Quem tem Felipe Melo corre risco de colher tempestades

Quem tem um jogador da estirpe de Felipe Melo sabe que não vai navegar a vida inteira em águas calmas. É preciso acompanhar seus movimentos com o cuidado que se anda em uma loja de cristais. Um leve esbarrão pode provocar um enorme prejuízo. Depois, nem tem como recolher os cacos. Desde sempre ele tem sido assim.

Não poderia ser diferente ao vestir camisa do Palmeiras e assumir de vez que é um dos condutores dessa nau. Na noite fria da quarta-feira (26/4) em Montevidéu, Felipe Melo sabia que ao final do jogo contra o Peñarol sofreria uma perseguição como um preá pelos falcões. Ou virava um leão e encarava os predadores ou sua fama de destemido se espatifaria.

Por isso ele se matou em campo para o Palmeiras vencer duas batalhas em Montevidéu na Copa Libertadores. A primeira vitória, de virada, foi em cima do Peñarol no seu novo estádio Campeon del Siglo por 3 a 2. E a segunda, no confronto com jogadores e profissionais ligados ao clube uruguaio.

A confusão começou ao final da partida quando ele, Felipe Melo, aquele que falou que se preciso fosse daria tapa na cara de uruguaio, virou alvo de perseguição dos atletas adversários. Correria, brigas, cenas de pugilato e total falta de segurança por parte do policiamento e dos organizadores do jogo. Como se o Palmeiras estivesse metido numa emboscada. As coisas só voltaram ao lugar por ação efetiva de seguranças do clube brasileiro, que conseguiram levar os atletas aos vestiários e dali sair quando a temperatura abaixou.

As consequências da “guerra” só a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) pode esclarecer. Do lado do Palmeiras, Felipe Melo corre risco de ser punido com suspensão de alguns jogos. Do lado do Peñarol, já eliminado da Libertadores, seu estádio deve ser interditado – portões de acesso ao vestiário do time brasileiro foram fechados e os jogadores impedidos de entrar. Como a Conmebol não prima pela coerência, as punições são imprevisíveis.

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Primeira batalha

No jogo, a opção de Eduardo Baptista por três zagueiros não funcionou no primeiro tempo. Palmeiras nem se defendeu pelo alto, como pretendia o treinador, nem no chão. Descoordenado, sem a menor sintonia, se amontoou entre as imediações da grande área e não conseguiu trocar três passes em progressão ao ataque.

Borja, sozinho no deserto, não recebeu uma bola limpa. Todas que foram em sua direção saíram de chutões da zaga.

Laterais Jean e Egidio, que poderiam desfrutar da zaga de três, nem foram ao ataque nem defenderam. Com a bola nos pés, erraram um passe atrás do outro. Guerra e Michel Bastos, encarregados de dar saída ao jogo, jogaram com a dúvida entre marcar e articular. Foram presas fáceis.

Quando o Palmeiras sofreu o gol, como 15 minutos, já estava claro que o esquema idealizado por Baptista estava falido. De braços cruzados à beira do campo, o treinador parecia tão atordoado como seus jogadores. Pagou para ver e levou o segundo gol em outra boa trama dos uruguaios no setor esquerdo em cima de Egidio e Vitor Hugo – lado mais vulnerável do time.

Em 45 minutos, seu time não deu um mísero chute a gol. Conseguiu apenas um escanteio e fez dois cruzamentos, facilmente neutralizados pelos homens de defesa do Peñarol.

Apaga tudo isso no segundo tempo. Baptista voltou com William no lugar de Egidio e Tchê Tchê na vaga de Vitor Hugo. Recolocou a casa em ordem. Michel Bastos saiu do meio e virou lateral. Tchê Tchê deu vida ao meio-campo com suporte a Guerra na saída e Felipe Melo na marcação. Agora era um time com começo, meio e fim.

Jean ganhou confiança para atuar como um lateral de verdade. Percebeu que havia espaço para mergulhar na ponta direita. William e Borja trocavam de função, um pelo outro no papel do camisa 9. Com 17 minutos, e o Palmeiras havia empatado. Dois cruzamentos de Jean e gols de William e Mina.

Ao levar o empate, o Peñarol perdeu o equilíbrio mental e técnico. Não conseguia marcar, muito menos atacar. Em pânico, levou a virada. Mais uma vez Jean cruzou e William completou ao gol, antes dos 30 minutos.

Seguro com a vitória, o time brasileiro continuou na sua toada, com troca de passes e senhor  absoluto da situação. Os uruguaios ainda tentaram uma última cartada em dois escanteios, em vão. E ainda provocaram os brasileiros querendo confusão. A busca era por Felipe Melo.

Segunda batalha

Ao apito final começou outra batalha. Dessa vez campal. Jogadores do Peñarol cercaram os do Palmeiras. O alvo deles era mesmo Felipe Melo. Correria, tentativas de agressão. Felipe se defendeu, acertou alguns socos em um jogador uruguaio que o perseguia, até chegar os portões de acesso aos vestiários.

Acontece que os portões foram fechados e os palmeirenses não tinham como deixar o campo. Foram encantoados. Pelo menos sete brutamontes, dos 20 do corpo de segurança do time brasileiro, conseguiram abrir o portão e levar os atletas até o vestiário. Empurra-empurra. Uma nova confusão se estabeleceu, dessa vez nas arquibancadas envolvendo torcedores do Palmeiras e do Peñarol.

A batalha se estendeu por mais de 35 minutos, até a calma se estabelecer nos subterrâneos do estádio. Quando tudo parecia mais acomodado no seu lugar, foi a vez de Eduardo Baptista desabafar aos gritos contra setores da imprensa que disseram que ele era um treinador maleável ao não escalar William no jogo contra a Ponte Preta por ordem de dirigentes e empresários. Aos berros, falou grosso e disse que era tudo mentira. Evocou a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, que, segundo ele, foi eleito em cima de mentiras da imprensa. Deu um murro na mesa. Respondeu duas a três perguntas e foi embora quase sem voz.

Na liderança do Grupo, o Palmeiras avança à segunda fase da Copa Libertadores. A previsão é de novas tempestades.

(texto publicado no CHUTEIRA FC)

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