De Gascoigne a Cristiano Ronaldo, farrapo e vida no futebol

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Gascoigne com a camisa da Inglaterra na Copa do Mundo de 90 na Itália

Conheci Paul Gascoigne na Copa do Mundo de 1990 na Itália. Era um jovem cotado a craque imortal dos ingleses. Jogava na seleção armada por Bobby Robson, um treinador de fino trato e um dos poucos sábios do futebol. Irreverente. Sem nexo. No campo, incansável como um leão na caça de carne fresca. Jogava muita bola.

Gascoigne não gostava de aparecer. Evitava repórteres como a noite esconde o dia. Brincalhão nos treinos, cara de menino, com 20 e poucos anos, louco por uma fuzarca. Estilo roqueiro dos garotos de Londres. Gostava de cerveja. Era uma pedra preciosa do time de Bobby. Robusto como uma rocha e um dínamo com a bola nos pés, sempre vertical em busca dos gols. Ave rara no futebol que se praticava na Inglaterra nos ano de 1980.

Lembro que arrancar uma entrevista dele era quase impossível como sobreviver a um Tsunami. Repórteres como eu, que cobríamos a Inglaterra em Pula, lugarejo próximo a Cagliari, na Sardenha, fizemos de tudo para convencê-lo a falar com a imprensa. Depois de alguns dias de insucesso, um jornalista da Gazzetta dello Sport teve a brilhante ideia de elaborarmos cinco perguntas a Gascoigne por escrito em uma folha de um bloquinho de anotações.

Soccer - World Cup Italia 1990 - Quarter Final - England v Cameroon - Stadio San PaoloCinco perguntas sobre futebol, sua vida, a Copa e a seleção inglesa. A folhinha foi entregue ao assessor de imprensa da Inglaterra, que, sob nossos olhos, a entregou a Gascoigne. Tínhamos de esperar pelas respostas do garoto até o dia seguinte. Nomeamos o repórter experiente da Gazzetta como nosso porta-voz. Caberia a ele receber a folha com as respostas escritas pelo jogador.

No dia seguinte voltamos a Pula e, antes do treino da Inglaterra, o jornalista da Gazzetta se dirigiu até o assessor e recebeu o papel com as respostas. Gascoigne respondeu quatro das cinco questões. Nenhuma delas com algum sentido. Misturou rock com futebol. Apenas em uma delas, se ele se achava o melhor jogador inglês da atualidade, respondeu com alguma coerência. “Cabe a vocês (imprensa) julgar”. Demos por vencidos.

A Inglaterra acabou aquela Copa de 90 derrotada nos pênaltis pela Alemanha nas semifinais. Gascoigne deixou o Mundial da Itália como uma das grandes revelações do torneio. Forte, habilidoso, perfil de craque e ídolo de gerações, o garoto não levou o futebol a sério.

cr7---os-segredos-da-maquina-capaSe bem orientado, Gascoigne teria tudo para ser um Cristiano Ronaldo da sua época. Não vingou. O craque português enfrentou problemas no início da carreira. Aprendeu que só iria em frente se fizesse do seu corpo uma máquina. Se submeteu a todos os tipos de treinamentos, do físico ao mental, como bem explica o livro “CR7, segredos da máquina”, lançado em 2014.

Cristiano Ronaldo virou escravo de seu corpo e de sua mente. Acaba de levantar a taca de campeão da Eurocopa com Portugal.

No mesmo dia em que Cristiano sacudia Paris na coroação da Euro, a imprensa inglesa flagrava Paul Gascoigne vagando por ruas de Londres apenas com roupão sobre o corpo castigado pelo álcool. Na boca, em vez do sorriso fácil e cativante dos tempos da Copa do Mundo de 90 na Itália, pendia um cigarro torto.

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Gascoigne em Londres no mesmo dia que Cristiano Ronaldo era campeão da Eurocopa

 

 

BOA LEITURA
Aproveito a história de ídolos do futebol contada no post acima para recomendar o livro do jornalista e escritor Chico Bicudo, um libelo do futebol.

“Crônicas Boleiras – de Francisco Bicudo” é o prazer da boa leitura. Custa R$ 31 na livraria virtual da Editora Chiado (https://www.chiadoeditora.com/livraria cronistas-boleiras)

capaebookcrnicas_boleirasApaixonado por futebol, santista roxo e por ler e escrever crônicas, Francisco Bicudo, professor e escritor, lança seu segundo livro sobre histórias futebolísticas. Herdeiro de “Memórias de uma Copa no Brasil”, lançado em 2014, “Crônicas Boleiras”, também da editora Chiado, relata em 37 crônicas e 186 páginas o amor do torcedor e autor pelo esporte mais popular do país.

Paulistano, 44 anos, é formado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e mestre em Ciências da Comunicação pela mesma universidade. É apaixonado por futebol.

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