Inventário da derrota (2): A Copa deslumbrada de Tite

Chuteira FC na Copa do Mundo 2018Luiz Antônio Prósperi, de Moscou / Rússia

Primeiros sinais de que a unanimidade não faria bem apareceram na convocação dos 23 jogadores para o Mundial. Nenhuma contestação, mesmo ao chamar Fagner, mais de um mês parado por lesão e com poucos minutos de um jogo oficial pela Seleção, o desconhecido Taison – coadjuvante no futebol ucraniano –, Fred, Renato Augusto em precárias condições físicas e militando na China. E por não dar importância, por exemplo, a Arthur do Grêmio, a maior revelação do futebol brasileiro já abocanhado pelo Barcelona. Sem falar o duro golpe com a lesão de Daniel Alves e poucas opções testadas para a lateral-direita.

Tite se despediu do país convicto de que tudo funcionaria à perfeição. Sua numerosa comissão técnica – 23 profissionais e mais dez da equipe de apoio – estava aparelhada até os dentes para dar suporte a suas ideias. Se tudo havia corrido bem nas Eliminatórias, o que dizer na Copa?

Começa o Mundial e fica nítido o deslumbramento de Tite. Na primeira coletiva pré-jogo contra a Suíça e depois doduro empate na estreia na Copa, transmitiu segurança de que tudo estava sob controle, apesar do fraco futebol da Seleção e do desequilíbrio emocional ao sofrer o gol de empate no começo do segundo tempo para um rival sem camisa. Não houve um contraditório nas perguntas, nem reconhecimento de sua parte que algo não estava bem.

“Tem ansiedade dos jogadores, a minha própria, inerente a uma estreia em Copa. Todos nós sentimos, é normal”, disse, ao explicar o comportamento fora da curva do time, de peças como Neymar e o jeito de o time jogar.

Vem o segundo jogo diante de um adversário sem tradição e de poucos recursos, apesar do bom desempenho cometa na Copa de 2014, e a coisa não anda. Costa Rica enquadrava o Brasil com ferrolho e anti-jogo. Dois gols redentores saíram nos acréscimos depois dos 90 minutos. Neymar desaba a chorar. Tite volta a discursar altivo. Brasil perdia Douglas Costa, decisivo no segundo tempo no lugar de Willian, para construir a vitória.

“Merecíamos o resultado. Tempo passava e eu falava, meu Deus o gol não vai sair, não pode ser. A equipe se comportava bem, jogadores tiveram atitude, concentração, determinação, não se abalaram até a construção dos gols”, disse Tite com brilho nos olhos e sorrisos ao lembrar do tombo que levou na comemoração do primeiro gol. Nenhum contraditório.

Na véspera do terceiro jogo, o decisivo contra a Sérvia, lá estava Tite gigante na coletiva tendo mais uma vez ao seu lado o auxiliar Cleber Xavier (quem?) a esquadrinhar as virtudes táticas do Brasil e a descrever minúcias dos sérvios. Perguntaram a Tite sobre o choro de Neymar.

“Declaro à nação, não pelo posto que ocupo, por ser o que sou, que o Tite chorou. Chorou quando vencemos o Equador (sua estreia no comando da Seleção em 2016). Chorou de orgulho…”

Rebateu ainda que não pensava em alterar a Seleção, apesar das repetidas atuações precárias de Willian, Paulinho e Gabriel Jesus. Naquela altura da Copa, Fagner já era titular com a lesão de Danilo.

“Desde o Corinthians não costumo mudar minhas equipes”, avisou.

Brasil bate a Sérvia com uma atuação a convencer os céticos, apesar da pane geral no começo do segundo tempo que por pouco não leva ao caos. Neymar joga bem, mais coletivo. Willian se desdobra para ajudar Fagner, feito de gato e sapato por Koralov.

Tite imagina que tudo estava no seu lugar. Neymar no pico do auge novamente. Único problema era Marcelo, baixa com oito minutos de jogo com espasmo muscular nas costas. Entra Filipe Luís, outro que chegou ao Mundial depois de quase um mês parado por fratura na fíbula, e se sai bem.

