Copa do Mundo à venda (episódio 2): CBF e Conmebol permanecem caladas

Alejandro Dominguez (Conmebol) apoia Infantino – foto: Conmebol oficial

Assim como a Conmebol, as federações brasileira (CBF) e argentina (AFA) também se mantiveram distantes da polêmica. Acompanhe o #episódio2: 

Andrés Burgo, do El País em Buenos Aires – 31 julho 2026

A partir de sua sede em Assunção, capital do Paraguai, a direção da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) decidiu inicialmente apoiar o projeto da FIFA de privatizar a Copa do Mundo mas até agora expressou esse apoio silenciosamente, sem emitir declarações já manifestadas pelas confederações da Europa, Ásia e América do Norte, Central e Caribe.

Embora o endosso implícito confirme a cumplicidade e a camaradagem à prova de escândalos entre a Conmebol e a federação liderada por Gianni Infantino, líderes sul-americanos também começaram a alertar com preocupação nas últimas horas que a contagem de votos necessária para que a FIFA tenha sucesso em sua controversa iniciativa corre sério risco de não ser alcançada.

Mais por conveniência do que por convicção, uma pergunta ecoou cada vez mais nesta sexta-feira dentro do prédio da CONMEBOL, que até 2015 gozava de imunidade diplomática, como se fosse uma embaixada: faz sentido apoiar explicitamente, ou continuar apoiando tacitamente, um projeto que parece fadado ao fracasso? O silêncio oficial continua sendo a resposta.

A CONMEBOL é a confederação continental com o menor número de federações filiadas, 10, ainda menos que os 13 países que compõem a confederação da Oceania, e muito menos que os 41 que formam a CONCACAF no restante das Américas. Como o voto de cada associação nacional conta como um na FIFA, a importância da posição sul-americana é mais simbólica do que decisiva. Brasil e Argentina, gigantes sul-americanos, conquistaram oito Copas do Mundo, além das duas edições vencidas pelo Uruguai nos primeiros anos.

O presidente da CONMEBOL, o paraguaio Alejandro Domínguez, estava radiante nesta quinta-feira no campo de futebol ao lado da sede da CONMEBOL em Luque, nos arredores de Assunção, dando as boas-vindas ao início do Festival CONMEBOL Evolution, um torneio que reúne equipes juvenis masculinas e femininas de diferentes países. “Este festival é para vocês”, disse Domínguez aos jovens jogadores, aparentemente alheio à comoção causada pelo vazamento dos planos da FIFA de vender uma parte da Copa do Mundo para investidores privados, em um processo liderado pelo banco americano JP Morgan e uma empresa que reúne investidores por meio de Joshua Kushner, irmão do genro de Donald Trump.

CBF calada

As federações brasileira e argentina também se mantiveram distantes da polêmica. Na verdade, seus dois presidentes, Samir Xaud, da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), e Claudio Tapia, da Associação Argentina de Futebol (AFA), têm assuntos pessoais para tratar. Enquanto Xaud está sob investigação em seu país por supostamente usar fundos da CBF para financiar despesas de viagem de uma mulher identificada como sua amante durante a Copa do Mundo de 2026, Tapia continua sendo investigado pela justiça argentina por suposta corrupção dentro da AFA.

Mas, alheia a essa aparente indiferença, a CONMEBOL reagiu com surpresa e decepção à rápida rejeição da proposta de Infantino pela CONCACAF na quinta-feira. “Normalmente trabalhamos de mãos dadas e caminhamos juntos como um bloco; não sabemos o que aconteceu aqui”, lamentaram os dirigentes da confederação sul-americana, embora, ao mesmo tempo — sempre alinhados com a FIFA —, duvidem que os 41 votos das federações da América do Norte, América Central e Caribe sejam, em última análise, totalmente contrários ao plano de Infantino. A FIFA pretende submeter o projeto à votação de suas 211 associações-membro, que são legalmente proprietárias da Federação Mundial, em 19 de setembro.

Um representante da CONMEBOL compartilhou a seguinte teoria na noite de quinta-feira: “Os europeus estão firmes; eles sabem que têm um ano pela frente para negociar sem forte concorrência, e não há como voltar atrás: são 55 votos. Se somarmos os 41 da CONCACAF, embora tenhamos que ver se esse bloco continua tão sólido quanto tem sido até agora, eles chegam a 96. Mas, por outro lado, seríamos nós, os africanos (54) e os asiáticos (47)”, acrescentou o lobista sul-americano, que na ocasião não esperava que a Confederação Asiática também adicionasse sua rejeição, na sexta-feira, às já anunciadas pela UEFA e pela CONCACAF.

A relação entre a CONMEBOL e Infantino tornou-se indissociável depois que a FIFA concedeu a Domínguez a concessão mínima para a Copa do Mundo de 2030, a ser realizada na Espanha, Portugal e Marrocos. No entanto, as três primeiras partidas do torneio serão disputadas no Uruguai — sede da primeira Copa do Mundo em 1930 —, na Argentina e no Paraguai, como prêmio de consolação pela candidatura baseada no centenário da Copa do Mundo.

Uma possível expansão da Copa do Mundo, das 48 seleções que estrearam em 2026 para um potencial número de 64 no futuro, foi inicialmente proposta por Domínguez e bem recebida por Infantino, embora ainda não tenha sido anunciada oficialmente.

Sempre silenciosa, a CONMEBOL manifestou na sexta-feira sua indignação com a oposição europeia à proposta de Infantino de criar uma subsidiária comercial de US$ 20 bilhões, a FIFA Forward Enterprise (FFE), para gerenciar a Copa do Mundo e outros eventos da FIFA. “Infantino levantou a questão pela primeira vez no Congresso de Vancouver, em abril, e ninguém disse uma palavra. Esperaram até agora”, lamentaram fontes da confederação sul-americana, alertando também que sua colaboração com a FIFA está se tornando cada vez mais isolada.


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