Mancha Verde em guerra e a crua realidade dos assassinatos de líderes de torcidas em todo o Brasil

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O corpo de Moacir Bianchi foi sepultado em um jazigo da Mancha Alviverde no Cemitério do Jaraguá na tarde de sexta-feira (3/3). Moa, como era conhecido, tombou abatido por 22 disparos na madrugada de quinta-feira (2/3) em uma avenida do bairro Ipiranga, na capital paulista. Fundador da Mancha e um dos mais ardorosos defensores da facção, Bianchi andava incomodado com os rumos da organizada. Caiu assassinado como dezenas de líderes de torcidas de futebol no Brasil afora tombam mortos há mais de uma década, com mais peso de 2012 para os dias de hoje. Uma carnificina sem prazo para acabar.

Na noite desta mesma sexta-feira (3/3), investigadores da DHPP (Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa) foram farejar em Perdizes, Zona Oeste de São Paulo, e cumpriram um mandado de busca e apreensão na sede da Mancha. Corriam em busca de explicações para o sangue derramado de um dos líderes da maior torcida organizada do Palmeiras. A Polícia de São Paulo e as forças de segurança do governo estadual não sabem, ou fingem não saber, que vem chumbo grosso por aí. É grande a suspeita de vingança entre integrantes da Mancha e uma guerra pelo controle da “entidade”.

Mais que a hipótese de vingança em honra ao líder morto, os investigadores trabalham em cima de dados das redes sociais onde é clara a luta pelo poder na Mancha. Outras informações dispersas tentam relacionar disputas políticas internas e envolvimento com o PCC (Primeiro Comando da Capital). Aliás, a entrada do PCC no futebol tem sido debatida, investigada, mas pouco comprovada pelos organismos de segurança do Estado.

No caso da Mancha, em uma rápida procura nas redes sociais é possível encontrar indícios de uma guerra interna pelo poder. A sede, onde habitam os principais líderes da facção, teria perdido o controle de sub-sedes importantes na Capital – bom lembrar que a Mancha tem pouco mais de 60 sub-sedes em São Paulo e em todo o País. Por trás dessa, digamos, rebelião contra a sede principal estaria o PCC, que teria estendido seus tentáculos à maioria das grandes torcidas paulistas – casos de Gaviões (Corinthians), Independente (São Paulo) e Jovem (Santos). Falta a Mancha, que, segundo suspeitas, resiste ao avanço do PCC nas suas entranhas, daí o assassinato de Moacir Bianchi, um dos líderes mais carismáticos da facção organizada do Palmeiras.

LEIA MAIS: no CHUTEIRA FC  o caso da morte do fundador da Mancha Verde

De acordo com o portal R7, um áudio vazado na tarde desta sexta-feira (3/3) revela um plano de fundadores e antigos membros da Mancha vingarem a morte de Bianchi. “Nós vamos chegar pra tombar, nós vamos chegar pra deitar todo mundo. O que fizeram com o Moacir foi covardia.” Em outro áudio: “Eles (PCC) deram o primeiro recado. É só o primeiro. É isso que tá acontecendo com essas torcidas que não aceitam que o Comando entre nas torcidas e mande parar (com as brigas). O recado foi dado.”

Veja vídeo do assassinato de Moacir Bianchi:

O estranho nessa história toda é que o PCC aparece com força no futebol quando as grandes torcidas organizadas decretaram um pacto, aliás bem duvidoso, de paz no futebol. Esse pacto foi anunciado meses após a Operação Cartão Vermelho, deflagrada pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, na época sob comando do secretário de Justiça Alexandre de Moraes, que depois virou ministro da Justiça e hoje está perto de assumir uma cadeira no STF por indicação do presidente Michel Temer. A Operação Cartão Vermelho promoveu uma devassa nas sedes de Mancha e Gaviões e instituiu a torcida única nos clássicos do futebol paulista.

