Luiz Antônio Prósperi – 12 julho 2026 (16h33)
Inventário da Derrota do Brasil na Copa do Mundo 2026 chega ao #episódio 2. Aqui você vai entender os motivos que levaram Carlo Ancelotti a aceitar a megalomania de a CBF tratar o futebol brasileiro como um gigante dormindo em berço esplêndido. Tudo tem de ser na soberba. Da convocação dos 26 jogadores para a Copa no Museu do Futuro no Rio de Janeiro às instalações do escrete no subúrbio riquíssimo de Basking, cercanias de New Jersey nos Estados Unidos. Ancelotti ainda se vê pressionado a digerir Neymar. E se apressa a renovar contrato com a CBF até 2030, quase um atestado de imunidade no caso de fracasso da Seleção na Copa 2026. Deu no que deu no dia 5 de julho em New Jersey:
Vamos voltar ao dia 18 de maio de 2026, uma tarde quente no Rio de Janeiro. Estamos no Museu do Futuro, ponto turístico instalado no complexo Porto Maravilha. Ali, por volta das 17h, Carlo Ancelotti apresentaria a lista dos 26 jogadores convocados para a Copa do Mundo. Mais de 1.200 convidados da CBF, entre patrocinadores, dirigentes de futebol, artistas, influencers, celebridades, transitam por dois auditórios com capacidade de abrigar até 1.500 pessoas. Quitutes finos, bebidas em geral e brindes aos convidados.
Estamos ao lado de 700 jornalistas credenciados, entre brasileiros e da mídia internacional. Ludmila, João Gomes e outros artistas se exibem enquanto Ancelotti não chega ao Museu do Futuro. De repente, frisson geral. Ancelotti acompanhado de sua esposa e filha descem de um carro da marca Volkswagen, lançamento 2026 da montadora patrocinadora da CBF. Ancelotti carrega uma pasta com os 26 nomes dos jogadores. Parecia um estadista chegando a uma convenção internacional entre chefes de Estado para tratar de problemas do mundo. Neymar estaria na lista?
A festa brega, nababesca, prossegue. Encenações teatrais de baixo nível artístico tentam comover a plateia contando as histórias das cinco conquistas do Brasil na Copa do Mundo. As cinco estrelas. Fim do showzinho, Ancelotti lê um a um os nomes dos jogadores convocados.
Quando pronuncia Neymar se ouve explosão de gritos como um gol. Ancelotti conhecia ali o tamanho da encrenca a que havia se metido. Neymar, com a panturrilha esgarçada, estava convocado. E levaria seu drama de jogar ou não a Copa até fase decisiva do torneio. Uma dor de cabeça desnecessária cobrando Ancelotti pela convocação do ídolo decadente.

Enquanto a CBF fazia da convocação de Ancelotti um show quase circense para pouco mais de 2 mil pessoas no Museu do Futuro e transmitido ao vivo na TV e nos canais de YouTube, outras confederações exibiam apenas em vídeos criativos a lista de convocados para Copa. Inglaterra, Noruega, França, Argentina e a maioria das seleções que iriam à Copa marcaram pela qualidade dos vídeos. Simples, diretos, interessantes e nada suntuosos.
Quatro dias antes do espetáculo de gosto duvidoso no Museu do Futuro no Rio, dia 14 de maio, Ancelotti e CBF anunciam a renovação do contrato do treinador italiano até 2030. Ancelotti vai receber 10 milhões de euros por ano (R$ 59,3 milhões) até a Copa de 2030.
Assim o técnico poderia embarcar tranquilo para comandar a Seleção na Copa 2026. A próxima Copa estava garantida, com fracasso ou sucesso nos Estados Unidos.
“Há um ano cheguei ao Brasil. Desde o primeiro minuto, entendi o que o futebol significa para este país. Há um ano, estamos trabalhando para levar a seleção brasileira de volta ao topo do mundo. Mas a CBF e eu queremos mais. Mais vitórias, mais tempo, mais trabalho. Estamos muito felizes em anunciar que continuaremos juntos por mais quatro anos. Vamos juntos até a Copa do Mundo de 2030. Quero agradecer a CBF pela confiança. Obrigado, Brasil, pela calorosa recepção e por todo o carinho” – Ancelotti ao site oficial da CBF.

