Final das finais eleva Messi ao céu e consagra Argentina

foto: Twitter Fifa oficial

Argentina pinta o mundo de azul e branco. Abençoada por seus ícones, de Diego Maradona ao Papa Francisco, 86 anos completados na véspera da glória eterna dos argentinos, time de Lionel Messi chega ao céu. Diante de 88.966 pessoas no estádio Lusail, derrota a França na cobrança de pênaltis (4 a 2) depois de 120 minutos inenarráveis de um jogo que acabou em 3 a 3 e que parecia nunca acabar. Um desfecho arrepiante na final das finais na história das Copas,

Lionel, Lionel Messi agora também é campeão do mundo. Não há mais nada a dizer desse jogador que chega ao Olimpo. Definitivo.

O Jogo

Primeira bola da França é destinada a Mbappé. Não a alcança, acossado por uma vaia estrondosa. Sintomas de um primeiro tempo que seria da Argentina do começo ao fim.

Estruturada a anular Griezmann e Mbappé e impor seu jogo, seleção argentina não da a menor chance aos franceses. Não desperdiça um lance, não desiste de nenhuma dividida, não abre mão de vencer, de conquistar território e a taça. Joga como se joga uma final de Copa do Mundo.

E surpreende os Le Bleus com a arte dos dribles e investida de Di María na ponta-esquerda. Toda bola adquirida no campo francês era imediatamente destinada a Di Maria.

Di Maria faz de seu marcador lateral Kounde gato e sapato. Humilha com dribles desmoralizantes. Joga como se joga um sul-americano acostumado a fazer a bola sorrir.

Quando Kounde se distraiu, deixando ao atacante Dembelé a ingrata missão de marcar Di Maria, não se esperava outra coisa: pênalti.

De novo, saem os coadjuvantes e entra o artista principal: Messi. Pega a bola. Coloca na marca da cal. Fecha e abre os olhos no tempo de um sonho. Bate leve. Argentina 1 a 0, aos 23.

Gol de Messi. Um prêmio à seleção decidida a vencer. França entrava no redemoinho sem saber como sair da ventania.

Agora a bola vem da defesa. Franceses todos no campo argentino. Cai no pé de Messi. Giro rápido até Molina, dali até garoto Julián Álvarez e virada do outro lado encontra Di Maria sozinho no Obelisco de Buenos Aires. Um toque só. Argentina 2 a 0, aos 36.

Assustado com uma possível goleada, Didier Deschamps troca Giroux por Thuran. E manda Mbappé jogar de centroavante. Quem sabe ali na zona central do gol, o craque francês teria mais chance de aparecer. Mas essa conversa ficaria para o segundo tempo.

Argentina volta com o mesmo pensamento. Se impor sempre. E a cada falta recebida tratava de aquietar o jogo. Esfriar o máximo possível e aumentar tensão francesa. E buscar Di Maria, enquanto tivesse fôlego, deixando Messi na zona de distração.

Di Maria suporta até os 20 quando o oxigênio acaba. Entra o lateral-esquerdo Acuña. Prevenção contra um adversário que deveria vir com tudo.

Jogo chega aos 30 minutos. Deschamps troca Griezmann, nulo até ali, e Hernandez pelo volante Camavinga e o atacante Coman. Passa a ter quatro homens de ataque com Muani, Coman, Mbappé e Thuran – quatro jovens incendiados.

Torcida argentina ensaia olé. Em um erro da defesa, Otamendi faz pênalti em Thuran, ao 35. Mbappé bate e diminui. França 2 a 1.

Segura a França agora. Bola roubada de Messi chega até Mbappé, sai um torpedo emendando de primeira. França 2 a 2.

Restavam ainda dez minutos de jogo. Torcida argentina se assusta e passa a viver a tensão, antes prioridade dos franceses.

França, infernizada com seus garotos na linha de frente, encantoa Argentina. Chega perto de virar o jogo. Por um triz a bola não entra em lance de Thuran.

No último ato, Messi aparece. Limpa a seu jeito e bate pesado de pé esquerdo, Llori defende. A decisão vai à prorrogação com vantagem dos franceses de pulmão cheio.

Mais 30 minutos de cortar o coração ou elevar ao céu.

Argentina não tinha fôlego. Restavam poucas ideias. Mas nos 15 minutos, quem teve duas chances foram os companheiros de Messi. Duas vezes com Lautaro Martinez que havia entrado no lugar de Alvarez. Perdeu as duas.

Dois lances que trouxeram a massa azul e branca ao jogo novamente. E esperar por alguma genialidade de Messi.

Destino também é regra no futebol. Também é obra de Deus. No caso, do futebol.

Não sabemos de onde vem, mas ele vem. No contra-ataque, Lautaro bate cruzado, Lloriz rebate e Messi faz o gol: 3 a 2.

Argentina mais uma vez a um passo da glória. Outra vez Mbappé estraga a coroação final de Messi. Pênalti a favor da França, que ele mesmo conseguiu em chute desviado no braço do argentino. Mbappé bate: 3 a 3. O oitavo gol de Mbappé na Copa.

Messi desolado olha para o nada em busca de consolação. Encontra tempo de servir seus colegas de infortúnio e no fim quem faz defesa de milagre é Emiliano Martinez em chute de Muani.

A final da Copa, ou a final das finais, uma das mais eletrizantes e perfeitas da história, seria decidida nos pênaltis. Incrível, mas era verdade.

No sorteio se definiu gol das cobranças onde se concentrava maior torcida da Argentina.

Mbappé abre a série com gol. Messi responde com sangue frio e gol.

Vaias assustadoras a Coman. Ele bate e Martinez defende. Dybala bate e converte. Argentina na frente.

Tchouaméni, sob vaias de doer os ouvidos, erra. Paredes acerta o seu. Argentina 3 a 1.

Muani ameniza dor francesa e marca. Destino nos pés de Montiel. Era bater e entrar em êxtase. Montiel confirma e decreta Argentina campeã, tricampeã do mundo. Doha vira Buenos Aires e Buenos Aires louva um novo Deus.

Lionel, Lionel Messi, enfim, sentia o doce sabor de ser campeão mundial. Não há mais nada acrescentar na sua vida de jogador de futebol. E o futebol agradece.

Doha, 18 dezembro, 2022. Por Luiz Antônio Prósperi