Guerra dos Tronos: acirra batalha da vaidade entre treinadores no futebol brasileiro – Cuca x Abel

foto: Perdo Souza/ Atlético-MG

Treinadores estão guerra no futebol brasileiro nesta fase de fogo da temporada 2022. Em jogo, a hegemonia na América, a vaidade, a sobrevivência no emprego, as conquistas dos principais campeonatos do país e a sucessão de Tite na Seleção Brasileira.

O mais irado, digamos, angustiado, é Cuca, atual comandante do Atlético. Ao voltar ao time mineiro, ele se imaginava despachando Abel Ferreira e Palmeiras nas quartas de final da Libertadores. Teria assim pavimentado o caminho rumo ao único título que lhe escapou em 2021 e consolidado seu nome como herdeiro do trono de Tite.

Caiu atônito nos dois jogos em que vencia, um por 2 a 0 e outro com 11 jogadores de seu time contra 9 de Abel.

“Quando você está vencendo (Abel), tudo o que você faz é perfeito, é bonito, é maravilhoso. Se você sai para o vestiário na hora dos pênaltis, escuta música e ganha, vira moda. E se perdesse? Quando você (goleiro Weverton na decisão de pênaltis contra Atlético) cai seis vezes no mesmo canto e ganha é legal. Vocês lembram do Muralha, que caiu seis vezes e perdeu, o que aconteceu? Quando você tem dois jogadores expulsos (Palmeiras), não passa nada, porque a cabeça é fria. Mas não foram cabeça fria. Poderiam ter quebrado um jogador nosso”.

“Se a derrota vem para eles nesse jogo (Palmeiras x Atlético), vocês estavam cobrando as duas expulsões, as seis caídas do goleiro no mesmo canto, o treinador que não ficou para os pênaltis, etc. Mas quando se ganha, tudo é perfeito. Parabéns para o Abel, parabéns para o Palmeiras. Boa sorte. Pronto, falei!” – Cuca.

Inconformismo de Cuca está atrelado à terceira queda diante de Abel na Libertadores (2020, 2021 e 2022) e, por tabela, perda de pontos preciosos na sucessão de Tite.

Cuca se irritou, engoliu marimbondos ao ouvir Abel o aconselhar após ser eliminado pelo Palmeiras no jogo do 11 contra 9.

“O Cuca é um treinador extremamente experiente, com muitos títulos. Certamente, quando assistir a essa partida, ele vai perceber que tinha muitos jogadores por fora do nosso bloco, que tinham sete jogadores por fora do nosso bloco. E você tem que ter gente por dentro para atacar a nossa linha…”  – disse Abel, sem nenhuma modéstia.

Abel Ferreira, do Palmeiras – foto: Cesar Greco / Ag Palmeiras

Mano Menezes, outro a ocupar a trincheira nesta guerra de egos, digamos, dos tronos, socorreu Cuca e ironizou Abel.

“Vocês ouviram uma aula aí na semana passada (Abel ‘ensinando’ Cuca), que tem que botar gente dentro do bloco e não pode só jogar fora do bloco, então vamos trabalhar isso. É necessário. Isso causa estabilidade maior para uma equipe construir” – disse Mano, minutos depois de o seu Inter vencer o Fluminense por 3 a 0.

Neste mesmo fim de semana, Vitor Pereira chutava a compostura ao responder se tinha medo de perder o emprego após derrota do Corinthians no clássico contra Palmeiras.

“Você deve estar a brincar comigo, cara. Deve estar a brincar comigo com essa pergunta. Eu, nesta fase da minha vida, da minha carreira, ter medo de perder emprego? Sabe quanto dinheiro eu tenho no banco, amigo? Eu tenho a vida estabilizada, não preciso… Estou aqui no Corinthians, se não for no Corinthians é em outro clube qualquer. E quando eu quiser…” – Vitor Pereira.

Um dia depois, tentou se redimir:

“De fato, não me expressei da melhor forma, reagi a quente, enervado, sem paciência, depois de uma derrota que para mim foi injusta. Mas, enfim, é futebol. O que eu quis dizer, e provavelmente não me expressei da melhor forma, é que não vim para o Corinthians por dinheiro porque, graças a Deus, ao trabalho e à sorte, fui construindo a minha carreira sem me motivar por dinheiro” – disse Vitor à imprensa de Portugal.

Se você prestar atenção, essas rusgas entre treinadores e, por efeito, com a mídia em geral passa pelo sucesso de Abel Ferreira nos últimos dois anos pilotando o Palmeiras.

Abel, parece, provoca essa irritação a cada vitória de seu time e declarações fortes no pós-jogo. Não por acaso, evoca Telê Santana – eleito há duas semanas o melhor treinador do Brasil pelos próprios técnicos em atividade ou não.

Sucesso prematuro de Abel alimenta as trincheiras dessa Guerra dos Tronos, declarada sangrenta desde o 7 a 1 da Alemanha na Copa de 2014.

Ao decreto do 7 a 1, se deu por consumado que o futebol brasileiro deveria varrer técnicos veteranos e alçar os jovens ao comando dos principais clubes do país.

Saíram os “velhinhos”, se instalaram os “imberbes” e nada aconteceu. De lá para cá, sobressaíram apenas Rogerio Ceni, Fernando Diniz e Maurício Barbieri. E olha lá.

Fernando Diniz – foto: Fluminense

De repente, do nada, aparecem o argentino Jorge Sampaoli e o português Jorge Jesus em 2019. Na direção do Flamengo, Jesus virou futebol brasileiro do avesso do avesso.

Estava decretada nova ordem no país pentacampeão do mundo: a vez era dos técnicos estrangeiros.

Jesus foi embora, Sampaoli também. Começaram a desembarcar, sem ordem cronológica: Abel Ferreira, Eduardo Coudet, Juan Vojvoda, Turco Mohamed, Paulo Souza, Vitor Pereira, Luis Castro, Cacique Medina, Fabián Bustos, Antonio Moreira, Gustavo Morínigo, Miguel Angel Ramirez, Hermán Crespo e outros menos votados.

Nem todos sobreviveram, digamos, a maioria sucumbiu abrindo espaços para as voltas de Dorival Junior, Cuca, Mano Menezes e Felipão. E se acirrou ainda mais a vaidade no mundo dos técnicos.

Neste momento, as espadas apontam em direção a Abel Ferreira.

Enquanto as batalhas se intensificam rodada após rodada dos campeonatos, a imprensa se delicia em intermináveis programas tipo mesa-redonda na TV e redes sociais com a verborragia dos treinadores.

Aliviados, imperturbáveis e sem ser incomodados com a troca acirrada de flechas e lanças entre os técnicos, aparecem os jogadores – verdadeiros espectadores da Guerra dos Tronos. Poucos são cobrados nesse game sem fim.


Copiar e colar:

Jorginho, técnico do Atlético-GO, afirmando que Abel Ferreira foi desrespeitoso com o árbitro Ramon Abatti na vitória de virada do Palmeiras por 4 a 2 em junho:

– Quando você bate palma para o árbitro está querendo literalmente “sacanear” o juiz. Então, é uma coisa que me revolta como treinador, como brasileiro, porque vem no nosso país e está desrespeitando nosso país, nossos árbitros, dizendo que ele é cego, xingando de tudo quanto é nome e nada aconteceu. Mas está tudo bem, vai ficar como choro de perdedor e as coisas passam e não acontece nada, mas quero deixar meu protesto – afirmou Jorginho.