Tite deixa Seleção Brasileira e imprensa esportiva perde poder na sucessão do império

Ingresso dos jogos da Seleção custa caro Jogadores da Seleção Brasileira celebram gol na vitória contra Equador na Arena do Grêmio - foto Mowa Press

Tite encerra seu império no comando da Seleção Brasileira dia 19 de dezembro, campeão do mundo ou não na Copa do Qatar 2022. Sucessão do treinador está aberta. E dessa vez, após décadas de imposição e muita força, a imprensa esportiva não terá poder real na indicação do “novo imperador” da Seleção.

“Não há chances de eu continuar. Absolutamente não. Tenho maturidade na decisão. E também não (futuro definido). Quero ficar de corpo e alma para o melhor trabalho possível na Seleção (na Copa 2022). Quero ficar em paz. Quero dormir em paz”, disse Tite, no programa Bem Amigos de Galvão Bueno, nessa segunda-feira (12/09).

Juninho Paulista, também participante do programa, contou que o presidente da CBF Ednaldo Alves não quer se manifestar a respeito da sucessão de Tite, pelo menos neste momento pré-Mundial. Pede foco total na Copa do Qatar. Juninho é coordenador da Seleção Brasileira.

Em outros tempos, uma hora dessa, os nomes cotados a substituir o técnico da Seleção estariam na mesa do presidente da CBF e na boca da imprensa esportiva. Pressão total da mídia a favor de um candidato. Imposição mesmo.

Desde a década de 1950 tem sido assim. Não se escolhia um treinador para assumir a Seleção sem a benção ou determinação da crônica esportiva.

Flávio Costa, técnico da Seleção na Copa do Mundo de 1950, assumiu o escrete indicado pelo presidente da CBF (na época CBD) Rivadávia Correia Meier influenciado por jornalistas esportivos de peso nos jornais e rádios da época.

Ao assumir a Seleção, Flavio teria de dividir seu trabalho com uma comissão técnica de 17 membros, entre eles Mario Filho, jornalista esportivo dos mais influentes do país (dono do Jornal dos Sports no Rio) nos anos 40 e 50. Para se ter ideia do seu prestígio, o estádio do Maracanã leva seu nome.

Mario Filho, relata Flavio Costa em seu livro “O Futebol no Jogo da Verdade” (publicado em 1996), quis impor seu projeto de preparação da Seleção à Copa de 1950. Personalidade forte, Flavio não aceitou e Mario Filho deixou a comissão técnica. E se vingaria de Flavio na indicação do técnico da Seleção na Copa de 1958 na Suécia, segundo conta o próprio Flavio.

Jornalistas esportivos de renome nas décadas de 40, 50 e 60 eram consultados pelos dirigentes de clubes e CBF sobre treinadores e projetos de trabalhos na Seleção. E a entidade sempre atendia às indicações da imprensa.

Flavio Costa conta que antes da Copa de 50 foi até a Europa observar os principais adversários do Brasil no Mundial. Na sua comitiva, em vez de auxiliares técnicos, só jornalistas esportivos: os radialistas cariocas Oduvaldo Cozzi, Luiz Mendes, Pedro Luiz (de São Paulo) e Gagliano Neto e do jornalista Geraldo Romualdo da Silva.

Ao perder do Uruguai na final da Copa de 50, o Maracanazo, Flavio Costa deixa a Seleção. Volta em 1955 e seria candidato natural a comandar o escrete na Copa de 58.

Segundo Flavio Costa, Mario Filho moveu uma campanha contra a sua volta e se saiu bem. Aliado a Paulo Machado de Carvalho, dono de emissora de TV e rádio em São Paulo, Mario Filho foi contra Flavio e Vicente Feola, técnico do São Paulo, acabou indicado para dirigir a Seleção na Suécia.

Seleção Brasileira agora estava nas mãos de um imperador das comunicações no Brasil fortemente influenciado pela imprensa esportiva.

Paulo Machado de Carvalho, dono da TV Record e da rádio Panamericana (depois Jovem Pan), havia sido eleito vice-presidente da CBF na chapa do presidente João Havelange.

Astuto, Havelange deu a Paulo Machado a missão de elaborar o projeto da Copa do Mundo de 1958. Havelange, forte no Rio e com a crônica esportiva carioca ao seu lado, ficaria bem com a imprensa paulista ao nomear o conhecido “doutor Paulo” para tomar conta da Seleção.

Aliviava assim a eterna guerra entre paulistas e cariocas pelos destinos do futebol brasileiro.

