Guardo essas recordações na memória e páginas do Jornal da Tarde e Estadão. Por isso, nesse 29 de dezembro de 2022, só posso dizer o que todo mundo está dizendo: “Muito obrigado, Pelé.”
A imagem abaixo é de um selo comemorativo ao milésimo gol de Pelé marcado em 1969. Meu pai, o Lotinho, me deu um selo desse na época do lançamento. Enfiei em uma página de um de meus livros e, confesso, nunca mais encontrei.