Temos sérias dúvidas de que Ancelotti teria entendido “o que significa o futebol para este país”, como ele mesmo disse ao renovar contrato com a CBF.
Contrato renovado, rumo aos Estados Unidos. Ao desembarcar no principal país da Copa 2026, Ancelotti segue com seu comissariado, 26 jogadores, estafe da CBF e funcionários da entidade para se instalarem no The Ridge Hotel no riquíssimo subúrbio de Basking Ridge – 7.196 habitantes e renda per capita estimada em 108 mil dólares, segundo dados do censo americano de 2020 – nas cercanias do distrito Morristown. Seleção chega com 10 toneladas entre equipamentos esportivos, fisioterapêuticos e alimentação.

Ancelotti, jogadores, comissão técnica e funcionários da CBF teriam direito a ocupar 171 quartos e usar 29 salas do hotel, todos contratados pela CBF no período de disputa da Copa do Mundo. Diárias do hotel a no mínimo 400 dólares (cerca de R$ 2 mil).
Todo decorado com logos da CBF e o tema “Bate no Peito”, símbolo da Seleção na Copa, o hotel cedia um auditório para mais de 200 pessoas onde aconteceriam as entrevistas coletivas de imprensa de Ancelotti e jogadores. Na recepção desse auditório, CBF monta um buffet com quitutes à disposição dos famintos jornalistas, eu um deles, à espera do início das coletivas.
A 15 minutos do hotel, está o CT Red Bull em Columbia Park, bem próximo ao distrito de Morristown. Quatro campos de ótimos gramados. Um deles com o mesmo gramado do estádio MetLife de New Jersey onde a Seleção jogou duas partidas e jogaria a terceira se chegasse à final da Copa.
Neste CT a mídia em geral teria direito a 15 minutos para acompanhar os treinamentos do escrete, produzir suas rápidas matérias, gravar vídeos, fotos. Um espetáculo deprimente a quem já esteve em outras Copas do Mundo sem grandes restrições ao trabalho da imprensa. Em média, pouco mais de 250 jornalistas estavam sempre ali no CT nas pegadas da Seleção.

Ancelotti não revela, mas observando suas reações nas entrevistas coletivas, no contato rápido com jornalistas, se percebia o quanto ele estava surpreso com o grande número de repórteres, influencers na sua maioria, e o nível de perguntas a que se submetia. Quase um reality show diário.
Se Ancelotti pensava em ser modesto e fazer os jogadores entenderem que toda aquela infra-estrutura de hotel, CTs e afins eram uma megalomania desnecessária do futebol brasileiro e que deveríamos ser mais humildes, então a Copa já estava perdida. Dificilmente ele se convenceria e muito menos os jogadores entenderiam essa nova realidade.
Entramos como gigantes na Copa, com Ancelotti e tudo, com a mania de achar que ainda somos grandes no futebol internacional. E as ideias equivocadas de Ancelotti nos primeiros jogos da Seleção mostraram que deveríamos ser mais humildes e reconhecer nosso tamanho real. Há 24 anos não éramos campeões do mundo e até a próxima Copa terão passados 28 anos sem a taça.
Quando Ancelotti acordou, se é que acordou para essa realidade, já estávamos no dia 5 de julho em New Jersey.

a seguir: Inventário da Derrota do Brasil na Copa 2026 (episódio 3). Você vai conhecer os bastidores dos treinamentos da seleção, a mudança de rumo feita por Ancelotti e o ambiente nem tão tranquilo entre os jogadores como se pensava até a queda na Copa.
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