CBF deixa Globo de lado em busca de mais dinheiro com a Seleção Brasileira

CBF não desiste de fazer dinheiro com a Seleção Brasileira. Uma semana depois da prisão de Sandro Rosell, ex-presidente da Barcelona, e das denúncias da Justiça da Espanha a respeito de lavagem de dinheiro em jogos da Seleção, a confederação anuncia uma novidade na transmissão dos amistosos contra Argentina e Austrália no início de junho. As duas partidas serão exibidas pela TV Brasil, estatal comandada pelo governo federal, e também no Facebook, sem a participação da TV Globo.

Não se trata apenas de um chega para lá definitivo na Globo, detentora dos direitos de transmissão dos jogos da Seleção há mais de duas décadas. Trata-se de uma nova forma de a CBF aumentar suas receitas em cima do time de Tite.

Por meio de um comunicado oficial divulgado na segunda-feira (29/5), a Globo disse que não concorda com esse modelo de negociação da CBF. Veja a nota:

“A CBF tinha planos de negociar os direitos dos amistosos e das Eliminatórias da Copa 2022 na forma de bid (leilão fechado). Recentemente decidiu vender os dois jogos amistosos de forma avulsa e, embora não acreditemos que esta seja a melhor solução para todas as partes, tentamos negociar, mas não chegamos a nenhum acordo”, diz a nota.

Antes de entrar nos valores do quanto os amistosos vão custar aos anunciantes e, por tabela, quanto a CBF vai faturar com esse novo modelo de negociação, cabe ressaltar que a venda de jogos da Seleção Brasileira está no epicentro da prisão de Sandro Rosell e da investigação da Justiça espanhola, em conjunto com o FBI dos Estados Unidos, que ainda têm como alvo Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF (de 1989 a 2012).

No auto de prisão de Rosell, expedido pela Justiça da Espanha e a que Chuteira FC teve acesso, está claro que a CBF deixou de receber cerca de 15 milhões  (R$ 54 milhões) na venda de 24 jogos da Seleção Brasileira.

Veja parte dos documentos oficiais que tratam do dinheiro lavado por Rosell e Teixeira, de 2006 a 2012, que deram prejuízo à CBF:

O esquema de Rosell e Teixeira passava por empresas que ainda têm, por contrato, os direitos de venda dos amistosos da Seleção até 2022. A principal agência é a ISE que subcontratou a Pitch International, de Londres, para comercializar os jogos do Brasil. Veja o que disse a CBF a respeito da ISE, em nota oficial divulgada em 2013:

“A ISE tem sede nas Ilhas Cayman ou em qualquer outro lugar, este critério para a localização de sua sede é dela e não da CBF. A sua existência é legal e protegida por leis internacionais. A ISE é uma subsidiária do Grupo Dallah Al Baraka, um dos maiores conglomerados do Oriente Médio. O Grupo Baraka tem 38 mil funcionários em todo mundo. A ISE subcontratou direitos à Pitch Internacional, dentro das prerrogativas contratuais que tem…” para vender os amistosos.

Mesmo com toda essa explicação, a CBF ainda não se manifestou a respeito do dinheiro a que foi lesada com as operações realizadas no esquema de Rosell e Teixeira, revelados há uma semana na Espanha.

Em um adendo das investigações da Justiça da Espanha, sempre com a colaboração do FBI,  também aparece o nome de Marco Polo Del Nero, presidente da CBF, como beneficiário de propinas de agências de marketing em negócios com a CBF.

Veja parte dos documentos oficiais que falam das propinas recebidas por Del Nero e José Maria Marin, ex-presidente da CBF que cumpre prisão domiciliar em Nova York desde dezembro de 2015:

Apesar de toda essa lama e denúncias, a CBF, sob tutela de Del Nero, resolveu negociar os direitos de transmissão dos amistosos contra Argentina (09/6) e Austrália (13/6), ambos às 7h (horário brasileiro), em Melbourne, em uma plataforma até então inédita na confederação. Del Nero também não exigiu de Tite a convocação de Neymar, um dos atrativos comerciais na comercialização dos amistosos.

Del Nero fechou com a TV Brasil, estatal operada pelo governo federal, para exibir os dois jogos. Pelé, segundo informa a Folha, será o comentarista. CBF comprou o horário na TV Brasil por simbólicos R$ 15 mil e vai vender as cotas de transmissão aos anunciantes que dividirão espaço com os dez anunciantes parceiros da confederação.