Vamos voltar ao pacto de paz entre as facções divulgado pelos seus líderes no fim de 2016. Acompanhe um trecho da reportagem da Ponte Jornalismo sobre este caso, publicada em dezembro de 2016.

“… A polícia investiga a hipótese de o acordo de paz ter sido selado após um ‘salve’, ou seja, uma determinação que surgiu da Penitenciária de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, onde está presa a cúpula da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). Quatro áudios de conversas que seriam entre integrantes das torcidas circulam por grupos de WhatsApp, incluindo os restritos a policiais. Os rapazes afirmam terem recebido ameaças do crime organizado caso haja brigas e mortes entre torcidas.

A Polícia Civil divulgou  ter aberto inquérito para apurar a veracidade dos áudios. Quem vai investigar o caso é a delegada Margarete Barreto, da Drade (Delegacia de Polícia de Repressão e Análise aos Delitos de Intolerância Esportiva), subordinada ao DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa).

Outra hipótese levantada pela polícia é que as organizadas estejam aproveitando a onda de “fair play” para terem um voto de confiança da sociedade e dos órgãos de segurança pública, sem ligação alguma com o PCC.

Um investigador do DHPP, que pediu para não ser identificado, confirmou à Ponte Jornalismo a veracidade dos áudios. “O PCC deu a ordem para acabar com as brigas. O que a gente investiga é qual o interesse que a facção tem com isso, ou seja, no que estariam interferindo as brigas com o negócio do PCC”, disse. “A Polícia Civil identificou como reais as conversas. Mas detalhes podem atrapalhar investigações maiores”, complementou.

De acordo com a diretora do DHPP, Elisabete Sato, os presidentes das quatro grandes torcidas afirmaram querer o fim da intolerância no futebol. Por isso, ofereceram um pacto, com o slogan “mais festa, nenhuma violência”, para que elas possam assistir aos clássicos este ano com as torcidas rivais no estádio.

Desde abril deste ano (2016), os clássicos ocorridos em São Paulo têm torcida única. A medida havia sido pedida pelo Ministério Público à Federação Paulista de Futebol e foi anunciada com aval da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo após a morte de um torcedor em São Miguel Paulista, na Zona Leste, depois de um jogo entre Palmeiras e Corinthians válido pelo Campeonato Paulista de 2016.

No último sábado (4/12/2016), as quatro torcidas dos clubes de São Paulo se uniram em frente ao estádio do Pacaembu em solidariedade às vítimas da tragédia que matou 71 pessoas em um voo que levava a equipe da Chapecoense a Medellín, na Colômbia”, conclui a reportagem da Ponte Jornalismo.

SP - FUTEBOL/ORGANIZADAS/SP/CHAPECOENSE - ESPORTES - Integrantes de torcidas organizadas de São Paulo se reúnem na Praça Charles Miller, em frente ao Estádio do Pacaembu, na zona oeste de São Paulo, para ato em homenagem à Chapecoense, neste domingo, 4. O avião que levava a delegação do time catarinense para a Colômbia caiu na madrugada de terça-feira, 29, deixando 71 mortos. 04/12/2016 - Foto: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO CONTEÚDO

VIOLÊNCIA EM TODO PAÍS

A morte por assassinato de líderes de torcidas organizadas não se restringe ao futebol paulista. CHUTEIRA FC levantou alguns casos notórios de outras mortes Brasil afora, com base em relatos da imprensa. Uma carnificina. Acompanhe.

Abril de 2016

Fortaleza – Presidente de uma das torcidas organizadas do Ceará, Vicente de Paula Lima Pereira, 34 anos, foi morto a tiros na avenida Central, no Conjunto Novo Oriente, em Maracanaú, por volta das 10h no dia 24/4/2016. De acordo com informações do 14.º Batalhão da Polícia Militar, a Perícia Forense contabilizou 16 perfurações no corpo da vítima. “Paulinho”, como era conhecido, era o líder da torcida Movimento Organizado Força Independente (Mofi). Testemunhas informaram à Polícia que o autor do disparo estava em um veículo modelo Vectra de cor azul. Após efetuar os disparos em Vicente de Paula, o suspeito fugiu.

