Luiz Antônio Prósperi – 16 julho 2026 (15h35) –
Série Inventário da Derrota do Brasil na Copa do Mundo 2026 chega a seu quarto e último episódio com Ancelotti e jogadores fugindo da torcida brasileira pós-derrota para Noruega. Conta também a falta de rumo da CBF e falhas da entidade na gestão da Seleção durante a Copa. O projeto para o ciclo 2030. E a incerteza da permanência de Carlo Ancelotti até 2030.
Nos três episódios do Inventário da Derrota contamos a tardia chegada de Carlo Ancelotti ao comando da Seleção em 2025 e as vísceras expostas da CBF. A falsa ilusão de Ancelotti de que teria entendido o que é o futebol brasileiro, nossa cultura, e a sua concordância com a soberba da CBF no trato da Seleção. E os equívocos de Ancelotti na condução do time e de jogadores nos quase 40 dias de Copa do Mundo nos Estados Unidos.
Acompanhe os caminhos de nossa derrocada e o que vem pela frente até a Copa de 2030. O nosso antigo futuro.
Antes de entrar de fato no #episódio 4 desse Inventário da Derrota, conto que a inspiração do título “O antigo futuro da Seleção Brasileira” vem do livro “O antigo futuro”, do genial escritor brasileiro Luiz Ruffato, lançado em 2022 pela editora Companhia das Letras. Recomendo a leitura. O assunto não é futebol, mas se encaixa aos destinos da Seleção.

Por que antigo futuro?
Simples, vamos partir para 2030 repetindo o que não funcionou no passado como se fosse um novo futuro.
Então, nesse episódio 4 do Inventário da Derrota começa com a fuga, isso mesmo, fuga de Carlo Ancelotti, jogadores e dirigentes da CBF depois da queda diante da Noruega dia 5 de julho em New Jersey. Brasil derrotado nas oitavas de final. Único dos favoritos ao título da Copa 2026 a cair nas oitavas.
Estamos nos subterrâneos do estádio MetLife, domingo 5 de julho à noite, pouco mais de duas horas depois da derrota para Noruega. Mais de 300 jornalistas, entre brasileiros, noruegueses e outros tantos de vários países, aguardam a saída de jogadores das duas seleções à espera de declarações sobre o jogo e tudo o que se passou com a vitória norueguesa e o colapso do Brasil.
Vini Jr, Matheus Cunha e Danilo se dignam a responder perguntas da imprensa ali naquele sufocado recinto destinado às entrevistas – um labirinto serpenteando os subterrâneos do estádio. Neymar, assim como a maioria de seus companheiros, não pronuncia uma única palavra. Sai apressado e cabisbaixo, gesto comum aos derrotados.
CBF comunica na segunda-feira, 6 de julho, um dia depois da derrota, que os jogadores, Ancelotti, comissão técnica estariam dispensados. Os que se interessassem a voltar no voo fretado da CBF de New Jersey ao Rio de Janeiro poderiam embarcar na terça-feira, dia 7. Apenas Danilo (Flamengo), segundo a CBF, embarcou. Os demais jogadores e comissão técnica seguiram outros rumos. Fugiram da volta ao Brasil.
Carlo Ancelotti foi para Vancouver, no Canadá, ao encontro de sua família. Sua mulher é de Vancouver.
Vini Jr partiu para Ibiza, uma das ilhas Baleares, arquipélago da Espanha no Mar Mediterrâneo. Ponto de veraneio de dez entre dez boleiros em dias de férias.
Neymar pula de New Jersey para Las Vegas, paraíso da jogatina nos EUA. Passaria a noite da ressaca numa mesa de pôquer, uma de suas predileções de lazer e uma de suas fontes de renda.