Paulo Machado de Carvalho, amante do futebol e ligado ao São Paulo FC, recorre a quem para tocar o projeto da Seleção na Copa?

Resposta fácil: a três grandes nomes do jornalismo esportivo da imprensa paulista – Ary Silva, Flavio Iazzetti e Paulo Planet Buarque.

Estava formada a santa trindade da imprensa que entregaria a Paulo Machado de Carvalho o mais ousado e moderno plano de preparação e condução da Seleção numa Copa do Mundo. Havelange, por seu lado, montou uma comissão técnica com profissionais de requinte em todas áreas.e

Brasil é campeão do mundo pela primeira vez em 1958, repete a dose em 1962 no Chile e só não emplaca tri na Inglaterra em 1966 por desgaste dos alicerces plantados pelos três jornalistas e o “Marechal das Vitórias”, Paulo Machado de Carvalho.

O fracasso na Copa de 66 leva Havelange, ainda no comando da CBF, a se socorrer à imprensa esportiva mais uma vez. E a bola da vez seria nomear o jornalista gaúcho, um dos mais influentes na imprensa esportiva carioca, João Saldanha a novo comandante da Seleção.

Enfim, de fato, um jornalista dirigiria o império da Seleção.

Comunista de carteirinha e militante ativo do partido, Saldanha assume a Seleção com a benção da mídia esportiva. Resgata a arte do futebol brasileiro nas Eliminatórias da Copa de 70 e, a três meses do Mundial no México, é demitido dando seu lugar a Zagallo.

A queda de Saldanha é uma longa história e está ligada diretamente ao poder da Ditadura Militar no Brasil. Por pressão do ditador de plantão na época, o general Emilio Garrastazu Médici, João Saldanha deixa o império do escrete – história muito bem contada no livro “João Saldanha, uma vida em jogo”, de André Iki Siqueira (publicado em 2007).

Zagallo assume a Seleção e conquista o Tri na Copa de 70.

Imprensa esportiva, até então muito forte nos destinos da Seleção, perde espaço assim como toda a imprensa em geral no Brasil sob Ditadura Militar.

Havelange deixa a CBF em 1974 e vira presidente da Fifa naquele ano.

CBF volta a ser disputada por cariocas e paulistas, por tabela, a Seleção Brasileira.

Na Copa de 1974 na Alemanha, Brasil sob comando de Zagallo não repete o extraordinário feito de 70 e termina no quarto lugar.

Sob o peso do governo militar, Seleção passa ao comando do capitão Claudio Coutinho, militar membro da comissão técnica de Zagallo em 70 e na época técnico do Flamengo. Imprensa sem voz.

Coutinho fracassa na Copa de 78 na Argentina e deixa o escrete.

Brasil começa se arejar com movimentos pela volta da democracia ao país. Militares perdem força. CBF volta ao convívio cúmplice da mídia esportiva. Até que, unanimidade nacional, a Seleção é entregue a Telê Santana, muito bem visto no futebol paulista, carioca, gaúcho e mineiro.

Assim como Saldanha, Telê devolve o futebol arte à Seleção, mas não conquista as Copas de 1982 e 1986.

Telê sai de cena. A CBF volta ao círculo de influência de João Havelange com seu genro Ricardo Teixeira assumindo a presidência da entidade em 1989.

Sem nenhuma intimidade com o futebol, Teixeira recorre a dois ex-jornalistas esportivos para administrar a CBF e, por tabela, a Seleção. Jota Hawilla, ex-jornalista esportivo paulista, e Kleber Leite, ex-jornalista esportivo carioca, viram assessores informais de Teixeira e parceiros dos negócios da CBF. Hawilla e Kleber tinham muita influência na imprensa esportiva de São Paulo e Rio.

Por sugestão direta de Hawilla e Kleber, Teixeira vai nomeando e derrubando técnicos da Seleção. Paulo Roberto Falcão, um dos craques do time de 82, é o primeiro assumir depois da queda de Sebastião Lazaroni, apadrinhado pelo dirigente vascaíno Eurico Miranda, então diretor de seleções na CBF de Teixeira na Copa de 90 na Itália.

Cai Falcão e Teixeira, atendendo sugestão de Hawilla e Kleber e bênção de Havelange, resgata a dupla Carlos Alberto Parreira e Zagallo, parceiros na comissão técnica da Copa de 70.

Vem o tetra nos Estados Unidos em 1994. Teixeira se fortalece e, ao lado de Hawilla, escala Zagallo na Copa de 98 em retribuição ao tetra de 94.