Vencida a primeira fase, a Copa entra no mata-mata. Dentro da comissão técnica, ao menos nas coletivas de Tite e de seus auxiliares, tudo tranquilo, seguro. Adversário era o México, aquele que joga como nunca e perde como sempre.

Trinta minutos de dureza, Fagner leva um baile de Vela e os mexicanos assustam a Seleção. Mas viram presa fácil no segundo tempo. No primeiro gol, Tite sai correndo do seu reservado como um alucinado a comemorar no bolo de jogadores até a linha de fundo. E vira meme na internet.

Neymar é condecorado o melhor do jogo. Abriam-se as cortinas de que o campeão Brasil voltou. Na coletiva de imprensa, Tite, ao lado de seu auxiliar da vez, Sylvinho, reforça o discurso de “entrega, atitude, determinação, característica da equipe de atacar, as triangulações, os dribles no último terço do campo”. Um assombro. Nenhum contraditório.

Tite blinda Neymar diante das críticas do treinador do México, Juan Osório, Fabio Capelo e o ex-goleiro dinamarquês Schmeichel. “Questão de hierarquia. Técnico responde a técnico…”, disse Tite, com brilho nos olhos, inocentando Neymar acusado de ludibriar a arbitragem.

Brasil está nas quartas de final. Enfrentaria a Bélgica. Na coletiva de imprensa pré-jogo, Tite faz um inventário de sua carreira, do Guarani a um clube da arábias, do quanto aprendeu para chegar até a Copa do Mundo. Seu auxiliar fala dos sistemas táticos da Seleção, descreve a Bélgica. Nenhum contraditório.

Do outro lado, Roberto Martinez, técnico dos belgas, deixava claro que mudaria de esquema para enfrentar o Brasil. Diante da escalação anunciada era nítido que reforçaria a marcação e daria liberdade a De Bruyne, o gerador do jogo de sua equipe, e deixaria Hazard aberto na esquerda em cima de Fagner.

Até agora, passados dois dias da queda do Brasil na Copa, não se sabe porque Tite não mudou o esquema da Seleção sabendo que o adversário havia preparado uma armadilha.

Tite insistiu em Willian e Paulinho, mesmo sem contar com Casemiro, suspenso pelo segundo cartão amarelo. Escalou Fernandinho, fez voltar Marcelo e confiou que Thiago Silva e Miranda segurariam o rojão, como sempre. Onde estavam seus estudiosos auxiliares de comissão técnica que não perceberam que Hazard, um dos mais talentosos do time belga, poderia explorar as deficiências de Fagner? Que De Bruyne não poderia jogar livre, leve e solto?

As convicções de Tite falavam mais alto. Brasil fecha primeiro tempo com 2 a 0 nas costas, mas poderia ter levado outros dois. E só reorganiza a casa ao sacar Willian e Paulinho e Gabriel Jesus, mesmo assim com Fagner bailado por Hazard e Marcelo liberando sua avenida. Era tarde. Bélgica 2 x 1.

Neymar não deu conta de salvar o Brasil. Courtois, um dos melhores goleiros da Europa, fez o que lhe cabia.

Na coletiva, apertado para não chorar, Tite disse que “dói falar, mas foi um jogaço de futebol”. Questionado se o aleatório, o circunstancial do futebol, determinou a queda do Brasil, Tite, resignado, concordou.

Mesmo com a derrota, “a nossa primeira oficial em 26 jogos sob nosso comando”, disse que o futebol reserva esses momentos. Seu legado? “Cabem a vocês discernirem”, passando a bola à imprensa e críticos.

Tite pagou por passar muito tempo deslumbrado com o resgate do bom futebol da Seleção antes do Mundial. Quando chegou a Copa se viu cercado de dezenas de aprendizes. Do chefe da delegação Rogerio Caboclo (novo presidente da CBF) ao filho Matheuzinho (auxiliar técnico e tecnológico). E ele, Tite, um aprendiz.

Não se ganha uma Copa do Mundo apenas por fidelidade às suas convicções e muito menos por ser unanimidade nacional. Adversários estudam o Brasil muito mais que o Brasil estuda seus rivais. A Bélgica continua na Rússia. Nós voltamos para casa.

Leia mais:

A Copa do menino Ney

Próximos capítulos:

A Copa desastrada da CBF

A Copa imperfeita de duas gerações

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