Itaquerão corre risco de ser interditado. Conheça a história da Arena Corinthians

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Itaquerão pode ser interditado por causa de um vazamento de 10,1 milhões de litros de água na área de parte do estacionamento da arena do Corinthians. Roberto Andrade, presidente do clube, disse nesta terça-feira que “caso exista qualquer percentual de risco, nós não usaremos o estádio. Isso quem vai atestar é a construtora (Odebrecht)”.

A palavra está com a empreiteira. Toda conclusão sobre os motivos do vazamento  deve passar por especialistas. É prematuro dizer agora que o estádio foi concluído às pressas para abrir a Copa do Mundo de 2014 e por isso setores da obra estão comprometidos.

“Acho que é muito prematuro falar sobre isso. A construtora que é a responsável pela obra. Até pelo fato de a obra ainda não estar concluída. A gente já está acionando a construtora para que ela faça toda a verificação, nos dê um laudo e que tenha toda condição para ser usado. Caso exista qualquer percentual de risco, nós não usaremos o estádio. Isso quem vai atestar é a construtora”, disse Roberto Andrade ao SporTV sobre a reportagem de Juca Kfouri publicada na Folha desta terça-feira (01/11).

O vazamento não é o único entrave no Itaquerão. Buracos no piso do estacionamento, rachaduras em paredes do Setor Norte e placas da cobertura, que se soltaram, também entram no pacote dos problemas do estádio.

Diante dessa deterioração das obras na arena, começam a aparecer denúncias de irregularidades, interesses políticos e financeiros sobre a construção da arena inaugurada em maio de 2014.

Jornalista do Estadão na época, acompanhei de perto como nasceu o estádio do Corinthians em Itaquera. Veja:

Agosto de 2007
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Em reunião no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, José Serra, então governador do estado, Ricardo Teixeira e inspetores da Fifa convocaram uma coletiva com a imprensa. Este blogueiro, na época repórter do JT e Estadão, estava lá.

“Chegamos a um acordo (com CBF e Fifa). São Paulo faz a abertura da Copa e o Rio faz a final”, disse Serra.

Serra não garantiu que a sede da Copa em São Paulo seria no Morumbi, o maior estádio da cidade na ocasião – capacidade para 60 mil torcedores.

Alguns meses depois, o então presidente Lula desceu de helicóptero no campo do Morumbi, se reuniu com Juvenal Juvêncio, na época presidente do São Paulo, e disse que o estádio do Tricolor era o mais indicado para abrir a Copa.

Juvenal correu atrás de arquitetos para encomendar a reforma do Morumbi. Quando as plantas ficaram prontas, Juvenal entregou a Ricardo Teixeira e, por tabela, à Fifa, leia-se Jérôme Valcke, secretário-geral da entidade e homem forte na Copa de 2014. Os dois enrolaram Juvenal.

Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, também torcia o nariz contra o Morumbi. Assim como o governador Serra.

Veja o que disse Juvenal Juvêncio neste esclarecedor vídeo abaixo”

Janeiro 2008
Até a CBF e a Fifa vetarem o Morumbi, em julho de 2010, muita articulação foi feita nos bastidores. Com apoio de Serra, Kassab tentava convencer Ricardo Teixeira e Valcke de que a prefeitura poderia construir um estádio em Pirituba. A Fifa queria a construção de um novo estádio e rejeitava as reformas do Morumbi.

Reuniões aconteciam na fazenda de Ricardo Teixeira, no interior do Rio, com Valcke e Kassab. Naquele momento era importante vetar o Morumbi, cujo projeto não atendia às exigências da Fifa.

Enquanto isso, Andrés Sanchez tocava seu projeto de erguer uma arena para 45 mil torcedores, em Itaquera onde funcionava o Centro de Treinamentos das categorias de base do Corinthians. Andrés tinha aval do presidente Lula, que iria convencer executivos da Odebrecht a participar da empreitada.

Junho de 2009
Serra intensifica sua campanha a candidato à presidência da República contra Dilma Rousseff, indicada por Lula. CBF e Fifa continuam reticentes com a possibilidade de o Morumbi ser a sede da Copa em São Paulo. Exigem novo projeto e garantias financeiras.

Junho de 2010
Se esgota o prazo da Fifa dado ao São Paulo, que não havia conseguido garantias bancárias para bancar as reformas no Morumbi. Teixeira diz a este blogueiro e repórteres do Estadão, em Johannesburgo, durante a Copa da África do Sul, que o Morumbi estava fora da Copa do Mundo de 2014.

Agosto de 2010
pres210710Em reunião no Palácio dos Bandeirantes, o governador de São Paulo, Alberto Goldman (Serra havia se licenciado para disputar as eleições presidenciais em outubro), o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab e Ricardo Teixeira, presidente da CBF e também do Comitê Organizador Local do Mundial, bateram o martelo: o novo estádio do Corinthians, ainda na planta, seria a sede da Copa de 2014.

Havia um problema. O Corinthians queria uma arena para 45 mil torcedores. A Fifa exigia no mínimo 60 mil de capacidade, o que faria a arena pular de algo em torno de R$ 480 milhões para R$ 820 milhões. De onde viria o dinheiro?

O BNDES tinha linha aberta de crédito de R$ 420 milhões aos estádios da Copa. Faltavam mais R$ 400 milhões. Kassab ofereceu os R$ 400 milhões em CDI, certificados que seriam comprados por empresários que investiriam na Zona Leste da capital em troca de bônus nos impostos.

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Começam as obras do Itaquerão de responsabilidade de um consórcio entre Corinthians e Odebrecht. Em poucos meses, com novas exigências da Fifa e pitacos dos dirigentes do clube e empreiteira, a obra passaria dos R$ 820 milhões a R$ 1,6 bilhão.

Maio de 2014
Itaquerão fica pronto, após três anos de construção e atropelos com um acidente que matou três operários. O estádio abriu a Copa com jogo Brasil x Croácia em junho. Dali para frente o consórcio teria de correr atrás da grana para quitar o enorme papagaio. Engenharias financeiras foram feitas pelo clube e seus parceiros. Mas a conta ainda não fechou. E já estamos em novembro de 2016.

grupo-selecao-brasileira-itaquera-ivan-07-originalQuanto aos problemas de estrutura, como esse vazamento de 10,1 milhões de litros de água, quem vai apontar a causa e responsáveis são os especialistas. A este Blog do Prósperi coube contar apenas como nasceu e cresceu o Itaquerão, o estádio do Corinthians.

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