Quando Rei Pelé precisa de carinho dos súditos

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Pelé desistiu de participar da cerimônia de abertura da Olimpíada do Rio. Em comunicado oficial, divulgado no início da tarde desta sexta-feira (05/8), o Rei lamentou não poder atender ao convite do Comitê Organizador dos Jogos. Alegou limitações físicas que o impediriam de acender a pira olímpica no Maracanã nesta noite. Pelé, apontado como o Atleta do Século, enfrenta seguidos problemas de saúde há mais de três anos.

Veja o que disse José Fornos Rodrigues, o Pepito, assessor de Pelé:

“Ele não vai mesmo participar, ele foi ao médico na quinta-feira (04/8) e o músculo da perna esquerda não está muito legal, ele fez a cirurgia na perna direita e sobrecarregou a esquerda. Hoje ele faz a fisioterapia para o músculo e isso complica para o Pelé se movimentar. É só por isso que ele não vai participar. Ele não tem força, se colocar ele uma cadeira só um guincho para levar ele mesmo”, disse Pepito ao site UOL.

A declaração do assessor de Pelé é, no mínimo, assustadora. Maior símbolo do esporte do Brasil e um ícone mundial, Pelé fica fora dos Jogos do Rio. Talvez compareça na cerimônia de encerramento, dia 21. Seus agentes garantem que sua ausência não se deve a questões contratuais de patrocinadores e sim de saúde.

Não é de hoje que Pelé enfrenta problemas de saúde. Em 2012, passou por uma cirurgia no quadril quando implantou uma prótese de titânio no fêmur. Seis meses após essa intervenção, esse blogueiro e o jornalista Robson Morelli entrevistamos Pelé na sua residência no Guarujá, litoral de São Paulo. Confesso o susto que levei ao ver o Rei escorado em uma bengala e com muitas dificuldades para se locomover. O mito alquebrado.

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Depois dessa cirurgia no quadril, o Rei retirou cálculos renais – ele tem apenas um rim, após retirada de um de seus rins quando jogava nos Cosmos nos Estados Unidos em 1975 – em novembro de 2014. Mais tarde, em maio de 2015, foi internado por causa de uma hiperplasia na próstata. Passou ainda por cirurgias no joelho e mais uma vez no quadril.

Fora os cuidados com sua saúde, Pelé leiloou parte do seu acervo pessoal em junho deste ano de 2016 em Londres. Foram 2 mil peças que remontam a carreira do Rei. O leilão arrecadou 5 milhões de dólares. Segundo o Rei, parte do que foi arrecadado se destinou à instituições sociais e ao hospital pediátrico Pequeno Príncipe, de Curitiba.

Há pouco menos de um mês, Pelé anunciou seu casamento com a namorada Márcia Cibele Aoki, companheira de muitos anos.

Quando fomos entrevistá-lo em 2013 na sua casa no Guarujá, Marcia não estava na residência, mas Pelé ressaltou como ela era importante na sua vida.

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O Rei, mesmo escorado em uma bengala, estava bem disposto. Nos mostrou seu enorme acervo, trancado em um imenso depósito da casa. Confesso a emoção que senti ao ver aqueles objetos que remontam a mais vitoriosa carreira de um jogador de futebol. Ao final da entrevista, fui brindado com um autógrafo dele e uma foto ao seu lado.

Sem entrar no mérito da vida pessoal, como o não reconhecimento da paternidade de uma de suas filhas e os problemas com seu filho Edinho, e seus negócios particulares, o esportista Pelé é extraordinário.

Bem diferente dos grandes ídolos do futebol de hoje, Pelé nunca me negou uma palavra ao longo da minha carreira de jornalista de esportes.

Em 1996 na cobertura da Eurocopa da Inglaterra, encontrei com Pelé por acaso na famosa casa Harrods, uma das mais luxuosas lojas de Londres na época.

Ele participava de uma sessão de autógrafos e depois concederia uma entrevista apenas a jornalistas ingleses em uma sala reservada. Tentei entrar na sala para participar da entrevista, mas os assessores da loja me impediram.

Quando Pelé percebeu que eles não queriam me deixar entrar, me chamou, me fez sentar ao seu lado na mesa e disse que, assim que se encerrasse a entrevista com os ingleses, falaria comigo. Ficamos ali uma meia hora. A conversa rendeu uma bela página no Jornal da Tarde.

Na cobertura da Copa das Confederações de 2005 na Alemanha a mesma história se repetiu. Eu e o companheiro Antero Greco descobrimos que Pelé daria uma entrevista exclusiva a jornalistas alemães em um hotel de luxo em Frankfurt. Fomos até lá e acabamos impedidos de entrar na sala de entrevista.

Quando Pelé descobriu que estávamos ali, permitiu o nosso acesso. Depois de falar com os alemães, nos atendeu. Ao final da entrevista quando perguntamos do filho Edinho, até então detido por envolvimento com drogas em Santos, Pelé chorou.

Naquele momento e neste agora com sua ausência na abertura da Olimpíada do Rio, entendo que, com perdão dos céticos, Pelé precisa de carinho.

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