Brasil é vice na França e Zagallo é substituído por Vanderlei Luxemburgo no comando da Seleção. Luxemburgo era unanimidade no fim dos anos 90 pelas conquistas no Palmeiras e depois Corinthians. E de muito prestígio com Jota Hawilla.

Luxemburgo não dura muito tempo no império. Mergulhado na crise política e denúncias de corrupção na CPI da Nike, Ricardo Teixeira oferece a cabeça de Luxemburgo na bandeja e depois de tentativas frustradas com Emerson Leão, nome forte na imprensa esportiva paulista, recorre a Luiz Felipe Scolari, outra unanimidade nacional.

Com Felipão, Brasil conquista o penta em 2002. Teixeira se fortalece novamente e passa a ter um aliado de peso: a TV Globo, que compra direitos exclusivos de transmissão de jogos da Seleção Brasileira e dos principais campeonatos do país.

Núcleo de Esportes da Globo e Hawilla ganham mais peso ainda nas escolhas de Teixeira nas Copas de 2006 (Parreira) e 2010 (Dunga).

Fracassos na Alemanha (2006) e África do Sul  (2010) obrigam Teixeira a pedir socorro à Globo e seus aliados em busca de um novo técnico da Seleção. Muricy Ramalho, bem avaliado por suas conquistas no São Paulo e Fluminense, é convidado e rejeita o cargo.

Nome de Luxemburgo volta à cena, mas Teixeira se socorre a Andrés Sanchez, presidente do Corinthians e responsável pela implosão do Clube dos 13 (associação dos principais clubes brasileiros) a favor da CBF, que indica Mano Menezes, então técnico do Corinthians.

Teixeira deixa CBF em 2012 atolado em denúncias e investigação por corrupção nos negócios da entidade. Assumem José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, nomes fortes no futebol paulista há décadas.

Marin e Teixeira fritam Mano Menezes e, a um ano da Copa de 2014 no Brasil, escalam Felipão e Parreira para tomar conta da Seleção no sonhado hexa no Brasil. Os dois últimos campeões do mundo seriam bem aceitos pela mídia em geral.

Tsunami dos 7 a 1 derruba Felipão e Parreira. Marin e Del Nero, aliados à Globo, recorrem a Dunga novamente por incrível que pareça.

Dunga fracassa na Copa América de 2016 nos Estados Unidos. Del Nero assume as rédeas da CBF e convoca Tite para ser o novo chefe da Seleção. Tite era técnico do Corinthians, tinha total apoio da mídia esportiva paulista em todas as esferas.

Assumia Seleção beijado na face por Del Nero. Explode nas Eliminatórias da Copa de 2018 e fracassa no Mundial na Rússia.

foto: CBF

Assim que é eliminado nas quartas de final diante da Bélgica, Tite recebe apoio expresso de Galvão Bueno, ainda nas tribunas do estádio de Kazan (palco da derrota do Brasil), para que continuasse no comando da Seleção pelo menos até a Copa de 2022 no Qatar. Dito e feito.

Entre 2012 e 2018, Teixeira, Marin e Del Nero são banidos do futebol pela Fifa. Hawilla vira delator em longo processo de investigação do FBI no maior caso de corrupção do futebol mundial até falecer em maio de 2018 – leia “O Delator”,  livro de Carlos Petrocillo E Allan de Abreu (publicado em 2018).

Sem Teixeira, Marin e Del Nero, a CBF cai no colo do jovem dirigente paulista Rogerio Caboclo. Caboclo sustenta Tite escorado no apoio do banido Del Nero e boa parte da mídia esportiva. E deixa a CBF em 2021, investigado por assédio moral e sexual.

Neste período de crises e escândalos na CBF e futebol brasileiro, Globo perde seu poder de influência nos destinos da Seleção Brasileira.

A mídia esportiva, com a decadência e dos jornais impressos e pulverização em alta escala de mídias digitais e streaming, também fica sem força na CBF e sem voz nos rumos da Seleção.

O império da crônica esportiva, nascido nas ondas do rádio e jornais do Rio e São Paulo nos anos de 1940 a 1980, se esfarela. Jornalistas perdem prestígio.

E a CBF não se deixa levar, pelo menos nas aparências, pela pressão da imprensa esportiva nos destinos da Seleção. Diminui a temperatura.

A sucessão de Tite está na mesa do presidente da CBF. A quem a entidade vai recorrer em busca de um nome consagrador?

Abel Ferreira, do Palmeiras – foto: Cesar Greco / Ag Palmeiras