No Facebook a CBF vai cobrar R$ 500 mil e a rede social espera vender suas cotas até alcançar R$ 1,8 milhão, de um total de R$ 2,3 milhões da operação comercial.

A inciativa do Facebook na exibição de jogos do futebol brasileiro não é uma novidade. A rede social já participou da transmissão dos clássico paranaense Atlético-PR x Coritiba, o Atletiba, em março e abril.

Segundo dados não oficiais, o alcance da transmissão chegou 1,2 milhão de pessoas na página do Atlético no Face e 773 mil na do Coritiba.

O Facebook também tem acordo com a Univision Communications Inc para exibir 46 jogos da Liga MX (Campeonato Mexicano de Futebol).

Veja o que diz o site Bloomberg sobre a entrada do Face no futebol:

“Os jogos de futebol foram batidos com usuários de Facebook. Em 2016, por exemplo, 3,7 milhões de pessoas se sintonizaram para uma partida de caridade patrocinada por Wayne Rooney entre as equipes inglesas da Premier League Everton e Manchester United. Destes, 71% eram mais jovens do que 35 anos”, disse Dan Reed, chefe do Facebook de parceria esportiva global.

“Esportes no Facebook oferece um valor significativo para os radiodifusores e detentores de direitos em áreas de crescimento da audiência e inovação”, disse Reed. O Esporte é particularmente atraente, porque os eventos são ao vivo e muitas vezes chamam um público maciço. Mas os direitos da maioria dos grandes eventos e ligas foram bloqueados pelas tradicionais empresas de televisão, deixando plataformas como Facebook, Twitter e Amazon para procurar pontos de entrada em torno das bordas.

Não será surpresa se a CBF adotar esse modelo e vender os direitos de transmissão do Brasileirão e Copa do Brasil, as duas principais competições nacionais de futebol, ao Facebook. Por enquanto, a brincadeira é exclusiva da Globo, que despeja cerca de R$ 1,9 bilhão aos clubes de um contrato com validade até 2019. Globo sofre concorrência do canal fechado Esporte Interativo, do grupo Turner dos Estados Unidos, que fechou com alguns clubes, entre eles Palmeiras e Santos, para exibir jogos do Brasileirão a partir de 2019.

Dentro da CBF, a ruptura total com a Globo não é tratada como uma boa estratégia, do ponto de vista financeiro e político. A emissora tem nas mãos os direitos de transmissão dos jogos da maioria dos grandes clubes do Brasil e poderia se impor na hora de negociar a exibição dos campeonatos.

O melhor negócio da CBF é ainda vender jogos da Seleção. Aliás é o que a CBF mais sabe fazer. A maioria dos seus dez patrocinadores usa o espaço publicitário da Seleção. Um negócio que já entrou para a história foi feito com a agência suíça Kentaro nos preparativos da Copa do Mundo de 2006, quando o Brasil passou 20 dias “treinando” em Weggis, na região dos lagos da Suíça, antes de embarcar para Alemanha.

Philippe Huber, suíço da região de Weggis, era um dos dois sócios da Kentaro Group Ltd (agência com sede em Londres, 50 funcionários e 230 milhões de dólares de faturamento em 2005).

Veja o que Huber disse em 2006 ao ser perguntado se o argumento usado para convencer a CBF a escolher Weggis foi o dinheiro:

Quanto você ofereceu?

“Apenas o dinheiro não convence nenhuma seleção que é uma das favoritas à Copa (de 2006). Se fosse assim, os brasileiros teriam aceitado a proposta de treinar na Arábia Saudita a temperaturas médias de 50 graus. A seleção não vem para Weggis por causa da beleza dos nossos olhos, mas porque esse local é ideal para ela. Além disso, a CBF ainda recebeu da nossa empresa 1,2 milhão de dólares, mais os honorários pela participação e também todas as despesas pagas. Por outro lado, nossa empresa ganhou os direitos de transmissão e de organização dos dois jogos amistosos (em Basiléia e Genebra) e também dos treinamentos em Weggis. Com essas atividades de comercialização é que esperamos recuperar o dinheiro investido”, disse Huber, que fechou a conta dos 20 dias de treinos da Seleção em Weggis com um faturamento de cerca de 10 milhões de dólares em maio de 2006.

(texto publicado no CHUTEIRA FC – leia mais notícias e opinião de futebol)

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