Os tiros atingiram a cabeça, o tórax e os braços da vítima, conforme informou a PM. A Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) está investigando o crime. Uma moto, que estaria com o líder da Mofi no momento do crime, foi encaminhada para a especializada. Ainda não há informações sobre a motivação do assassinato.

Salvador – A Polícia Civil já identificou o autor da morte do puxador da Torcida Uniformizada Imbatíveis (TUI) do Vitória, Lucas dos Santos Lima, de 35 anos, conhecido como “Chapolin”. Ele foi executado dentro de sua loja, no bairro do Barris, em Salvador, em 25/4/2016. No jogo anterior entre Vitória e Bahia, em 13/4/2016, três torcedores ligados à Bamor foram esfaqueados por supostos integrantes da TUI, em Brotas. A polícia não confirma relação com o caso da morte de “Chapolin”.

Outubro de 2016

Goiânia – Morte de Bruno Eurípedes Rodrigues, presidente da torcida organizada Sangue Colorado, do Vila Nova, teria sido motivada por rixa entre torcidas organizadas rivais. As primeiras apurações apontam que Bruno Rodrigues estava em uma residência acompanhado de Johnas Cleber Brito da Silva e outros conhecidos. Em determinado momento, dois homens encapuzados entraram no local e efetuaram vários disparos contra eles.

Março de 2016

Rio – A morte do chefe da Torcida Jovem do Vasco e do Americano e assessor do deputado Geraldo Pudim Vinícius do Rosário Almeida Mangelo, conhecido como “Birigui”, de 38 anos, teve como motivação uma briga entre torcedores das torcidas organizadas do Flamengo e do Vasco. O crime ocorreu na noite de 5/3/2016, em frente à quadra do bloco Os Psicodélicos, no Parque Rosário. O acusado M.V.L.G., de 33 anos, é chefe da Torcida Organizada do Flamengo em Campos e morador em Guarus. Ele foi autuado e preso. “O autor do homicídio possui uma passagem pela polícia no ano de 2010, quando foi preso pela prática de incêndio a um quiosque, tendo como motivação também a rivalidade de torcida. À época, o quiosque teria relação com o time do Botafogo”, disse a polícia na época.

Setembro de 2014

Campina Grande  – Um homem foi assassinado em um bar localizado no bairro José Pinheiro, no município de Campina Grande. Elton Márcio, conhecido como “Elton Cabeludo”, tinha 27 anos e era vice-presidente da torcida “Facção Jovem”, do clube Campinense. Segundo testemunhas, a vítima estava no bar quando dois homens chegaram e efetuaram disparos contra Elton, que não resistiu. Elton Cabeludo teria se envolvido, anteriormente, em algumas brigas entre torcidas. Essa foi a quinta morte de um membro de torcida organizada no período de um ano em Campina Grande. Antes do assassinato de Elton, outros quatro torcedores, que faziam parte da Torcida Jovem do Galo, foram vítimas de homicídio.

Novembro de 2014

Belém – Polícia Civil prende duas pessoas suspeitas de envolvimento na morte de um líder de uma torcida organizada do Clube do Remo. Um vídeo seria a prova da participação dos suspeitos no crime. Na gravação, um grupo comemora a morte do rival. Um homem e uma mulher foram presos em 27/11/2014, suspeitos de envolvimento na morte de Fredison de Jesus Lima da Silva, de 32 anos, líder de uma extinta torcida organizada. “Eles se encontram com a vítima, conhecida como ‘Gargamel’, e deram quatro tiros nele”, disse o delegado Aldo Botelho na época.

(texto publicado no CHUTEIRA FC)

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