Inventário da derrota da Seleção (episódio 1): Do caos aos vacilos de Ancelotti na Copa 2026

Luiz Antônio Prósperi – 11 julho 2026 (15h25) 

Inventário da eliminação do Brasil na Copa do Mundo 2026 começa em dezembro de 2022 quando Tite se despede da Seleção Brasileira após cair nas quartas de final da Copa no Qatar. Da queda em Doha até dezembro de 2023, a CBF trabalhava com três nomes para a vaga deixada por Tite. E seria um técnico estrangeiro: Carlo Ancelotti, Jorge Jesus e Abel Ferreira. Dos três, Ancelotti é o escolhido. Ednaldo Rodrigues, então presidente da CBF, fecha um pré-contrato com Ancelotti assinado e registrado em Bologna, região Emilia-Romanha ao Norte da Itália, em dezembro de 2023. Seria o início do projeto Ancelotti rumo ao Hexa na Copa de 2026. O italiano teria quase dois anos a remontar a Seleção Brasileira. Processo não anda por causa da bagunça e de interesses pelo poder do futebol brasileiro. Ancelotti só assume a Seleção em maio de 2025, com dois anos de atraso. Esse precioso tempo perdido cobra a conta e contribui para a fracassada campanha do Brasil na Copa 2026. É a primeira parte do inventário da derrota em New Jersey, dia 5 de julho:

Acompanhe aqui a linha do tempo desde a corrida por Ancelotti até o início do trabalho do italiano na Seleção Brasileira em maio de 2025:

De março a dezembro de 2023

CBF escolhe Ancelotti como prioridade na sucessão de Tite. Ednaldo Rodrigues era o presidente da CBF, eleito em março de 2022 em um pleito marcado por manobras jurídicas. Por consenso dentro da entidade e sem indicação externa de algum figurão do futebol brasileiro, se chega ao nome de Ancelotti. O italiano estava no Real Madrid sob contrato válido até junho de 2024. A proposta da CBF: assinar um pré-contrato registrado em dezembro de 2023 com Ancelotti se apresentando à Seleção em junho de 2024, a dois anos da Copa de 2026.

Enquanto isso, a Seleção seria comandada por um treinador brasileiro interino.

Em janeiro de 2023, o presidente Ednaldo Rodrigues entrega a Seleção a Ramon Menezes, técnico de trabalho ruim na Seleção Sub-20. Seria o interino até a chegada de Ancelotti.

Ramon, evidente, fracassa. CBF passa o comando da Seleção a Fernando Diniz em julho de 2023. Diniz deveria seguir interino à espera de Ancelotti até junho de 2024 e seria integrado à comissão técnica do italiano.

No inicio de dezembro de 2023, Ancelotti, enfim, assina pré-contrato com a CBF. Contrato assinado e registrado na cidade de Bologna, onde Ancelotti tem sua base jurídica e gestão de carreira. Não por acaso, em 10 de outubro de 2023, o reitor da Universidade de Parma afirma, em cerimônia em homenagem a Ancelotti, que o treinador assumiria a maior seleção de futebol do mundo, o Brasil, em 2024.

Ancelotti é o novo técnico da Seleção Brasileira
Ancelotti celebra título do Real Madrid com jogadores da Seleção – foto: Instagram

Até se chegar à assinatura do pré-contrato, agentes do estafe e todo pessoal que trabalha para Vini Jr tem papel fundamental para convencer Ancelotti a assumir a Seleção. Jogadores de longa convivência com o treinador italiano, caso de Casemiro, também ajudam a estreitar relações de Ancelotti com a CBF. Sem esses jogadores, a vinda de Ancelotti seria inviável.

Pré-contrato assinado entre Ednaldo Rodrigues e Ancelotti conferia poderes jurídicos à CBF se o italiano rompesse o acordo.

Ednaldo Rodrigues, presidente da CBF – foto: CBF oficial

Mas quem se encrenca é Ednaldo, afastado da presidência da CBF por manobras no poder Judiciário do Rio de Janeiro. Dia 7 de dezembro de 2023, Ednaldo deixa a CBF.

Diante do caos na CBF, com Ednaldo afastado do cargo, Ancelotti recua e desiste da Seleção Brasileira. No dia 29 de dezembro de 2023 anuncia a renovação de seu contrato com o Real Madrid até 30 de junho de 2026.

Enquanto isso, a Seleção colecionava resultados ruins nas Eliminatórias da Copa 2026 e amistosos sob o comando de Fernando Diniz.

De janeiro a dezembro de 2024

Por manobra do ministro Gilmar Mendes do Supremo Tribunal Federal (STF), Ednaldo Rodriguez é reconduzido à presidência da CBF no início de janeiro de 2024.