Nem Ancelotti, nem Neymar, nem Vini Jr, nenhum jogador, muito menos o presidente da CBF tiveram o respeito de desembarcarem juntos no Rio de Janeiro e a conceder uma entrevista coletiva para dar satisfações ao torcedor brasileiro. Nada. Zero.
Tudo o que a CBF fez foi divulgar um vídeo no seu Instagram se rendendo à “dor da torcida” e a promessa que em 2030 tudo vai ser diferente. Um vídeo de auto-ajuda. Desnecessário e fora de hora.
Quase dez dias depois da queda na Copa, CBF convoca dirigentes de federações e cartolas em geral para um balanço da temporada no futebol brasileiro e o “futuro da Seleção Brasileira”.
Futuro esse que começa já em 2026 com a integração de trabalhos nas seleções de base (Sub-15, Sub-17 e Sub-20). E cria a seleção Sub-16, como parte da transição entre as gerações de 15 e 17 anos.
Essa integração de seleções de base seria ou será um dos alicerces do projeto Copa do Mundo 2030. A base a serviço da Seleção principal.
“A integração entre as categorias de base é um dos pilares do nosso trabalho. Queremos que os atletas vivenciem uma mesma filosofia de jogo, entendam a identidade da Seleção Brasileira e tenham uma transição cada vez mais natural entre as categorias”, disse Samir Xaud, presidente da CBF.
Faltou Xaud explicar o que ele e seus pares entendem por “identidade da Seleção Brasileira”.
CBF não informa se Ancelotti participou das reuniões para discutir e contribuir neste novo processo das seleções de base e Seleção principal
A CBF mesmo já fez várias tentativas de integração das seleções de base com modelo único de trabalho e propostas visando a Seleção principal. Esse processo passou por tentativas com Vanderlei Luxemburgo entre 1998 e 2000. Felipão, 2001 e 2002. Dunga, 2010. Mano Menezes, 2012. E até Tite entre 2016 e 2018. Nenhuma vingou.
Está aí nesse novo processo um pouco do nosso “antigo futuro”. Ancelotti concordou, concorda?
Além das metas na integração das seleções de base, CBF anuncia que o projeto contempla e obriga o Brasil a conquistar a Copa América de 2028 e ser o primeiro colocado nas Eliminatórias da Copa do Mundo 2030. Ah, bom!
Temos muitas dúvidas de que Carlo Ancelotti chegará até a Copa 2030.
E o Inventário da Derrota chega à descrença da torcida e da maioria da mídia em geral de que não temos mais jogadores de ouro, extraclasse, fora de série, como tínhamos até o início dos anos 2000. Nossos Zico, Sócrates, Falcão, Romário, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Kaká, Roberto Carlos, Cafu…
Pior, a descrença indica que não formamos mais grandes jogadores. Pode ser.

Mas presta atenção nesse dado. Banco Central informa que a receita do Brasil com exportação de jogadores alcançou a cifra de R$ 3 bilhões de reais em 2025. Vendemos 1005 jogadores, segundo dados da Fifa, que atesta o Brasil como o maior exportador do mundo de jogadores até aqui.
Convenhamos, a maioria dos clubes europeus compradores não gasta toda essa fortuna levando jogadores penas de pau. Gastam os tufos levando nossos talentos embora.
Por isso a tese de que não formamos mais craques é desmentida por essas cifras do Banco Central do Brasil e registros da Fifa.
Se formamos e exportamos talentosos jogadores a granel, o que falta para formamos seleções de alto nível é mesmo método.
Passa da hora de entender o que é “identidade de Seleção Brasileira”. Não é amor à camisa, patriotada a cada quatro anos. É bola, Entender que precisamos jogar bola como nos tempos de glória.
Técnico, jogadores, CBF têm a história pronta a estudar. Entender nossa alma. Em vez da prosa europeia, a poesia, como pregou o cineasta italiano Paolo Pasolini, de quem Ancelotti é admirador da obra cinematográfica.
Seleção Brasileira é método, filosofia, futebol na sua essência. Não é mais reunir os melhores, distribuir as camisas e adotar um esquema tático. É incutir na cabeça de jogadores e treinador que sabemos como fazer.
E não é preciso pensar no “antigo futuro”.
O caminho do presente tem muito do refrão da Copa do Mundo de 1958. “A taça do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa”.
Acompanhe levantamento do site ge (globo) com desempenho ridículo da Seleção Brasileira no ciclo de quatro anos – de 2022 a 2026. Confira:
- Duas derrotas para seleções africanas nos três primeiros jogos (Marrocos e Senegal)
- Derrota para o Uruguai depois de 22 anos (2 x 0 em Montevidéu)
- Primeira derrota para Colômbia na história das eliminatórias (2 x 1 em Barranquilla)
- Primeira derrota em casa na história das eliminatórias (1 x 0 Argentina no Maracanã)
- Pior derrota da história das eliminatórias (4 x 1 Argentina)
- Pior campanha da história das eliminatórias (Quinto lugar)
- Pior ano da Seleção desde 1940 (2023 com 37% de aproveitamento)
- Eliminação nas quartas de final da Copa América
- Ciclo com pior aproveitamento da história (54,9%, 39ª entre as 48 da Copa)
- Primeira derrota para o Japão na história
- Pior campanha em Copas desde 1990
- Maior jejum de títulos de Copas desde 1958 (28 anos)
- Seis eliminações consecutivas para Europeus
- Maior número de treinadores desde 1970 igualando 1986 e 2002
- Recorde de repetição de convocados de uma Copa para outra após pregar um ciclo de renovação
mmmmmmConfira #episódio1, #episódio2 e #episódio3 do Inventário da Derrota do Brasil na Copa do Mundo 2026:
Inventário da derrota da Seleção (episódio 1): Do caos aos vacilos de Ancelotti na Copa 2026
Inventário da derrota (episódio 2): Da suntuosa convocação e Neymar ao mundo rico na Copa
Inventário da derrota (episódio 3): Do capatosta ao traíra na Copa 2026
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