Mazinho expõe as mazelas da Seleção Brasileira e o legado da Copa de 94

 

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O futebol brasileiro mudou para pior após a conquista da Copa do Mundo de 1994. Quem banca essa verdade é Mazinho, volante do Palmeiras e titular do time de Parreira naquele Mundial nos Estados Unidos.

O ex-jogador expõe as vísceras do legado do tetra e traça um retrato cruel do momento dos nossos jogadores da Seleção. Pai de Thiago Alcântara, do Bayern de Munique, e Rafinha, do Barcelona, ele revela ainda os motivos que levaram um dos seus filhos ter optado por defender a Seleção da Espanha e não a do Brasil.

Veja o que ele disse em entrevista ao jornal espanhol El País, um dos mais importantes diários da Europa e com edição digital no Brasil.

Jogadores da Seleção Brasileira não têm fome?

“Não sei, mas não é como antes. Quando fui convocado para a Copa de 94 eu comprei fogos de artifício e os disparei na minha casa, de tanta alegria. Antes nós pensávamos muito na camisa. Agora, não sei. Não sei se é por causa do dinheiro, ou se muitos preferem sair de férias. O problema não é Dunga. Faltam-nos jogadores criativos”

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Futebol brasileiro deixou de ser vistoso?

“Há pouco tempo, pensava: quando perdemos a técnica? Acho que foi quando ganhamos a Copa do Mundo de 1994, porque foi quando mudamos o esquema de jogo. Nunca antes uma equipe brasileira tinha jogado no 4-4-2. O nosso futebol era um 4-3-3 ou 4-1-5. Não tínhamos homens fixos no meio-campo. Mas, pela necessidade de ganhar um título nos Estados Unidos, mudamos o esquema. Na época, fazia 24 anos desde a última vez que o Brasil havia conquistado uma Copa do Mundo e Parreira pensava que tinha que igualar a força europeia. Ele deixou Bebeto e Romário à frente, sem preocupações defensivas, e os outros tinham de trabalhar como loucos. A partir daí os clubes brasileiros começaram a copiar o sistema. Esse futebol cheio de combinações que tínhamos parecia lento porque os jogadores não se movimentavam, mas não era verdade. Corria a bola, não os jogadores. Ninguém era capaz de nos roubar uma bola. Não havia essa pressa”

O resultado é mais importante do que o jogo?

“Sim, porque se um treinador perde três jogos vai para a rua e isso os deixa inseguros. Não existe um plano a médio ou longo prazo. Tudo se resume ao resultado. Começamos a jogar com “operários” e os jogadores mais técnicos foram ficando de lado. Acabaram os camisas 10, acabaram os pontas, e já não produzimos tantos grandes laterais. Hoje jogamos em função do Neymar.”

É impossível não depender de um jogador como o Neymar?

“É normal depender de um jogador assim. Acontece com a Argentina em relação ao Messi, e isso que eles têm muitos jogadores de qualidade. A presença dele muda os automatismos, que quando não existem a equipe não sabe o que fazer. Claro que você pode ter um jogador que resolva uma partida, mas você tem de pensar no coletivo. E isso é o que acontece com o Brasil. Criou-se uma dependência tão grande do Neymar que quando ele não joga alguma coisa falha. Não há plano a médio ou longo prazo. Tudo se resume no resultado”

Neymar é o último expoente da essência do jogador brasileiro?

“No momento não podemos falar de outro jogador. Talvez amanhã surja outro jogador importante, mas agora não há outro. Em 70 era o Pelé e mais quatro em volta dele; em 82 tínhamos Sócrates, Zico e Falcão, que eram o máximo. Em 90 e 94 havia jogadores importantes. Antes, cada time no Brasil tinha cinco jogadores de nível internacional. E quem não era torcedor do Flamengo ou do Fluminense sabia o time que tinham. Hoje, eu que sou torcedor do Vasco de Gama, não sei a escalação do time. Perdemos essa fábrica de jogadores”

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Fica triste que seu filho Thiago não jogue pelo Brasil?

“Fico, sim, mas não é culpa dele. Foi culpa da CBF. Em 2006 ou 2007 ele recebeu a primeira convocação para a seleção espanhola sub-17. Eu não queria e telefonei para o Brasil, todos os meus amigos da seleção de 94 trabalhavam na CBF. Disse a eles que aqui na Espanha eles deveriam observar três jogadores: Thiago, Rafa e Rodrigo. Três jogadores que estavam surgindo muito bem. E eles disseram que a política era que não queriam jogadores formados fora do Brasil. “Somos brasileiros”, eu disse a eles. Mas se em casa nos dizem não, então vamos jogar para a Espanha. Mas voltemos ao que eu estava falando, dos interesses que existem no mundo do futebol. Os grupos de empresários entram no meio e querem que joguem na seleção os seus jogadores que atuam nos clubes do Brasil, porque se jogarem na seleção poderão se vendidos para clubes da Europa. Ninguém fez dinheiro com o Thiago. Tem muita gente trabalhando de uma forma muito suja no futebol”

Sem comentários. Mazinho disse tudo. Veja com quem ele jogava quando foi convocado para defender a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 94:

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