Inventário da derrota (1): A Copa perdida do menino Ney

 

Chuteira FC na Copa do Mundo 2018Luiz Antônio Prósperi, de Moscou / Rússia

Uma semana depois de o Brasil ser eliminado na Copa da Rússia, Blog do Prósperi apresenta inventário da derrota em cinco episódios. Acompanhe:

Neymar esperava deixar a Rússia dia 15 de julho glorificado. Beijaria a taça e diria ao súditos que um novo monarca assumia a regência do futebol. Embarcou antes, neste 7 julho de 2018, derrotado e motivo de chacota mundo afora. Tema de vídeos de cai-cai, desaforos nas redes sociais, excomungado, e nada idolatrado em seu próprio país. A prova cabal do fracasso de seu projeto. O jogador de 26 anos quis o mundo nas mãos, a Copa do menino Ney. Não vingou. Volta para casa de mãos vazias.

Passadas 24 horas da queda em Kazan, publicou seu testemunho no Instagram, como um testamento.

“Difícil encontrar forças pra querer voltar a jogar futebol, mas tenho certeza que Deus me dará força suficiente pra enfrentar qualquer coisa. Posso dizer que é o momento mais triste da minha carreira. A dor é muito grande porque sabíamos que poderíamos chegar, sabíamos que tínhamos condições de irmos mais além, de fazer história… mas não foi dessa vez”.

Esta é a segunda Copa na carreira der Neymar. Na primeira, em casa, saiu de cena vítima de uma pancada nas costas do colombiano Zuñiga nas quartas de final. Na segunda, não teve força para conduzir a caravana até Moscou. Parou também nas quartas.

Até o dia 6 de julho em Kazan, o astro da Seleção Brasileira havia convivido com dissabores, críticas e salvo-conduto do comando da Seleção. Era alvo da fúria de treinadores, como Juan Carlos Osório e o aposentado Fabio Capelo, do ex-goleiro dinamarquês Schmeichel e de veículos de respeito da imprensa internacional. Todos o acusando de simulador. Desafetos no Brasil diziam que era o maior sonegador de impostos da pátria. Poucos elogios, a maioria deles de aduladores.

No momento mais crítico, Neymar pai interviu pedindo trégua na guerra entre os “antis” e os “parças” – o Brasil acabava de passar da primeira fase da Copa.

O choro após dura vitória por 2 a 0 contra a Costa Rica, quando fez seu primeiro gol no Mundial da Rússia, era a senha de que muita mágoa e luta estavam represadas.

Derramadas as lágrimas e enquanto a Seleção estava viva, Neymar ainda era o “menino Ney” nas celebrações e manifestos no Instagram, sua janela para o mundo.

Eleito melhor jogador na vitória (2 a 0) contra o México nas oitavas de final, disse, ao ser questionado na conferência de imprensa, que as críticas de simulador e cai-cai tinham como objetivo minar seu lado emocional e seu futebol. Não dava a mínima ao que diziam. “Não me incomoda. Estou aqui para ganhar (a Copa), não para fazer outras coisas”. respondeu.

Não por acaso, naquela noite vitoriosa em Samara passou todo feliz depois do jogo na zona mista – um trajeto entre os vestiários e ônibus nos subterrâneos dos estádios da Copa em que os jogadores dão entrevistas relâmpago a centenas de jornalistas. Tamburilava seu troféu de “jogador Fifa da partida”. Sorria como um menino com presente novo nas mãos.

No íntimo, Neymar tinha absoluta certeza de que nos momentos fáceis e nos mais complicados resolveria com seu talento e dote de jogar bola. O “menino Ney” no estado puro. Daí dizer que “não me incomoda”.

Não era verdade que não se sentia incomodado. Tite e comissão técnica trataram de abraçar e proteger o astro. Blindaram-no a ponto de Tite responder direto aos críticos mais graúdos. Neymar podia ser Neymar a hora que fosse na Seleção.

Mas aí a Bélgica apareceu. Deu um nó em Tite e em seus inúmeros assessores. E Neymar não conseguiu com seu talento resolver a questão mais difícil do Brasil na Copa.

Ao final do jogo se viu sozinho no gramado em penitência. Tite não correu até lá para o proteger debaixo de seu paletó preto.

Na saída da Arena Kazan, três horas após a derrota, puxou o cordão dos derrotados na zona mista. Mãos no bolso, cabeça baixa e negando entrevistas a uma centena de jornalistas brasileiros e de outros países.

Um dia depois da queda na Copa, na melancólica despedida da Seleção em Kazan neste sábado (07/7), Edu Gaspar, gerente da trupe, defendeu o astro:

“Sempre falei, desde que comecei a conviver com o Neymar, que não é fácil ser Neymar. É difícil. É um atleta, deixou de ser menino. Ele merece todo meu elogio, esquecem o tempo que ele ficou parado antes da Copa. Ficou três meses parado, só treinou três semanas. Fez só dois amistosos para estrear. Se não fosse Neymar, não sei se outro atleta conseguiria. É um atleta que é criticado e elogiado se dá sorriso, se chora, se dá entrevista…”

“Eu estou sempre ao lado dele, para ajudá-lo. Neymar foi o atleta que menos reivindicou alguma coisa. Cumpriu todas as normas, não fez pedidos. Chega a dar pena o que esse menino sofre. O contrário também é verdade, porque se enobrece também. Meu dia a dia com o Neymar é espetacular. Só tenho de elogiar”.

Poucas horas depois das declarações de Edu Gaspar, Neymar relatava no Instagram que está “difícil encontrar forças pra querer voltar a jogar futebol”.

Era a mais pura tradução de seu sentimento diante do projeto fracassado de virar o novo rei pós-Cristiano Ronaldo e Messi. Embarcou no voo fretado pela CBF e voltou para casa. A Copa que seria sua não é mais do menino Ney.

Próximo episódio: A Copa deslumbrada de Tite 

(material publicado no chuteirafc)

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