Começa aí uma disputa entre o Judiciário em Brasília e o Judiciário do Rio de Janeiro pelo poder da CBF. De um lado, Gilmar Mendes e sua família. Do outro lado, a família Zveiter de ligações umbilicais com a CBF e Justiça Desportiva no Rio. Essa disputa levaria à queda definitiva de Ednaldo no fim dessa história.

Mas antes da queda, Ednaldo retoma as negociações com Ancelotti. Sempre com ajuda do estafe de Vini Jr e jogadores de ótimas relações com o treinador italiano.

As negociações se arrastam. Coincidem com momento ruim do Real Madrid na temporada 2024/2025.

O problema é que a Seleção vinha de um ano ruim em 2023. E da cabeça de Ednaldo surge o nome de Dorival Junior enquanto Ancelotti não se decidia pelo Brasil.

No fim de janeiro de 2024, presidente Ednaldo troca Fernando Diniz por Dorival Junior no comando da Seleção.

Dorival Junior. – foto: CBF

Dorival fracassa na Copa América nos Estados Unidos em julho de 2024.

Esquenta a disputa pelo poder na CBF. Turma de Brasília, a que se denominou o grupo de Gilmar Mendes e seu filho Francisco Mendes, contra a Turma do Rio, composta pela família Zveiter e cartolas antigos de gestões passadas da CBF.

Diante do fiasco de Dorival Junior na Seleção Brasileira, Ednaldo aperta o passo a convencer Carlo Ancelotti a rescindir contrato com Real Madrid e assinar com a CBF.

De março de 2025 a julho de 2025

No dia 12 de maio de 2025, enfim, Ancelotti assina com a CBF contrato válido até julho de 2026.

Ednaldo anuncia:

“A seleção brasileira, mais vencedora da história do futebol mundial, será comandada pelo maior treinador do mundo: o italiano Carlo Ancelotti. O treinador cumprirá seu compromisso com o Real Madrid até o final da temporada de LaLiga”.

Ancelotti assina com a CBF dia 12 de maio de 2025. Três dias depois, em 15 de maio, Ednaldo Rodrigues, atolado até o pescoço com denúncias de má gestão e acordos jurídicos complicados, é afastado da CBF por decisão do Judiciário do Rio de Janeiro.

Turma de Brasília e Turma do Rio selam acordo provisório e Samir Xaud é eleito novo presidente da CBF com mandato até abril de 2029.

Samir Xaud no treino da Seleção – foto: CBF oficial

De junho de 2025 a julho de 2026

Carlo Ancelotti assume a Seleção e os primeiros compromissos são os jogos das Eliminatórias contra Equador e Paraguai que definiriam a classificação do Brasil na Copa de 2026.

Sem conhecer a estrutura do futebol brasileiro, sua cultura, casta de poderes e o dia a dia do povo que tem na Seleção Brasileira verdadeira devoção nas Copas do Mundo, o italiano Ancelotti começa a perceber que o trabalho seria árduo.

E um de seus primeiros atos é subir ao Cristo Redentor, cartão postal mais procurado do Rio de Janeiro, e lá no alto receber a benção de um padre da igreja católica.

Ancelotti no Cristo Redentor – foto: CBF oficial

Tudo o que Ancelotti conhecia do nosso futebol eram os jogadores brasileiros com quem trabalhou nos clubes europeus: Roma, Milan, Juventus, Bayern Munique, Everton (Inglaterra), Chelsea, PSG e Real Madrid.

Quando acompanhou o Carnaval de 2026 em Salvador e Rio, teve uma ideia do que era a cultura popular brasileira. O futebol era e é parte disso.

E a Seleção Brasileira não era um clube que estava acostumado a trabalhar onde tinha os melhores jogadores do mundo a sua escolha.

A nova empreitada não se limitaria a seu vasto conhecimento de futebol e conquistas nos clubes. Era preciso entender de fato o que é a Seleção Brasileira e sua história. E isso estava acima do futebol.

Ancelotti não teve tempo de entender essa paixão. Nem como as vísceras da Seleção são expostas a cada quatro anos.

A derrota por 2 a 1 para Noruega, dia 5 de julho nas quartas de final da Copa 2026, escancara o despreparo e falta de tempo para Carlo Ancelotti entender todo o processo.

Haaland Viking – foto: reprodução redes sociais

a seguir: Inventário da Derrota (episódio 2) mostra as escolhas erradas de Ancelotti na convocação dos jogadores, o fator Neymar e a entrega do treinador aos caprichos nababescos da CBF antes e durante a Copa 2026. 


Descubra mais sobre PRÓSPERI NEWS

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.